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15ª Mostra de Cinema de Tiradentes

A 15ª Mostra de Tiradentes começou com a exibição do irregular Billi Pig, novo longa de José Eduardo Belmonte com Selton Mello, Grazi Massafera e Milton Gonçalves no elenco.

É uma operação curiosa a que Belmonte optou por fazer. Depois de construir narrativas nas quais é possível perceber certa estrutura, apesar da liberdade das produções, o diretor filma pela primeira vez com um orçamento maior, com a proposta de fazer uma comédia popular, e arrisca muito mais do que em seus filmes independentes.

O tom é sempre delirante, e algumas gags são bem engraçadas. Pena que a falsa necessidade de desenvolver um fiapo de história tenha feito com que Belmonte se perdesse um pouco com o delírio e as possibilidades de humor, fazendo um filme frouxo, sobretudo em seu terço final. Seria melhor ter assumido seu lado Hellzapoppin, a comédia maluca dos anos 30 que os quarentões viam nas sessões da tarde de um passado distante.

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Minha cobertura acontecerá principalmente no UOL. Mas aqui devo fazer os tradicionais posts com cotações.

Além disso, eu e Heitor Augusto iremos escrever algo também para a Revista Interlúdio, provavelmente ainda durante o evento.

Boa leitura.



Escrito por sérgio alpendre às 01h21
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Top 20: circuito comercial em 2011

Para a lista de melhores de 2011 resolvi ampliar um pouco o campo. Agora valem todos os filmes lançados no Brasil (mesmo que em uma única cidade) que tenham sido realizados de 2007 em diante. Resolvi ampliar para poder incluir o maravilhoso longa autobiográfico de Agnès Varda, e também porque nosso circuito comercial demora absurdamente para lançar filmes europeus ou independentes.

Como sempre, não pretendo aqui fazer uma lista de melhores filmes que vi em 2011, como faz o Leandro Caraça. Prefiro optar por uma lista de filmes elegíveis fechada e em comum com outros cinéfilos. A lista perde em qualidade, mas acho que a brincadeira fica um pouco mais divertida. Além disso, não saberia dizer quais filmes foram vistos em janeiro ou fevereiro, e quais foram vistos em novembro ou dezembro (ou mesmo antes) do ano anterior.

RELANÇAMENTO DO ANO:

Violência e Paixão (Conversation Piece, 1974), de Luchino Visconti
Burt Lancaster em estado de graça, defendendo sua solidão ameaçada. Uma obra-prima do mestre Visconti.

O CIRCUITO EM 2011 (contando estreias de todo o Brasil cuja data do primeiro lançamento não seja anterior a 2007)


1) Além da Vida (Hereafter, 2010), de Clint Eastwood
Eastwood ensina como se cruzar várias histórias e lidar com o sobrenatural.

2) As Praias de Agnès (Les Plages D'Agnès, 2008), de Agnès Varda
Uma cine-autobiografia tocante e bem humorada dessa grande cineasta francesa.

3) Singularidades de uma Rapariga Loira (2009), de Manoel de Oliveira
Oliveira menor. O que já é suficiente para ser um dos melhores do ano.

4) Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010), de Abbas Kiarostami
Um Kiarostami aparentemente atípico, lúdico e transformador.

5) A Pele Que Habito (La Piel que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar
Renovação e amargura em um dos melhores filmes do diretor.

6) O Garoto da Bicicleta (Le Gamin au Vélo, 2011), de Jean-Pierre e Luc Dardenne
Mais um filme que sugere renovação, desta vez rumo à simplicidade.

7) O Sequestro de um Herói (Rapt, 2009), de Lucas Belvaux
Sóbrio e solene como um grande policial francês dos anos 70.

8) Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen
Um delicioso divertimento por um diretor especialista em divertimentos.

9) Margin Call - O Dia Antes do Fim (Margin Call, 2011), de J.C. Chandor
"Hoje está passando um filme de terror".

10) Desconhecido (Unknown, 2011), de Jaume Collet-Serra
O diretor catalão faz o filme de ação do ano.

11) Riscado (2010), de Gustavo Pizzi
A vontade artística e seus obstáculos.
12) Faça-me Feliz (Fais-moi Plaisir, 2008), de Emmanuel Mouret
Depois de Horas, o francês entorta.
13) O Vencedor (The Fighter, 2010), de David O. Russel

Foi o único filme que me fez ficar com vontade de ser boxeador. O que diz muito de suas qualidades.
14)
Caminho para o Nada (Road to Nowhere, 2010), de Monte Hellman
Um filme decepcionante de um grande diretor.
15) A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2011), de Werner Herzog
3D usado inteligentemente, o que é raro.  
16) Trabalhar Cansa (2011), de Marco Dutra e Juliana Rojas

Muito melhor que os curtas dos diretores, este longa sinaliza duas carreiras promissoras.
17) Capitão América: O Primeiro Vingador (C.A.: The First Avenger, 2011), de Joe Johnston
Aventura à moda antiga, indo na contramão dos estúdios Marvel.
18) Namorados Para Sempre (Blue Valentine, 2010), de Derek Cianfrance
O título dado no Brasil é o mais enganador dos últimos tempos.
19) Isto Não é um Filme (This is Not a Film, 2011), de Jafar Panahi
É, sim.
20) Os Residentes (2010), de Tiago Mata Machado

Um grande mérito: mostrar uma das melhores DRs do cinema brasileiro. Jabor perde.


Observações:

a) Se valessem só estreias paulistanas, quatro filmes seriam desclassificados (As Praias de Agnès, Caminho para o Nada, Faça-me Feliz e Caverna dos Sonhos Esquecidos). Em seus lugares, entrariam, nas últimas posições: Sem Saída, Estrada para Ythaca, Super 8 e Chantal Akerman de Cá.

b) Comparada com a lista do ano passado, que pode ser lida aqui, a deste ano está bem mais fraca. Sinal claro de enfraquecimento do circuito. Ou seja, o que estava ruim, ficou ainda pior.

c) Como a lista deste ano está mais fraca, é bem possível que algum filme que perdi no circuito pudesse entrar caso eu tivesse visto. Turnê, por exemplo.

d) Na lista do filme B consta O Casamento a Três, um filme de 2009 do Jacques Doillon, diretor que geralmente faz filmes que me agradam bastante. Por acaso esse filme estrou mesmo em algum lugar?

e) Do nono ao vigésimo lugar, todos ganharam a mesma nota em meu arquivo pessoal: 7,5.



