E la Nave Va

Fellini estava em estado de graça quando filmou E la Nave Va, em 1983. É facilmente um de seus grandes filmes. Desde o começo, com a evolução do cinema em dez minutos, até o final, quando fica claro que essa nave de que fala o título é o próprio cinema, sem esquecer de momentos mágicos como o duelo de classes na caldeira do navio, ou a orquestra de cristais, ou o da foto, com o navio enchendo de água e o dandi vendo imagens de sua diva em um projetor, percebemos estar diante de um clássico, a milhas de distância do cinema que estava sendo feito na época (nesse sentido, é o anti-Paixão, o anti-O Estado das Coisas, o que só o aproxima ainda mais desses dois filmes, pois os extremos se avizinham pelo formato de semi-parábola dessa linha imaginária do cinema nessa primeira metade dos anos 80). A melhor versão é em italiano, formato 1.85:1, lançada pela Spectra Nova e vendida nas Lojas Americanas por 13 reais. Tirada da Criterion Collection, mas, enfim, ao menos é um lançamento de respeito em DVD.
Escrito por sérgio alpendre às 00h24
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Homenagem a Michel Mourlet
Primeiros parágrafos: A violência é um tema maior da estética. Ultrapassada ou presente, latente ou virulenta, ela reside no seio de toda criação, mesmo enquanto primeiro momento de uma démarche que a negou. A negação da violência em uma obra de paz compromete esta obra nas dimensões mais secretas de seu ser, nos confusos limbos de sua gestação, mas também no exercício desta força que conforma a matéria à forma com um furor obstinado. A violência é uma “descompressão”: resultante de uma tensão entre homem e mundo, ela explode no ponto extremo desta tensão, à semelhança de um abscesso que vaza. É preciso passar por ela, se quisermos encontrar algum repouso. Assim, podemos dizer que toda obra a contém ou no mínimo a postula, se entendermos a arte como um caminho em direção ao apaziguamento, por meio do conhecimento dos termos do conflito, e o poder de resolução concedido por este saber. --- do texto Apologia da Violência (tradução: Luiz Soares Junior) ----------------------------------------------------------------------------------------------------------- Há um mal-entendido sobre o cinema. Digo: no coração mesmo da elite que faz profissão de elaborar ou de compreender a arte. Uma extrema confusão preside seus julgamentos e seus trabalhos. Uma falta de abertura inclina uns a considerar o cinema como um divertimento menor que abandonamos rapidamente para retornar às coisas sérias, tais como a literatura. Uma falha de exigência incita outros a povoar seu panteão em cinqüenta anos de uma centena de gênios, e a descobrir uma obra importante por semana. Estes são os mais perigosos, pois a espécie dos primeiros se apagaria por si mesma sob o peso do tempo e da evidência, caso ela não se achasse fortificada pela parca seriedade dos segundos. E dentre esses últimos a discórdia não é menos viva. Não tendo idéia do que buscam, como eles persuadiriam alguém a amar o cinema? Enquanto as artes milenares dispõem de um termômetro pouco a pouco ajustado pelos consumidores ativos, minoria que acaba impondo seu gosto sobre a passividade da maioria – donde um acordo estatístico sobre os fins e sua realização –, o espectador de cinema está entregue a si mesmo, jogado nu em sua poltrona, virgem de hábitos e de leis. Ele precisa a cada vez percorrer todo o caminho, reinventar as tabelas de valores, enquanto o apreciador de Música ou de Poemas, que os séculos liberaram da tarefa de julgar, deixa-se conduzir confiantemente a seu prazer. Ele não é mais levado pela cultura a uma reverência cujo protocolo o tempo fixou, essa cultura ao contrário entrava sua compreensão de uma arte que para possuir seus recursos próprios deve necessariamente não derivar dos mesmos critérios interiores[1] dos quais ela nos dá o modelo. O espectador de cinema extrai de si mesmo exigência e lucidez, ele se forma e amadurece só em contato com as obras; não há trapaça possível. O cinema é um potente revelador. Daí a mistura e o ruído que surpreendem às vezes em habitués das salas obscuras, onde o passivo e o ativo divididos em mil partes contraditórias têm a mesma potência de voz. Já que, no entanto, desenham-se linhas de partilha, uma maioria sobressai, e esta é naturalmente a da imobilidade mais míope. --- do texto Sobre uma arte ignorada (tradução: Luiz Carlos Oliveira Jr.) -------------------------------------------------------------------------------------------------------- obs: as fontes estão diferentes por alguma maluquice do zip.net
Escrito por sérgio alpendre às 03h06
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Elephant

Filme dirigido por Alan Clarke em 1989, feito para a TV inglesa. Um petardo que influenciou Gus Van Sant. Causou todos os tipos de emoções extremas na Oficina de crítica que dei em Aracaju. Como será em Londrina?