Escrito por sérgio alpendre às 23h56
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Encerrando 2011 - Parte 4 (e uma dica para 2012)

A Guerra Está Declarada, de Valérie Donzelli

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A lista dos 20 melhores filmes lançados comercialmente no Brasil será publicada na próxima segunda-feira. Enquanto isso, mais dois filmes foram vistos, passando a limpo parte do ano passado no circuito.

- Turnê, de Mathieu Amalric, até que vai bem como um sub-Cassavetes. A estreia de Amalric na direção lembra bastante uma das obras-primas de Cassavetes, A Morte de um Bookmaker Chinês. O ponto forte é o olhar para as artistas americanas de neoburlesco, que se encontram com um agente francês (Amalric, de bigode) para uma turnê em conjunto pela França. O uso da trilha sonora também merece destaque.

- Doce Vingança, de Steven R.Monroe, é uma atualização de A Vingança de Jennifer (Meir Zarchi, 1978). Como o anterior era bem forte para a época, a atualização vai até o extremo do palatável para um público acostumado com os Jogos Mortais da vida. As mortes são inventivas como num desenho animado, e a moça violentada adquire traços de espírito maligno durante sua vingança. O filme explora a catarse do espectador. Este fica com tanta raiva dos estupradores que pode até se regozijar com as execuções. Não gosto, mas também não é o lixo que eu esperava.

Abrindo 2012:

- A Guerra Está Declarada é um belo filme francês que chegou em janeiro ao nosso combalido circuito comercial. Foi dirigido e atuado por Valérie Donzelli, contracenando com o marido (juntos enfrentaram os mesmos problemas na vida real: filho com câncer, cartão de crédito estourado, harmonia enfraquecida, etc.). Tem um achado considerável: perceber que mesmo nos momentos mais tristes existe algo inusitado que pode nos fazer rir. A maneira como a diretora nos mostra isso é muito feliz. E alguns diálogos seriam proibidos no Brasil politicamente correto e bundão de hoje (nos EUA também, aliás).

Por mais que ultimamente a Cahiers du cinema esteja muito pouco confiável, desta vez eles acertaram (se bem que nessa mesma edição tem um mar de estrelas para Melancolia). É exagerado dar a cotação máxima (como Delorme e Tessé o fizeram), mas é um filme que vale ver. Mas é preciso ter muita paciência com o público do Reserva Cultural, que está cada vez mais nojento (do tipo que te olha feio porque você tem barba). Esse tipo de elite paulistana, que olha para todos com superioridade, poderia passar férias permanentes na Suiça.



Escrito por sérgio alpendre às 02h19
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Encerrando 2011 - Parte 3

Brasil: na trave! Dois filmes brasileiros que quase chegaram lá, a meu ver.

- Estamos Juntos (foto), de Toni Venturi, é outro drama que tem seus achados, principalmente pelo trabalho dos atores. Leandra Leal (que interpreta Carmem) já esteve melhor, mas ainda assim arrasa em algumas cenas, comprovando mais uma vez a boa atriz que é. Cauã Reymond parece crescer a cada dia como ator, com uma interpretação semelhante àquela de Falsa Loira, só que ainda mais segura. O amigo imaginário de Carmem (ou melhor: marido passivo e imaginário) é uma grande bobagem no filme. Serve apenas para deixar a personagem menos interessante. Venturi tem coisas interessantes em sua carreira. Costuma se dar melhor nos documentários, mas sempre há algo a se reter em suas ficções.

- Bróder, de Jeferson De, é daquele tipo de filme que começa tão bem que a gente fica torcendo para que não saia dos trilhos. Infelizmente, se não chega a sair, é atrapalhado por alguns obstáculos no caminho, quase todos relativos à tendência do personagem de Caio Blat de entrar em enrascadas. O ambiente familiar da comunidade é tão bem filmado (incluindo a maneira de lidar com um jovem que cresceu lá e fez sucesso como jogador de futebol no exterior) que era desnecessária essa subtrama pelos descaminhos do crime.



Escrito por sérgio alpendre às 20h46
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Encerrando 2011 - Parte 2

É a vez das comédias e dos europeus.

- Missão Madrinha de Casamento certamente não é a cocada toda que anunciaram aos quatro ventos. Só está acima da média das comédias americanas que estrearam no ano porque tal média foi bem baixa. Kristen Wiig tem sua grande chance sob uma produção de Apatow (ela já havia participado de Férias Frustradas de Verão e Ligeiramente Grávidos, mas nunca com tamanho destaque). É uma ótima atriz cômica, como já sabem os que ainda assistem ao Saturday Night Live. Mas o filme é longo, a direção de Paul Feig nem sempre segura o ritmo, e o elenco é bem desigual.

- Muito pior é Quero Matar Meu Chefe, que desde o início se revela uma bobagem sem tamanho com aqueles letreiros estúpidos anunciando os personagens incômodos e as narrações que parecem ter sido escritas por um garotinho de oito anos. Nem as participações de Jamie Foxx, Colin Farrell e Kevin Spacey ajudam a criar algum interesse pelo que acontece em cena. Uma nulidade, confirmando a incompetência de Seth Gordon (de Surpresas do Amor).

- Passando para os europeus, tive uma certa decepção com Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino, que andou figurando em algumas listas de melhores. Não que o filme italiano protagonizado por Tilda Swinton seja ruim. Tem uma direção estilizada, algo entre Lucrecia Martel e Marco Bellocchio. Mas fica a milhas desses dois, principalmente porque é monocórdico, insiste num mesmo tom, o da contenção, para que a explosão só aconteça no final. Entendo que é para ser assim, é sua proposta. A questão é que ficou entediante, principalmente porque esses burgueses do filme não me interessaram em momento algum. Logo, a explosão final também não me causou maior efeito. Filme médio, em meio tom, para pessoas de gosto médio, como tantos que são feitos atualmente na Europa.

- O Sequestro de um Herói (foto) tinha sido lamentavelmente esquecido por mim depois que o perdi em circuito. Quem me lembrou dele foi o João Gabriel da Contracampo. Na verdade, parece ter sido esquecido pelos cinéfilos em geral, apesar de ter sido elogiado (me conta a Mônica), quando exibido na Mostra SP de 2010. Lucas Belvaux é um diretor a ser seguido. Fez uma trilogia irregular em 2002, mas que tinha pelo menos um longa forte: Acordo Quebrado. Este novo é um filme de sequestro que lembra os policiais franceses dos anos 1970 (de Yvez Boisset ou Jacques Deray), como também alguns filmes japoneses, como Sequestro, de Takao Okawara ou Céu e Inferno, de Akira Kurosawa. Direção segura, excelente trabalho dos atores e roteiro engenhosamente construído. Nos dias atuais, difícil obter mais que isso.



Escrito por sérgio alpendre às 14h42
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Encerrando 2011 - Parte 1

Janeiro chega e mais uma vez vou atrás de alguns filmes que queria ter visto no cinema, mas não pude por algum motivo. O DVD salva.

- Capitão América - O Primeiro Vingador, não é apenas o melhor filme de Joe Johnston, mas um dos melhores filmes de ação dos últimos anos. Leandro Caraça sugere, neste texto para a Revista Interlúdio, que Johnston é um diretor injustiçado. Não vejo motivo para tanto, já que não gosto propriamente de nenhum de seus outros filmes. Mas é inegável sua competência de artesão (que Caraça comparou muito apropriadamente com Nathan Juran e Byron Haskin), pelo menos nesta deliciosa aventura da Marvel. Infelizmente não será de Johnston a direção do promissor Os Vingadores (que estreia em maio deste ano). Menos mal que o escalado tenha sido Joss Whedon, que fez o simpático Serenity e tem uma elogiadíssima carreira na televisão.

- Um outro filme de ação surpreendente visto agora em DVD é Sem Saída, de John Singleton. Perde-se um pouco com algumas reviravoltas (explicadas meio nas coxas), mas é eficiente como entretenimento e nada tedioso quando detém-se no ambiente familiar do começo.

- Mudando para as comédias, não tive a mesma surpresa. Sexo Sem Compromisso se confirmou como mais uma bobagem de Ivan Reitman (que até os anos 1980 ainda fazia coisas interessantes, além de ter produzido filmes de Cronenberg), e Natalie Portman prova mais uma vez, nesse filme, que perde em beleza e sensualidade para uma outra atriz bonita que tenha sido escalada como coadjuvante. A surra aqui não é tão grande quanto a que levou de Mila Kunis em Cisne Negro, mas se eu fosse o personagem do Ashton Kutcher, iria para cima da Greta Gerwig, não da Portman.

- Se Beber Não Case II não é o desastre que pintaram alguns, nem a porralouquice que pintaram outros. É uma continuação padrão, com algumas ideias turbinadas, outras requentadas. Como não acho o primeiro grande coisa, este aqui fica um pequeno degrau abaixo, apesar de algumas piadas realmente engraçadas.

- Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família é outra continuação que não se iguala ao primeiro da série. Para este terceiro episódio da batalha familiar entre o pobre e destrambelhado Gay Focker (Ben Stiller) e o ex-agente secreto Jack Byrnes (Robert De Niro), sai Jay Roach, entra Paul Weitz, sem que haja qualquer vantagem para a mini-franquia. A graça depende exclusivamente dos atores e da construção de seus personagens nos dois filmes anteriores, e por isso não há vexame aqui. Mas é difícil não notar que a série está descendo a ladeira.



Escrito por sérgio alpendre às 01h11
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Terra em transe, fechando 2011

Ao rever Terra em Transe, uma tristeza tomou conta de mim: é impossível um filme desses ser feito hoje, no mundo, e ainda mais no Brasil. Na verdade, é impossível filmar algo com 50% de sua coragem (a não ser na clandestinidade e de uma maneira muito tosca).

Hoje em dia parece haver espaço apenas para o misticismo, os afetos, o fim do mundo providencial ou para uma divagação chula disfarçada de profunda indagação sobre o sentido da vida, nunca para um esporro contra tudo e todos, contra os mitos e as verdades vendidas em baciada ("o povo é sábio", "o caminho está à esquerda", "um filme precisa ser impecável na técnica", "viva o Brasil", "viva a juventude").

Dane-se o sincronismo de som e imagem. Um esporro desses não precisa disso. A falta de sincro, aliás, é fundamental, assim como a montagem que permite o domínio do caos.

Terra em Transe sempre foi meu Glauber preferido por ser o mais caótico, o mais glauberiano de seus filmes. É sempre bom revê-lo, ainda que seja triste compará-lo com a produção atual.



Escrito por sérgio alpendre às 15h10
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TOP 10: Frank Capra

Resolvi entrar no espírito de natal (ainda que um pouco atrasado) e promover o retorno do TOP 10 com Capra, diretor que costuma reaparecer nesta época com seu indefectível A Felicidade Não Se Compra.

Como foi difícil hierarquizar meus três preferidos, optei por deixar em primeiro aquele que descobri por último (que tem uma direção de fotografia estupenda, de Joseph Walker, e atuação inesquecível de Barbara Stanwick), e em terceiro o que eu já conhecia bem antes de ser cinéfilo. O segundo, assim como vários outros do diretor, pude ver no cinema, em 35mm.

Capra é frequentemente menosprezado por ser o diretor que representava o New Deal durante os anos difíceis da Grande Depressão. O filme mais emblemático dessa associação seria Loucura Americana, mas o enredo de A Felicidade Não Se Compra, seu filme mais famoso (que agora é lançado em Blu-ray), passa também pela época, e vários de seus longas se encaixam no espírito de ajuda e solidariedade buscado por Roosevelt na época.

Era um diretor irregular. Quando acertava, fazia grandes filmes (como os oito primeiros da lista). Mas às vezes exagerava em seu retrato do bom americano (como em Adorável Vagabundo, que ainda assim é melhor do que querem seus detratores).

1) O Último Chá do General Yen (The Bitter Tea of General Yen, 1933)

2) Do Mundo Nada Se Leva (You Can't Take It With You, 1938)

3) A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life, 1946)

4) Esse Mundo é um Hospício (Arsenic and Old Lace, 1944)

5) Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934)

6) Loura e Sedutora (Platinum Blonde, 1931)

7) A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939)

8) Loucura Americana (American Madness, 1932)

9) O Galante Mr. Deeds (Mr. Deeds Goes to Town, 1936)

10) A Mulher Proibida (Forbidden, 1932)

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OBS.: Preciso rever alguns filmes do começo dos anos 1930 (provavelmente sua fase mais interessante) e conhecer os que realizou antes de 1929.