Escrito por sérgio alpendre às 02h00
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Voltando a Manaus

- Um dos principais jornais de Manaus se chama A Crítica. - Entro no carro e o motorista que me levou ao Cinemais para ver OSS117, ao saber que eu estava lá para cobrir o evento, diz: "ah, você é crítico de cinema". Logo em seguida ele começou a reclamar que o cinema brasileiro estava comercial demais, cheio de filmes repetitivos que imitavam mal a televisão.
Escrito por sérgio alpendre às 04h08
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Revisão de Woody Allen

Comecei a rever os filmes de Woody Allen (e a reler textos e entrevistas), como preparativo para as aulas que darei no CCBB em dezembro. Optei, mais uma vez, pela ordem cronológica, sempre que possível. Assim, revi os filmes dos anos 60 e 70, com a exceção de O Dorminhoco e Annie Hall, dois que revi há menos de cinco anos, e que pretendo rever mais uma vez, se der tempo. O curioso é que alterei ligeiramente meu julgamento (perdão, faltou palavra melhor) sobre todos eles. Continuo gostando de Um Assaltante Bem Trapalhão e A Última Noite de Boris Gruschenko, mas ambos revelaram pequenos problemas estruturais - que dependem da situação, certamente - que impediram uma fruição mais agradável. Ambos têm momentos antológicos, especialmente o primeiro, que é menos irregular. Mas carecem da unidade que ele iria demonstrar em seus melhores trabalhos. Interiores, por sua vez, caiu bastante. Não porque tenha se revelado um mau filme. Era dos que eu mais gostava entre suas obras sérias, igualando-se a A Outra. Hoje, depois da revisão deste último para escrever o texto do catálogo e da revisão de Interiores há pouco, devo dizer que A Outra dá uma lavada. Mesmo assim, Interiores é bem digno, ainda mais para quem sensivelmente buscava um outro caminho, mais pretensioso, mas ainda incerto e arriscado. Por outro lado, Bananas e Tudo Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar subiram um bocado no meu conceito, principalmente o segundo, que era o que menos me entusiasmava nessa primeira fase. Bananas deve ser o campeão em número de gags, algumas sensacionais, outras infames, mas que se tornam engraçadas pela performance de Allen - um excelente ator de comédia. Tudo Que Você Sempre Quis Saber... por sua vez, me surpreendeu por ter quatro episódios (dos sete que compõem o filme) sublimes: os três primeiros (o que tem Allen como um bobo da corte, o da ovelha e o do casal italiano) e o de encerramento, menos pela ideia do espermatozóide em crise do que pela concepção do corpo humano com seus operários setorizados. O episódio do casal italiano (da foto lá em cima) tem um charme extra. É a primeira vez que o cineasta emula deliberadamente outro diretor que não seja de comédia, já que nos filmes anteriores a emulação era principalmente de Jerry Lewis (na atuação e direção) e Groucho Marx (na atuação). Nesse terceiro episódio do longa de nome infindável ele mostra que viu, e muito bem, Visconti e Antonioni, mais do que Fellini (que também é perceptível). A mise-en-scène é rebuscada, refinada, e melhor, certeira.
Essa mudança de percepção é uma das coisas mais estimulantes das revisões, porque diz respeito não só a nossa situação no momento, mas a uma ideia assimilada anteriormente do que era o filme, e que deve ser colocada à prova com certa frequência, para o bem do rigor crítico. É como eu sempre digo: a apreciação de um filme, exceto daquele que nasceu obra-prima, tem prazo de validade de mais ou menos cinco anos. Assim, novas revisões virão nos próximos dias.