Escrito por sérgio alpendre às 01h31
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O menino e o cavalo

Eu, que sempre desconfio da tecnologia, sei reconhecer suas benesses.

Cena: mãe e pai ficam assustados com um ataque de bandoleiros numa rua pacata e tentam atravessá-la, sabe-se lá para onde, com o filho pequeno. A cena é vista de longe, enquanto os cavalos se aproximam de onde a câmera está. A profundidade de campo auxilia nossa visão. No fundo do quadro, vemos nitidamente, sem cortes, a mesma criança sendo atrolelada violentamente por um cavalo em alta velocidade.

A imagem é chocante e me deixou abalado por alguns minutos.

Pergunta: em que filme lançado recentemente em DVD no Brasil tem essa cena?



Escrito por sérgio alpendre às 00h48
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As Canções

Não é a primeira vez que a estratégia usada por Eduardo Coutinho me desagrada. Todos os seus filmes têm momentos que me parecem terrivelmente apelativos, com truques baixos para fisgar o espectador e principalmente os críticos e teóricos. Mas seu cinema nunca havia me incomodado tanto a ponto de renegar os filmes num todo. Chegou perto com Babilônia 2000, mas o desagrado existia em trechos específicos, quando os truques se mostravam mais evidentes ou menos trabalhados. O desagrado completo se concretizou mesmo somente com As Canções.

Em minha crítica para a Revista Interlúdio, escrevi justamente que o cinema de Coutinho é baseado em truques. Tudo bem, eu mesmo já citei o grande Otto Preminger em texto, dizendo que o cinema de Hitchcock é todo baseado em truques. Preminger admirava Hitch, mas o diminuía qualificando-o como um truqueiro talentoso. Coutinho em muitos momentos é um truqueiro talentoso. Mas há uma diferença brutal entre os dois diretores, além das diferenças óbvias. Coutinho usa o mesmo pequeno expediente de truques em todos os filmes, Hitchcock usava uma gama imensa e variada deles, e seus truques não se repetiam em todos os filmes. Havia ousadia, experimentação, uma vontade de ver até onde ele podia manipular o espectador. Havia, acima de tudo, uma inteligente variação quando os truques eram os mesmos. Coutinho não arrisca. Trabalha sempre em solo seguro. Nada de errado com isso, a priori. Mas quando não há nada mais que truques, a coisa desanda.

O maior problema de Coutinho, a meu ver, é ter fãs que acreditam piamente na ideia de autor, que vão ao cinema determinados a gostar de seus filmes e relevar qualquer problema encontrado, por maior que seja. Ignoram o mau uso de procedimentos que normalmente, em filmes de pobres mortais, seriam determinantes para uma recusa. Chamei esses fãs de míopes, reconhecendo a possibilidade de que eu mesmo seja míope em relação a alguns outros autores (Scorsese, Eastwood ou Cronenberg, por exemplo). Mesmo assim, não me surpreenderia se alguns leitores viessem com mi-mi-mi, no facebook ou nos comentários deste blog. Coutinho, vaidoso como boa parte da classe artística brasileira, estaria mal acostumado graças a essa babação de ovo inconsequente. A falta de críticas a seus filmes parece ter diminuído seu ímpeto artístico. Já que qualquer coisa que fizer será agraciado com os louros de sua grife, para que se esforçar?

Moscou sinalizava uma vontade de transgredir seus próprios parâmetros. Um Dia na Vida (que eu não vi) me parece fora de consideração em sua trajetória por ser uma brincadeira. Como não vi, não vou dizer que é preguiçoso. Em As Canções, tudo que ele faz é usar os mesmos truques batidos com que ganhou prestígio, além de apelar para o sentimentalismo barato. Seus fãs podem até merecer esse tipo de repetição. Mas para a história do cinema é um filme irrelevante.



Escrito por sérgio alpendre às 16h15
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Gosto... não gosto (o retorno)

Eis a volta da brincadeira buñueliana do gosto/não gosto. Não importa a repetição de coisas. O espírito desse tipo de posts permite que uma preferência seja colocada novamente, ou mesmo uma mudança: coisas que já gostei, e agora não gosto mais, e vice-versa.

- Adoro dicionários, enciclopédias e mapas. Um dicionário enciclopédico que tenha muitos mapas, então, é um sonho de consumo. Sempre fico tentado a comprar alguma coleção da Mirador quando vejo em algum sebo. Não compro porque é sempre muito cara. Mas se alguém um dia quiser me presentear... Um amigo de infância tinha uma desas coleções, e eu podia jurar que sabia todos os verbetes de cor (leiam "cór", por favor, já que não estou falando de cores). Obviamente estava enganado, mas sempre que eu o visitava ficava horas folheando algum fascículo, para desespero dele, que devia querer jogar futebol na rua ou coisa assim. Se bem que eu não recusava convite algum para um futebol de rua nessa época. Em eventos como a festa do livro, que começou hoje na USP, a vontade é de sair com todos os dicionários que encontrar, mesmo os mais estapafúrdios. Felizmente para meu bolso, consigo conter esse impulso.

- Falando em festa do livro, é impressionante como livro no Brasil é caro. Não curto isso. A Cosac & Naify, por sinal, vende os seus pela metade do preço, e essa metade acaba parecendo preço cheio, de tão caros que são seus livros. Sabemos que o custo de impressão no Brasil é criminosamente alto. Mas editoras como a Cosac abusam de nossa paciência cobrando mais caro do que as versões importadas dos livros de seu catálogo.

- Detesto com todas as forças a burocracia e os burocratas. A burocracia é um câncer, e os que a mantém são parasitas maléficos que emperram o país e causam hipertensão nas pessoas de bom senso.

- Adoro os extras da Criterion. Um DVD dessa distribuidora, quando recheado de extras, vale o alto preço que pedem. A Versátil é a única distribuidora brasileira que se esforça nesse sentido. Mas ainda assim fica muito longe da excelência das edições da Criterion. Recentemente revi o Dillinger Está Morto que eles lançaram. Tem extras fantásticos: entrevista com Michel Piccoli, entrevista com Adriano Aprá (cujo livro sobre o Rossellini televisivo é uma das melhores coisas que li nos últimos tempos), mesa redonda Le Cercle du Minuit, com Bertolucci, Rosi e Aldo Tassone. O felizardo que sentir vontade de comprar pode seguir este link: http://www.criterion.com/films/21641-dillinger-is-dead.

- Gosto de Margin Call, esse filme surpreendentemente correto e elegante que entrou em cartaz recentemente em São Paulo. Gosto sobretudo de um elenco bem escolhido, com um Jeremy Irons bonachão interpretando justamente um presidente de empresa bonachão. Esse J.C. Chandor é esperto. Escrevi sobre o filme para a Revista Interlúdio. O link está aqui: http://www.revistainterludio.com.br/?p=1584.

- Adoro The Smiths e a voz única de Morrissey. Lembro bem da estranheza que causou o disco The Queen is Dead quando foi lançado no Brasil e invadiu as danceterias. Era uma época feliz, em que chegávamos com um vinil em casa, loucos para escutá-lo, e às vezes furá-lo de tanto ouvir. Hoje, a um só clique, temos quase todas as músicas algum dia compostas. Tornou-se fácil demais escutar as coisas. Tendemos a subestimar o poder da música. Há os que a desvalorizam: aqueles que escutam música na rua, obviamente tendo as minúcias encobertas pelos altos decibéis desta cidade (e de qualquer outra com mais de 500 mil habitantes). E aí sou obrigado a homenagear novamente Nosso Senhor Buñuel, que disse mais ou menos assim em sua deliciosa autobiografia:

"Para alcançar toda a beleza, três coisas me parecem fundamentais: esperança, luta e conquista".



Escrito por sérgio alpendre às 01h05
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Cinema Mundo, Taxi Driver e outras coisas de montão

- O Cinema Mundo está fazendo da cidade de Itu um marco do cinema autoral. O Gerente (Paulo Cezar Saraceni), Tamboro (Sérgio Bernardes), Djalioh (Ricardo Miranda), Trabalho e Desertos (ambos de Luiz Rosemberg Filho), (Joel Yamagi e Jader Gudin). Uma seleção que dispensa comentários. E ainda foram exibidos Morada (Joana Oliveira), Os Residentes (Tiago Mata Machado), Mãe e Filha (Petrus Cariry), Post Morten (Pablo Larrain) e Garcia (José Luis Rugeles). Para quem mora em São Paulo ou nas imediações, vale a pena conhecer o festival. Programem-se para o ano que vem. O clima é de puro cinema, de resistência, de liberdade, de vôos arriscados e belos. Sou suspeito, obviamente, já que me tornei amigo do pessoal todo que faz o festival, Renata Saraceni (idealizadora) e Antonio Pacheco como os incansáveis capitães do barco. Mas me parece inegável que o Cinema Mundo de Itu é parada obrigatória.

- Sócrates se foi. Comento só agora, mas a dor está comigo há dias. Uma fineza em campo (literalmente). Como a Globo só mostrava os jogos do Corinthians para São Paulo, a maior parte dos brasileiros só conhece o que ele fez na seleção, o que já é muito acima da média, mas é apenas a ponta do iceberg do que ele era capaz. Foi um dos maiores jogadores que eu vi jogar, e o mais elegante de todos.

- Corinthians campeão. Heitor, corintiano como eu, tem razão. Não é um time que dá gosto de ver jogar. Dá raiva em muitos momentos, pois parece que não há a menor vontade de vencer. Mas me surpreende o ódio que muitos demonstraram nas redes sociais. Nunca vi isso. Acho que nem com camisa de força isso se resolve.

- Reouvindo algumas pérolas do Zappa, da melhor safra possível, com o gênio George Duke na banda. O que esses feras fizeram em Over-nite Sensation, Apostrophe e One Size Fits All não está no gibi.

- O Cangaceiro está saindo em DVD pela Versátil com extras imperdíveis. Dois curtas sensacionais de Lima Barreto: Painel, sobre o famoso "Tiradentes" de Portinari, e Santuario, sobre o conjunto de estátuas "Doze Profetas", de Aleijadinho. Tem ainda um média um tanto cansativo sobre o IV Centenário de São Paulo, e um documentário de quase quatro horas sobre um montão de coisas (Lima Barreto, O Cangaceiro, a Vera Cruz, o cinema da época, atores, filmar obras de arte...). Todos os clássicos do cinema deviam ter lançamentos assim.



- Taxi Driver, em película novinha, no Cine Olido. Quem tem problemas com a região que os supere. Vale a pena ir ao centro de São Paulo para ver o belíssimo filme de Scorsese (sessões às 19h30, até quinta-feira, 15/12). Não existe mula sem cabeça por lá. Nem saci-pererê. As ruas são asfaltadas, existem calçadas, bares, boa comida, sebos cheios de raridades (para quem chegar antes). Fede um pouquinho dependendo da rua. Mas nada que qualquer ônibus da cidade não tenha apresentado em algum momento.

Saiba mais sobre o filme e a reestreia no Olido aqui:

http://ursodelata.blogspot.com/2011/12/taxi-driver-classico-de-scorsese-com-de.html



Escrito por sérgio alpendre às 12h19
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Revista Interlúdio

www.revistainterludio.com.br

Com algumas coisas ainda para acertar, finalmente entra no ar a revista que eu chamo de Paisà fase 2. Como homenageado da vez no dossiê, Alfred Hitchcock, com artigos e filmografia comentada. Espero que gostem.

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Eu e Um Corpo que Cai

Visto pela primeira vez há quase trinta anos, numa sessão noturna na TV, Um Corpo que Cai me pareceu, no ápice da adolescência, o filme mais assustador que eu já tinha visto. A imagem da freira aparecendo do escuro e assustando a personagem de Kim Novak mexeu com meus nervos, perturbou-me por meses a fio. Não existia DVD, obviamente, naquela época, e mesmo os aparelhos de videocassete eram um luxo a que só as famílias mais abastadas era permitido. Como rever tal filme? Como ter novamente essa experiência inédita que eu tive (como também foram experiências inéditas e marcantes as primeiras vezes que vi A Ilha no Topo do Mundo, Um Convidado Bem Trapalhão, Errado pra Cachorro e outros de Jerry Lewis). Hitchcock entrava nesse panteão de diretores que povoavam meu coração adolescente.

Anos depois, revi Um Corpo que Cai, por uma velha fita VHS da CIC. O impacto se manteve, embora de forma muito mais racional. Admirava a construção, as cores, o desenvolvimento da narrativa e os atores, mesmo sem saber nada de cinema.