Escrito por sérgio alpendre às 03h40
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Novo filme de Woody Allen

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009) tem estreia marcada para março segundo o Filme B (a confirmar com a distribuidora). Mas quem conseguiu ingresso para a abertura da Mostra "A elegância de Woody Allen", que rolou nesta quarta-feira no CCBB-SP, viu uma pré-estreia com uma cópia legendada em francês, com legendas eletrônicas em português. O filme tem mais uma exibição, nesta quinta-feira às 14:30. No programa, dois curtas: o primeiro, Meetin' WA (1986), é a entrevista que Godard foi fazer em Manhattan com o diretor. O choque entre as visões de cinema dos dois é o que alimenta o curta, e Godard é inteligente ao tirar o sarro de ambos. O segundo, Sounds From the Town I Love (2001), é um primor. Dirigido por Woody Allen, mostra pessoas andando pelas ruas de Nova York com seus celulares. Três minutos de diálogos absurdos, dos quais só ouvimos um lado. Tudo Pode Dar Certo continua com a sequência de grandes filmes que Allen engatou a partir de O Sonho de Cassandra, só que desta vez ele está de volta a sua Manhattan querida. O protagonista é Boris, um intelectual fracassado que ficou manco após uma tentativa de suicídio. Ele conhece uma sulista que foge da mãe perua e vai para NY sem ter onde morar. O ator que faz Boris é Larry David, mais conhecido como co-criador do Seinfeld e Curb Your Enthusiasm, e que tem um único filme como diretor, Sour Grapes, de 1998. Parece o doutor House, com sua aversão por pessoas, ainda mais burras, e seu delicioso humor rabugento. Os diálogos são cortantes, como era de se esperar de Allen, e os atores matam a pau, mesmo não sendo muito conhecidos do grande público - o próprio David só atuou em episódios das séries que escreveu, e em dois ou três filmes anteriores de Allen, nenhum como protagonista. Ao contrário de O Sonho de Cassandra e Vicky Cristina Barcelona, Tudo Pode Dar Certo deve agradar sobretudo aos fãs mais antigos do diretor. Se vai ser elogiado por muitos críticos, é outra história. Eu curti, e bastante.
Escrito por sérgio alpendre às 03h53
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De volta ao Arteplex

Três filmes seguidos no meu cinema preferido (tem a melhor projeção 35mm da cidade, junto da Cinemateca BNDES, mas adotou a projeção digital em várias salas - vai entender): - Começando pelo último, esse aí da foto. (500) Dias Com Ela, de Marc Webb, começa assustando com seu aspecto indie, e vocês sabem como tenho aversão a esse tipo de picaretagem moderninha para descolados. Depois acaba se tornando um veículo simpático para a gracinha de sempre Zooey Deschanel e o charmoso Joseph Gordon-Levitt, em seu melhor papel, que eu me lembre. Incomoda um pouco a previsibilidade dos ganchos - disco dos Smiths na parede do quarto, pode apostar que vem canção da banda. Mas tem uma cena final das mais interessantes, que faz uma conexão meio enviezada com as duas namoradas dos irmãos de Ligado em Você (April e May). - Antes vi À Procura de Eric, que seria bem enfadonho se não fosse por dois momentos: Cantona falando que a jogada mais marcante de sua carreira não havia sido um gol, mas uma assistência perfeita para um companheiro da equipe. O lance é mostrado, e é realmente sensacional. O outro momento é a Operação Cantona. Não ela toda, mas o plano da colocação das máscaras, propriamente, e a subsequente invasão da casa. Tirando isso, tem a habitual preguiça de Ken Loach para os enquadramentos (que nunca parecem ser pensados). E eu vi na janela certa, 1.85:1. - O primeiro do dia foi Alô Alô Teresinha, de Nelson Hoineff, típico filme ruim que é legal de se ver por causa das imagerns de arquivo. Aliás, é curioso como as imagens de 1987 (ou 1980, 1982, 1985) da Globo, são incrivelmente mal conservadas em comparação com as da Tupi, de... pasmem... 1972. Disseram que as chacretes são escrotizadas. Sinceramente, não achei isso não. O único que é realmente escrotizado é aquele calouro que alega ser melhor que o Roberto Carlos. Mas o filme não consegue emular o caos que Chacrinha produzia em seu palco.
Escrito por sérgio alpendre às 03h54
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Post esquizofrênico nº 3.000.000

vista do Rio Negro, em foto tirada do 16º andar do Hotel Tropical Business Tower ------------------------------------------------------------------------------------------------------ - Encerrado o 6º Amazonas Film Festival, não tenho do que reclamar, a não ser do calor absurdo de lá. Mas a exposição a esse calor é mínima. Tirando o último dia, que nos obrigou a suportar uma cerimônia de premiação ao ar livre, passei no máximo uns dez minutos de calor, porque em todo lugar fechado, incluindo os carros, tem ar condicionado forte. Aqui em São Paulo o desgaste do calor é muito maior, porque os habitantes ainda acreditam que 34 graus é uma temperatura agradável em uma cidade com poucas árvores e concreto que rebate o sol, e não reclamam se não há ventiladores ou ar condicionado nos lugares. O principal premiado da noite foi o filme de que mais gostei (e que passou na Mostra SP, mas eu não vi): Samson and Delilah, de Warwick Thornton, uma bela história de amor aborígene. O segundo campeão, Whisper With the Wind, foi o último filme visto no evento. É bonito, cheio de imagens surreais e maneiristas. Mas de vez em quando esse maneirismo passa dos limites. Mais sobre o encerramento na terceira crônica de Manaus, que você encontra seguindo este link: http://cinema.cineclick.uol.com.br/noticia/carregar/titulo/cronica-de-manaus-capitulo-3-premiados-e-ensopados/id/24600 - Revi A Última Tempestade (Prospero's Books, 1991), de Peter Greenaway, após quase 18 anos de meu deslumbramento por esse tipo de cinema. É o tipo de armadilha na qual caem os neófitos, e comigo não foi diferente. Permanece uma admiração pela habilidade de composição e movimentação do diretor, mas suspeito que tenha sido a primeira vez em sua carreira que a afetação (olha a palavra aí novamente) supera, de longe, essa habilidade. Resta rever meus dois preferidos, A Barriga do Arquiteto (1987) e O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989), para confirmar isso. - Bolei um mini-curso para as férias de dezembro. É sobre o cinema de Quentin Tarantino. Mais informações aqui: http://cursotarantino.blogspot.com - Eide Abreu, com quem divido muitas coisas, aderiu finalmente à blogosfera. E ela vai escrever sobre várias coisas, sobre a garota da Uniban, Marx e Madonna. Altamente recomendável: http://eideabreu.zip.net
Escrito por sérgio alpendre às 04h02
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Enquanto isso, em Manaus

Duas histórias de Manaus: - No domingo, eu, Paulo Henrique Silva, Luís Zanin, Orlando Margarido e Carlos Heli de Almeida entramos numa área à esquerda do Teatro Amazonas, destinada a receber convidados para beber sucos e comer salgadinhos enquanto a cerimônia que antecede o filme não começa. Um funcionário começa a falar com o Zanin em francês, dizendo que não podíamos ficar ali porque não era uma área para a imprensa, mas reservada para os convidados internacionais. Enquanto isso, uma organizadora do Festival ouviu e disse que àquela hora tudo bem, pois os convidados já estavam na platéia, testemunhando uma das muitas cerimônias de homenagem a alguém, um peixe-boi, um curumim do bico dourado, uma avoceta ou qualquer outra coisa do gênero. Houve homenagem ao grande ator Milton Gonçalves, mas foi em outro dia. O funcionário, coitado, não sabia o que fazer. Mas ele não foi grosseiro em momento algum, e sempre que passava por nós, depois do mal entendido, sorria e dizia alguma observação amistosa (em português). - Na segunda-feira a maior parte dos convidados foi para o Ariaú, o hotel sobre a copa das árvores, na subida do Rio Negro. É uma experiência e tanto, mas para uma vez só, no máximo duas. Nos últimos dois anos fui para lá, e neste terceiro ano seguido não quis voltar. É rústico demais, quente