Nos anos 1990, finalmente o filme foi exibido no cinema. Lembro bem: sala 2 do Espaço Unibanco, da Augusta. Novo impacto, desta vez como cinéfilo. Era como se eu estivesse vendo o filme pela primeira vez. Mas desta vez eu conhecia outros trabalhos de James Stewart, com Hitchcock e outros diretores. Já o admirava dos dois belos filmes do Frank Capra, Do Mundo Nada se Leva e A Felicidade Não Se Compra. Já era um dos meus atores preferidos. A relação com Kim Novak é que não mudou. Continuou fantasiosa, levemente erótica, voyeurística, como era na adolescência. Revi mais uma vez em película, se bobear na mesma semana distante de 1992. Ou seria 1993? Ou 1995?

O que importa é que por algum infortúnio inexplicável do acaso, nunca mais o revi. Nem para escrever este texto, que acabou sendo mais sobre minha relação com o filme do que sobre o filme em si.



Escrito por sérgio alpendre às 01h28
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As Pontes de Madison

Acho que As Pontes de Madison é o único filme com diversos finais que se sustenta como uma obra-prima. Poderia terminar com a chegada da família de Francesca (Meryl Streep) e com a subsequente olhada dela para a estrada, por onde tinha ido seu amante, Robert Kincaid (Clint Eastwood). Poderia terminado pouco depois, assim que ela não encontra força para girar a maçaneta do carro que seu marido dirigia antes da saída da picape da frente, pilotada por Robert. Ou quando ela pede seu minuto para chorar num canto da casa, isolada pela indiferença de sua família. Poderia, ainda, terminar após vermos o flashback de Francesca, já envelhecida e viúva, abrindo a caixa que chegou de Robert. Mas na verdade não poderia ter terminado de outra maneira que não fosse com as cinzas de Francesca sendo levadas pelo vento, nos arredores da ponte que simbolizava aquele amor belo e impossível.

Meryl Streep é uma atriz fantástica. Logo que aparece, acreditamos ser uma dona de casa já assexuada pela formação social e pelo casamento duradouro. Minutos depois, logo que Robert chega, pedindo informações e lhe trazendo um mundo novo, ela se torna repentinamente desejável.

Lembro que a variação no sotaque italiano de Streep incomodou alguns críticos na época. Por que? É natural que a personagem consiga disfarçar seu sotaque quando acaba de conhecer um estranho, e mais natural ainda que ela deixe de se policiar depois de um tempo.

É possível encontrar defeitos em As Pontes de Madison, assim como é possível encontrá-los em qualquer outro filme. O que é difícil é não se emocionar com a sensibilidade desse filme sem igual.



Escrito por sérgio alpendre às 23h19
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Dois filmes brasileiros

Foi a primeira e única experiência dentro da segunda-feira especial que o Cinemark dedica ao cinema brasileiro (sempre a primeira segunda de novembro). Dois filmes vistos, O Palhaço, de Selton Mello, com imagem ótima e som horroroso, e Capitães de Areia, de Cecília Amado, com imagem e som passáveis.

As duas mulheres que sentaram ao meu lado para ver o filme de Selton Mello foram atacadas com gás hilariante na porta do cinema, pois riam de tudo, até mesmo das cenas mais tristes. Se bobear, os neurônios que sobraram nas cabeças delas foram engolidos junto com as últimas pipocas de seus sacos barulhentos. Um horror. Mas o filme é bom. Não é a maravilha que pintaram, mas é algo digno nestes dias tenebrosos. Como eu já disse aqui, o cinema mais comercial brasileiro até que se vira bem, faz coisas minimamente decentes. Do cinema autoral, tirando um ou outro jovem (Petrus Cariry, Tiago Mata Machado, os Pretti e Parente talvez) o que vale mesmo é dos veteranos (Saraceni e Bressane na dianteira).

Sobre Capitães de Areia vou me abster de comentar. Nem o filme, nem Jorge Amado, nem o cinema brasileiro, apesar de tudo, merecem tamanha indigência. A impressão que me deu é que a diretora viu muito mais horas de maus programas televisivos (ou de comerciais para a TV) do que de cinema. Mas eu prometi não comentar, então fico por aqui.



Escrito por sérgio alpendre às 23h12
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Maldito século 21

Tava vendo um especial sobre Chaplin no Globo News. Disseram que o cinema dele nunca mais foi o mesmo depois que ele enterrou seu maior personagem, Carlitos. Esqueceram de dizer que fez pelo menos duas obras-primas (Monsieur Verdoux e Condessa de Hong Kong) e dois grandes filmes (Luzes da Ribalta e Um Rei em Nova York). Isso se não contarmos O Grande Ditador, que muitos consideram como a última encarnação de Carlitos, sob pseudônimo. Bem, não é disso que eu quero falar.

O que me incomoda é que no final apareceu na tela uma citação de Chaplin. Eu vi a citação cortada no lado esquerdo. Minha mãe, que tem TV HD, viu inteira. Pergunto: estão me obrigando a comprar uma nova TV, que caiba tudo da informação visual que eles fornecem, ou para ver as duas traves de um gol num jogo de campeonato europeu de futebol? O que farei com minha velha e boa Philips de 29 polegadas? Como farei para ver filmes antigos sem reparar na distorção do preto e branco e nos efeitos involuntários que a definição provoca neles? Sei que o Blu-ray corrige essas falhas. Mas o catálogo de Blu-rays é ridículo ainda. Mesmo lá fora a oferta perde feio para a de DVDs.

O mundo consumidor está treinado, ou adestrado, para responder sempre que tudo nesse campo de imagens melhora a cada dia. Pois bem. Vejo Flor de Pedra, de Alexander Ptushko, na minha TV de 2002 e me encanto com as cores e com a luz do filme. Vejo o mesmo DVD na casa dos meus pais e percebo tudo esmaecido, sem vida, a imagem lavada. O que melhorou nesse caso? Claro, um Blu-ray do mesmo filme seria deslumbrante lá. Mas será que vão lançar Flor de Pedra em Blu-ray antes de tal mídia ficar obsoleta? Quando lançarem, provavelmente surgirá algo melhor e mais potente que vai nos obrigar a trocar tudo de novo, e assim por diante. É a sociedade do consumo deixando bem claro que o nazismo dominou o mundo há muito tempo.