demais, cansativo demais. Mas a festa do primeiro ano foi antológica, com a melhor discotecagem que eu presenciei, e as pessoas dançando na areia até 4 da manhã (2h em Brasília). No restante do tempo, almoço ruim, gringos dando comida para macaquinhos ladrões, pequenas piranhas assassinas de bichos também pequenos, araras, e à noite, a maior barata que eu vi na minha vida - tinha o dobro do tamanho normal. - Mais filmes vistos: City of Life and Death, de Lu Chuan * * * A invasão de Nanquin, China, em 1937, com tintas ambíguas e câmera surpreendente. OSS 117 - Fúria na Bahia (1965), de André Hunebelle * * * Pastiche de 007. Aventura escapista em que todos falam francês, do Rio de Janeiro à Bahia. Engraçado, mas nem sempre essa graça é intencional, e dirigido por um competente artesão nascido no século XIX. Em Teu Nome, de Paulo Nascimento *1/2 Dez anos perseguidos pela ditadura em 100 minutos? Dificilmente daria certo. Samsom & Delilah, de Warwick Thornton * * * 1/2 Agradável surpresa no ritmo dos aborígenes. Garimpeiro, de Marc Barrat * * O cinema industrial chega às Guianas. ------------------------------------------------------------------------------------ Links para a cobertura no cineclick:
Escrito por sérgio alpendre às 02h43
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Os 100 melhores filmes da década (The Times)

Só agora vi a lista do The Times. A notícia do UOL é esta: http://cinema.uol.com.br/ultnot/2009/11/08/ult4332u1346.jhtm As ausências são lamentáveis: Mal dos Trópicos, Le Pont des Arts, Dez, Les Amours d'Astrée et Céladon, Adeus Dragon Inn, O Quinto Império, O Signo do Caos, e alguns outros. Sei que seria muita ingenuidade minha achar que eles saibam da existência de alguns desses filmes. Mas, enfim, quem se guiar por essa lista vai ter uma ideia muito equivocada do que de melhor se fez na década. Abaixo, colo a lista que saiu em The Times. Com minhas cotações para cada filme visto: ------------------------------------------- legendas: de * a ***** estrelas. # Talvez entrasse numa lista minha de 100 preferidos. + Entraria certamente. ------------------------------------------ #1. Caché (Michael Haneke, 2005) **** 2. A Supremacia Bourne/O Ultimato Bourne (Paul Greengrass, 2004, 2007) ** #3 Onde os Fracos Não Têm Vez (Joel Coen, Ethan Coen, 2007) **** 4 O Homem-Urso (Werner Herzog, 2005) **1/2 5 Team America: Detonando o Mundo (Trey Parker, 2004) 6 Quem Quer Ser um Milionário? (Danny Boyle, 2008) * 7 O Último Rei da Escócia (Kevin Macdonald, 2006) ** 8 Cassino Royale (Martin Campbell, 2006) *** 9 A Rainha (Stephen Frears, 2006) *** 10 Hunger (Steve McQueen, 2008) 11 Borat (Larry Charles, 2006) *** 12 A Vida dos Outros (Florian Henckel von Donnersmarck, 2006) **1/2 13 This Is England (Shane Meadows, 2007) 14 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (Cristian Mungiu, 2007) *** 15 A Queda (Oliver Hirschbiegel, 2004) ** 16 Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Michel Gondry, 2004) ** 17 O Segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005) **** +18 Deixe Ela Entrar (Tomas Alfredson, 2008) ****1/2 19 Vôo United 93 (Paul Greengrass, 2006) **1/2 20 Donnie Darko (Richard Kelly, 2001) *** 21 Boa Noite, e Boa Sorte (George Clooney, 2005) *** 22 Longe do Paraíso (Todd Haynes, 2002) ***1/2 23 O Equilibrista (James Marsh, 2008) 24 Extermínio (Danny Boyle, 2002) ** 25 Dançando no Escuro (Lars Von Trier, 2000) *** 26 Minority Report (Steven Spielberg, 2002) *** 27 Sideways - Entre Umas e Outras (Alexander Payne, 2004) ** 28 O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel, 2007) 29 Quero ser John Malkovich (Spike Jonze, 2000) **1/2 30 Irreversível (Gaspar Noé, 2002) * 31 Iraq in Fragments (James Longley, 2006) 32 Gladiador (Ridley Scott, 2000) ** 33 Um Casamento à Indiana (Mira Nair, 2002) *1/2 34 Procurando Nemo (Andrew Stanton/Lee Unkrich, 2003) ***1/2 35 E