Escrito por sérgio alpendre às 00h20
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O Estranho Que Nós Amamos

Que filme estupendo é O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 1971). Talvez seja o melhor de Don Siegel, ao lado de Os Impiedosos (Madigan, 1968).

É a estreia de Bruce Surtees, filho de Robert Surtees, na direção de fotografia, já com um trabalho com sombras e uma plasticidade que ele iria continuar nos longas dirigidos por Clint Eastwood, sobretudo em O Estranho Sem Nome e Josey Wales.

O filme é cruel e cheio de conotações eróticas ousadas para a época, incluindo uma insinuação de pedofilia, quando o soldado ferido (Eastwood) diz a Amy que esta, com doze anos, já tinha idade para ser beijada (e após isso, efetivamente, a beija). Tem ainda uma sequência erótica muito bonita, um sonho da diretora do internato que envolve o soldado e sua sócia, além de outras insinuações fortes (amputação desnecessária, incesto, estupro). Talvez as insinuações sejam ousadas, na verdade, para esta época, na qual o conservadorismo triunfa e as ousadias são aceitas quando acontecem dentro de um determinado gueto artístico (filmes de diversidade sexual, ou mesmo filmes ditos "de arte"), nunca num filme com pretensões mais comerciais como os que Siegel dirigia.

Lembra Teorema, de Pasolini, como muitos apontaram, mas também Ingmar Bergman, pela relação entre as mulheres do internato feminino em que o soldado é tratado e maltratado.

Don Siegel, por sinal, é um diretor subestimado.



Escrito por sérgio alpendre às 23h37
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Mostra SP, Blaxploitation, italianos

A maravilhosa Roma de Fellini

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- A Mostra acabou. A prorrogação foi até ontem, no Arteplex. Vi quatro filmes depois do último boletim, dos quais só destaco Caverna dos Sonhos Esquecidos, do maluco de plantão Werner Herzog. Não é um grande filme, mas pelo menos se assume como um doc para o History Channel. Um dos melhores que se poderia ver no canal (falando nisso, algum dia a versão brasileira irá exibir, mesmo em 2D?).

Fausto é um "best of" de Sokurov, no sentido de que lembra aquelas coletâneas preguiçosas de supostos "melhores momentos" (geralmente 14) de algum artista com mais de 30 anos de trabalho (e geralmente com momentos melhores que os escolhidos). Tem as deformações das lentes de Mãe e Filho, a atmosfera misteriosa de Moloch e de Taurus (ainda seu pior filme), a textura sépia de Pai e Filho, a câmera fantasma de O Segundo Círculo, Dias de Eclipse e O Sol, e o humor meio infame que atrapalha quase todos os seus filmes, com a exceção justamente dos melhores: Páginas Ocultas, A Pedra, Moloch e Mãe e Filho. Enfim, é um conjunto de artifícios típicos de seu cinema, organizado para ganhar festivais. Deu certo, já que Veneza se curvou ao filme. Angelopoulos fez a mesma coisa com Um Olhar a Cada Dia - que era bem melhor - e saiu de mãos abanando.

Os outros vistos, o russo Sábado Inocente e o grego Attenberg, estão muito longe de valer o estardalhaço feito em torno deles.

- Acabou a Mostra, mas não o banquete. Está acontecendo ainda no CCBB (e no Cinesesc a partir do dia 18) uma mostra com vários clássicos da Blaxploitation. Obrigatórios os filmes de Jack Hill (Foxy Brown, Coffy), Charles Burnett (Killer of Sheep) e Larry Cohen (O Chefão do Gueto), todos em película. Não vi Mandingo, mas Richard Fleischer é um grande diretor. Pena que seu filme vai passar em Blu-ray. Melhor então ficar com Cleopatra Jones, Shaft, ou qualquer outro que passe em 35mm.

- Os italianos chegaram em peso, ainda durante a repescagem da Mostra SP, com suas inúmeras atrações. Entre os recentes, vale conferir o novo longa de Ermanno Olmi. Se o diretor está bem longe de filmes maravilhosos como Il Posto ou Il Fidanzatti, ao menos fez uma peça de resistência contra a estupidez do mundo atual. Rutger Hauer está ireconhecível, ao menos para quem guardou sua imagem como o velho Bruegel de O Moinho e a Cruz. Michael Lonsdale arrasa. Não vi A Jóia, o novo filme de Andrea Molaioli, assistente de direção de Nanni Moretti cujo filme de estreia (A Garota do Lago) agradou muita gente. Se ainda passar, vale programar.

Mas o quente, mesmo, é esta seleção de clássicos restaurados pelo Museu de Cinema de Turim. Vejam só:

Il generale Della Rovere | O general Della Rovere/De crápula a herói, 1959, Roberto Rossellini
Uomini contro | A vontade de um general, 1970 (Francesco Rosi)
I magliari | Renúncia de um trapaceiro, 1959 (Francesco Rosi)
La classe operaia va in paradiso | A classe operária vai ao paraíso, 1971 (Elio Petri)
Roma, 1972 (Federico Fellini)
Il cammino della speranza | Caminho da esperança, 1950 (Pietro Germi)
Anni difficili |Anos difíceis, 1948 (Luigi Zampa)

Os longas já passaram durante esta semana na FAAP (que é um clube meio fechado, tem que pedir autorização para entrar, essas coisas meio chatas), e a partir do dia 18 passarão no MIS (que finalmente volta à luta).

Morri.



Escrito por sérgio alpendre às 14h37
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Homenagem a Elia Kazan

Natalie Wood no clamor do sexo

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Com a descoberta do belíssimo O Que a Carne Herda (Pinky, 1949), que nos mostra brilhantemente como uma moça de sangue negro e aparência branca toma consciência de sua raça, e, de quebra, nos apresenta uma das personagens mais carismáticas do cinema, Miss Em (Ethel Barrymore), encerro a filmografia deste cineasta polêmico e muito bom chamado Elia Kazan.

Como homenagem, volto a fazer um post de cotações (1 a 5 estrelas), com direito à hipotética posição de cada filme em um ranking.