Sua Mãe Também (Alfonso Cuarón, 2002) ** 36 Na Captura dos Friedmans (Andrew Jarecki, 2004) ** #37 Amor à Flor da Pele (Wong Kar Wai, 2000) **** #38 Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001) **** +39 Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2003) ****1/2 40 Syriana (Stephen Gaghan, 2005) ** 41 Filhos da Esperança (Alfonso Cuarón, 2006) *** #42 Os Incríveis (Brad Bird, 2004) **** 43 Batman - O Cavaleiro das Trevas (Christopher Nolan, 2008) *** 44 Sob a Areia (François Ozon, 2000) *** 45 Touching the Void (Kevin Macdonald, 2003) 46 Traffic (Steven Soderbergh, 2000) ** 47 My Summer of Love (Pawel Pawlikowski, 2004) 48 Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton/Valerie Faris, 2006) ** #49 Ligeiramente Grávidos (Judd Apatow, 2007) **** 50 O Senhor dos Anéis: O retorno do Rei (Peter Jackson, 2003) #51 O Quarto do Filho (Nanni Moretti, 2001) **** 52 O Jardineiro Fiel (Fernando Meirelles, 2005) ** 53 Milk (Gus Van Sant, 2008) ***1/2 54 Papai Noel às Avessas (Terry Zwigoff, 2003) *** 55 Chopper (Andrew Dominik, 2000) #56 Volver (Pedro Almodovar, 2006) **** 57 The Consequences of Love (Paolo Sorrentino, 2004) 58 Shaun of the Dead (Edgar Wright, 2004) ** 59 Ser e Ter (Nicolas Philibert, 2002) ***1/2 60 A Lula e a Baleia (Noah Baumbach, 2005) ** +61 A Viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki, 2001) ****1/2 62 O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy (Adam McKay, 2004) *** 63 Sangue Negro (Paul Thomas Anderson, 2007) *** #64 A Criança (Jean-Pierre Dardenne/Luc Dardenne, 2005) **** 65 Valsa Com Bashir (Ari Folman, 2008) 66 Cidade de Deus (Fernando Meirelles, Katia Lund, 2002) *1/2 67 Gomorra (Matteo Garrone, 2008) ** 68 Memento (Christopher Nolan, 2000) *1/2 69 Persépolis (Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi, 2007) 70 Entre os Muros da Escola (Laurent Cantet, 2008) *** 71 Monstros S/A (Pete Docter/David Silverman/lee Unkrich, 2001) 72 Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 2008) 73 De Tanto Bater, Meu Coração Parou (Jacques Audiard, 2005) **1/2 74 O Labirinto do Fauno (Guillermo Del Toro, 2006) **1/2 +75 Fale com Ela (Pedro Almodóvar, 2002) ****1/2 76 Control (Anton Corbijn, 2007) ** 77 Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002) ** 78 As Confissões de Schmidt (Alexander Payne, 2002) *1/2 79 Le Grand Voyage (Ismael Ferroukhi, 2004) 80 Eu, Você e Todos Nós (Miranda July, 2005) ** 81 In The Loop (Armando Iannucci, 2009) #82 As Coisas Simples da Vida (Edward Yang, 2000) **** 83 Ventos da Liberdade (Ken Loach, 2006) **1/2 84 Hotel Ruanda (Terry George, 2004) *1/2 85 A Professora de Piano (Michael Haneke, 2001) ** 86 O Orfanato (Juan Antonio Bayona, 2007) ** 87 Time and Winds (Reha Erdem, 2006) #88 Os Excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson, 2001) **** #89 Escola de Rock (Richard Linklater, 2003) **** #90 Penetras Bons de Bico (David Dobkin, 2005) **** 91 Lantana (Ray Lawrence, 2001) 92 Coisas Belas e Sujas (Stephen Frears, 2002) ** 93 O Clã das Adagas Voadoras (Zhang Yimou, 2004) **1/2 94 Uma Verdade Inconveniente (Davis Guggenheim, 2006) 95 Amores Brutos (Alejandro González Iñárritu, 2000) ** 96 Morvern Callar (Lynne Ramsay, 2002) 97 Sympathy for Lady Vengeance (Park Chan-Wook, 2005) *1/2 98 Crash (Paul Haggis, 2004) * 99 Battle Royale (Kinji Fukasaku, 2000) *** 100 O Diabo Veste Prada (David Frankel, 2006) *1/2
Escrito por sérgio alpendre às 18h47
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A volta do post esquizofrênico

- Vi The Road, filme de John Hillcoat que estreia em fevereiro no Brasil com o nome A Estrada. É um bom filme, com bom clima, sem muitas explicações, apenas o necessário para nos entreter num ritmo pouco convencional. Lembra dois filmes, um superior, Filhos da Esperança, um inferior, O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford. Do primeiro herda o clima apocaliptico e a falta completa de esperança. Do segundo, o ritmo e a contemplação. - Hoje teve o passeio de barco até o encontro das águas, descendo o Rio Negro até chegar ao Solimões. Durante a viagem, mesas redondas com Claire Denis, Alex Descas (os esses são pronunciados), Leonor Silveira e John McTiernan. Este último deu a melhor entrevista da jornada, principalmente quando se empolgou ao falar de um projeto futuro, The Assassination of Orson Welles. Participei das mesas apenas como ouvinte distante, pois o barulho do barco e o calor me impediram uma maior concentração. Em outro momento, Leonor Silveira, fora da mesa redonda, foi perguntada sobre sua suposta cegueira em Singularidades de uma Rapariga Loura. Pude ouvir a resposta, que foi mais ou menos assim: "não há cegueira alguma, foi a marcação rigorosa de Oliveira que me impediu de olhar nos olhos de Ricardo Trêpa". - Tirando os passeios de barco, que permitem uma bela vista das praias do Rio Negro e de suas águas escuras, passo bem menos calor aqui em Manaus, onde 25 graus transmitem a sensação de 40, do que em Sampa, cidade muito mal estruturada para o calor. Aqui, qualquer carro e qualquer estabelecimento fechado tem ar condicionado, geralmente no máximo. A exposição ao calor não chega a passar de cinco minutos, geralmente. - Revisão de trechos de O Último Herói Americano (The Last Action Hero) no canal Universal, ontem à noite. É um dos filmes mais subestimados de John McTiernan, e tem momentos de humor que se assemelham aos mais malucos do trio ZAZ (Zucker, Abrahams e Zucker, de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu). - Atlético MG 1 x 3 Flamengo. O que dizer? Time que perde de três em casa não parece querer o título. Mas afinal, quem quer? Talvez só o Flamengo mesmo, e talvez até consiga, com esse time sem vergonha, mas com muita vontade. - E o Palmeiras foi prejudicado pela arbitragem. E os paulistas estão aprendendo a reclamar disso com mais contundência. Mas já esqueceram de que foram ajudados contra o Corinthians e em outros jogos? - Caso da Uniban: vergonha para a Universidade e para todos que lá estudam. Se é que dá para chamar um troço daqueles de Universidade. - Meu Último Suspiro, sensacional livro de memórias de Buñuel, foi relançado pela Cosac & Naify, com capa dura. Merecia um post gosto/não gosto, afinal, foi ele que me inspirou. Mas fica para outro dia.
Escrito por sérgio alpendre às 20h20
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6° Festival de filmes de aventura do Amazonas

Estou em Manaus, onde está sendo realizado o 6° Festival de filmes de aventura do Amazonas. Ontem foi a abertura, com discurso de mais de meia hora do Governador do Estado e a apresentação, em digital de má qualidade, do filme Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo. Neste ano a cobertura será feita essencialmente aqui no chip hazard e, assim que possível, no Cineclick e na Contracampo. O filme de Ana Luiza Azevedo, por exemplo, teve detratores violentos durante o festival do Rio, bem como defensores apaixonados. Estou confortavelmente no meio, equidistante da aprovação entusiasmada ou da reprovação contundente. O que mais me incomoda é a mania de encher o filme de diálogos espertos, com as confusões que o nome Mim (de Jasmim) causa, por exemplo, ou os diversos outros mal-entendidos elaborados pelos roteiristas, entre eles o papa desse tipo de coisa, Jorge Furtado. Tem alguns momentos interessantes, justamente os que derivam diretamente de Houve Uma Vez Dois Verões, de... Jorge Furtado. A dor do menino que perde a namorada para o melhor amigo é bem filmada, assim como sua relação com a meia irmã e com o padastro, e ao contrário de sua relação com o pai distante. No geral, Antes Que o Mundo Acabe patina entre o mais do mesmo, o terno amor entre amigos e parentes, e a mania excessiva de querer ser espertinho.