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Laços Humanos (A Tree Grows in Brooklyn, 1945) ***** (2)

Mar Verde (Sea of Grass, 1947) ***1/2 (17)

O Justiceiro (Boomerang!, 1947) **** (10)

A Luz é Para Todos (Gentlemen's Agreement, 1947) *** (18)

O Que a Carne Herda (Pinky, 1949) **** (7)

Pânico nas Ruas (Panic in the Strets, 1950) ***1/2 (13)

Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951) **** (6)

Viva Zapata! (1952) ***1/2 (12)

Os Saltimbancos (Man on a Tightrope, 1953) ***1/2 (16)

Sindicato de Ladrões (On The Waterfront, 1954) **** (11)

Vidas Amargas (East of Eden, 1955) **** (5)

Boneca de Carne (Baby Doll, 1956) **** (8)

Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd, 1957) ***** (2)

Rio Violento (Wild River, 1960) ***** (2)

Clamor do Sexo (Splendor in the Grass, 1961) ***** (1)

Terra de um Sonho Distante (America America, 1963) ***1/2 (15)

Movidos pelo Ódio (The Arrangement, 1969) ***1/2 (14)

Os Visitantes (The Visitors, 1972) **** (8)

O Último Magnata (The Last Tycoon, 1976) **1/2 (19)

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Observações:

- Alguns filmes precisam ser revistos (sobretudo Pânico nas Ruas, Boneca de Carne, Movidos Pelo Ódio e O Último Magnata). Talvez tenha sido injusto com algum deles.

- Como não é um TOP, tomei a liberdade de colocar alguns empates no ranking (números entre parênteses).

- Em negrito, os quatro filmes que ganharam a cotação máxima.

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ATUALIZAÇÃO:

Os amigos Francis Vogner dos Reis e Paulo Santos Lima montaram um curso - que recomendo - de oito aulas sobre Elia Kazan, a ser realizado no Espaço Unibanco, de 17 de novembro a 13 de dezembro, às terças e quintas, das 19h30 às 22h30. Mais informações:

Carga horária - 24 horas em 8 encontros
Vagas - 30 pessoas (mínimo de 15 para a realização do curso)
Inscrições - (11) 3266 5115 cursos@cinespaco.com.br
Rua Antônio Carlos, 288 - 1º andar - de 10h às 18h



Escrito por sérgio alpendre às 03h34
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Boletim da Mostra SP 4

Com o fim das revisões de Elia Kazan, deu para sentir um pouco mais o gostinho da Mostra. Como suspeitava, esse gostinho não é tão bom assim, com Bellocchio decepcionando (em termos) e uma desistência rápida (do filme Grande Dia) por culpa da projeção digital (sem definição e dando pequenas travadas cada vez que a grua funcionava - e como funcionava no minuto visto). Maldito seja o digital e a nova safra.

Quem não viu Paradjanov, dançou. Culpa de certa desorganização da Mostra (desculpável e tal, mas podiam ter informado que as cópias em 35mm haviam chegado). O alarde do pessoal que viu os filmes em exibições ruins afastou muitos que haviam se programado para vê-los nas sessões seguintes, e os filmes não passam mais, por incrível que pareça.

A repescagem, aliás, está bem sem graça. Tem Herzog em 3D, certo. Tem Fausto, OK. Mas nenhum Kazan, e só um Paradjanov do começo da carreira (Flor Sobre a Pedra), antes da sequência de obras-primas iniciada com Sombras dos Ancestrais Esquecidos.

Deu para ver, por enquanto, dois filmes da badalada seleção russa. Um deles, Elena, é daquele diretor do fraco O Retorno. Pois ele repete a dose com este longa acadêmico e enfadonho sobre uma mulher que faz uma manobra para ficar com metade da herança de seu ex-marido. O outro russo, Movimento Reverso, é decente. Explora bem os tempos mortos e tem uma câmera certeira. É muito frio, mas essa impressão pode ter sido causada pelo cansaço de mostra (feriado não é um bom dia para ir ao shopping Frei Caneca).

Las Acacias é interessante pela sintonia que vai se formando entre a caroneira e o caminhoneiro, tendo como curioso elemento de ligação a pequena menina de cinco meses que a caroneira leva consigo. E é frágil porque abusa de uma certa ambiguidade inicial (não sabemos o que quer esse caminhoneiro durante um bom tempo - o que não seria um problema a priori, caso nos interessássemos de fato por ele, o que só vem a acontecer na segunda metade do filme), e dá algumas pistas falsas de que a coisa pode sujar para o lado de um deles. Felizmente nada disso acontece, mas a direção de Pablo Giorgelli não é consistente o bastante para se livrar de alguns gracejos da menininha, usados para conquistar a plateia, como quando ela ri de um movimento de aproximação do caminhoneiro.

Numa fórmula um tanto cruel, mas relativamente correta, podemos dizer que um longa que provoca "OHs" da plateia tem poucas chances de ser realmente bom.

O Dominador talvez seja o melhor filme entre os novos vistos nos últimos dias. O diretor, Kim Min-suk, foi assistente de Bong Joon-Ho em O Hospedeiro, e seu longa de estreia lembra os filmes de ação americanos vagabundos da Era Reagan, um pouco Johnnie To e Memories of Murder, do próprio Joon-Ho.

Sobre o novo filme de Marco Bellocchio, Irmãs Jamais, não tenho muito o que dizer, a não ser que parece ser uma demonstração de que é possível filmar decentemente com câmeras digitais de baixa definição. A escuridão domina os planos, mas pode-se ver belas composições no meio das sombras numéricas.

Finalizando a programação normal, Cisne (foto) me pareceu o melhor filme de Teresa Villaverde, e cresce quando se concentra na personagem da cantora cujos olhos sangram quando ela está feliz. Mas aviso que preciso rever Os Mutantes, do qual pouco lembro, e que vi Transe em más condições. Água e Sal, por outro lado, foi visto em ótimas condições, mas tudo que me vem à cabeça é sua chatice e a breve aparição de Chico Buarque (que contribui com uma bela canção em Cisne).

COTAÇÕES:

Irmãs Jamais (2011), de Marco Bellocchio
***

É possível filmar bem com câmeras de baixa definição.

Elena (2011), de Andrei Zvyagintsev
*1/2

Neo-academicismo primário.

Las Acacias (2010), de Paolo Giorgelli
**1/2

Ohhhhhhh...

O Dominador (2010), de Kim Min-suk
***
Mistura maluca de várias coisas legais.

Movimento Reverso (2010), de Andrei Stempkovski
***

Um tanto frio, mas bem levado.

Cisne (2011), de Teresa Villaverde
***1/2

Desconcertante e belo, apesar dos personagens desiguais.



Escrito por sérgio alpendre às 02h58
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