Escrito por sérgio alpendre às 17h55
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Mostra SP: um balanço

A Mostra SP passada a limpo. Algumas cotações mudaram, para cima e para baixo. Neste ano fugi de quase todas as projeções digitais, e me dei bem com isso. As duas que encarei, para preencher buracos da programação, abortei com menos de vinte minutos. Acho incrível cobrarem por essas projeções. Muita gente tá reclamando, e a Mostra tá perdendo público com isso. Só não vê quem não quer. * * * * 1/2 A Religiosa Portuguesa, de Eugène Green Vencer, de Marco Bellocchio * * * * Shirin, de Abbas Kiarostami 35 Doses de Rum, de Claire Denis Singularidades de uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira * * *1/2 Uma Vida Real, de Sarah Leonor Ainda Adoráveis, de Nicholas Fackler Morrer Como um Homem, de João Pedro Rodrigues * * * Brilho de uma Paixão, de Jane Campion Belair, de Bruno Safadi e Noa Bressane A Casa de Sandro, de Gustavo Beck Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu Independência, de Raya Martin Trilogia II: A Poeira do Tempo, de Theo Angelopoulos * *1/2 Katalin Varga, de Peter Strickland Natimorto, de Paulo Machline Momentos Eternos, de Jan Troell Alexandre, o Último, de Joe Swanberg
Carmel, de Amos Gitai * * Mother, de Bong Joon-Ho A Família Wolberg, de Axelle Ropert London River, de Rachid Bouchareb O Amor Segundo B. Schianberg, de Beto Brant 1ª Vez em 16mm, de Rui Goulart Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, de Karin Ainouz e Marcelo Gomes * 1/2 Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas Perseguição, de Patrice Chéreau * Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez RETROSPECTIVAS (vistos ou revistos na Mostra) * * * * * Crônica de Anna Magdalena Bach, de Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet * * * * O Banquete, de Hasse Ekman Meu Lar é Copacabana, de Arne Sucksdorff * * 1/2 Nevrijeme - O Temporal, de Gian Vittorio Baldi
Escrito por sérgio alpendre às 23h42
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Kiarostami e a frustração

Dia completamente dominado por Abbas Kiarostami, e sua experiência com reação e frustração. Reação de atrizes a um filme que não podemos ver - daí a frustração. Shirin deve ser o mais belo filme já feito em cima desse tipo de frustração, e nesse sentido é melhor que Branca de Neve, a provocação diabólica de João Cesar Monteiro. Shirin (2008), de Abbas Kiarostami * * * * Acompanhar a emoção. Polícia, Adjetivo (2009), de Corneliu Porumboiu * * * Daria um ótimo curta de 20 minutos. Tudo o que vem antes não me parece necessário para o brilho da sequência final. 1ª Vez em 16mm (2008), de Rui Goulart * * Bizarrice de alguém que sabe não ser Godard, muito menos ator, mas quis fazer seu Paixão.
Escrito por sérgio alpendre às 02h34
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Fim de outubro, começo de novembro

Crônica de Anna Magdalena Bach: novembro se inicia com esta maravilha em 35mm. ------------------------------------------ Quatro dias acumulados sem post durante a Mostra. Nos dois primeiros dias, só uma revisão necessária (Oliveira em 35mm) e a primeira vez que vi algo do Eugène Green no cinema. No domingo, três filmes, entre eles a obra-prima de Straub-Huillet e a revisão do sensacional filme do Bellocchio. Nesta segunda, uma grande decepção (Ainouz e Gomes) e um filme que chega perto de comover, mas que de tão aprisionado pela fórmula do cinema social acaba causando só enfado. Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), de Manoel de Oliveira * * *1/2 Revisão em película deste divertimento do mestre Oliveira. A Religiosa Portuguesa (2009), de Eugène Green * * * *1/2 Mais desequilibrado do que Le Monde Vivant e Le Pont des Arts (que é provavelmente o melhor filme do século XXI), mas com três ou quatro momentos de antologia, incluindo a cena final. Crônica de Anna Magdalena Bach (1968), de Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet * * * * * Revisto em película e com a janela certa (1.37:1), graças à Sala Cinemateca, é uma aula de composição e equilíbrio cênico. A Família Wolbert (2009), de Axelle Ropert * *1/2 Semelhante, no tom e na chatice, a Tempestade no Gelo. Vencer (Vincere, 2009), de Marco Bellocchio * * * *1/2 Revisão do melhor filme do Festival do Rio. Cresce ainda mais, confirma que a segunda parte é melhor que a primeira (apesar de ser em grande parte por causa da rapidez angustiante da primeira), e que Bellocchio tem muito mais relação com Straub do que eu mesmo supunha (vendo os filmes dos dois no mesmo dia isso ficou claro). Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009), de Karin Ainouz e Marcelo Gomes *1/2 Muito cálculo para pouco cinema. Talvez a necessidade de estar em evidência atrapalhe esses talentosos diretores brasileiros, que acabaram criando aqui uma obra plastificada. London River (2009), de Rachid Bouchareb * * Mais do mesmo, inclusive na interpretação chorosa de Brenda Blethyn (de Segredos e Mentiras).
Escrito por sérgio alpendre às 22h30
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