Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, Homem





Histórico


Outros sites
 revista interlúdio
 antigo chip hazard
 meu blog musical: melomania
 blog da Eide
 alessandro coimbra blog
 amor louco
 ainda não começamos a pensar
 almanaquito
 ana paul multiply
 arqueologia da mise en scène
 aqui jazz lucas
 as aranhas
 assim está escrito
 balaio porreta 1986
 bangalô cult
 berghof
 blog do chiquinho
 bruno yukata saito
 cerrado cerebral
 canto do inácio
 cine análise
 cid blog
 cinearquivo irritante
 cine art
 cine resort
 cine do beto
 cinecasulofilia
 cinema com cana
 cinema cuspido e escarrado
 cinema de boca em boca
 crítica de cinema em portugal
 crítica retrô
 cinema de invenção
 culture injection
 cinenetcom
 dias felizes
 dementia 13
 da multidão
 dicionários de cinema
 diversita
 diário de um redator
 diário de um cinéfilo
 discurso-imagem
 do desastre ao triunfo
 duelo ao sol
 e agora para algo completamente diferente
 egolog
 enquadramento
 estranho encontro
 era uma vez na paraíba
 fabito's way
 esperando godard
 filmes para doidos
 filmes que só eu vi
 filmes do chico
 foco potiguar
 fora de quadro
 fotograma experimental
 herax blog
 hollywoodianas
 ilustrada no cinema
 in a glass house
 in a lonely place
 in the mood for cinema
 kino crazy
 kinos
 liga dos blogues cinematográficos
 lights in the dusk
 loged
 los olvidados
 medo do quê?
 marginal notes while filming
 merten
 meu nome não é superoito
 multiplot
 muvucofobia
 nada alucinatório
 noitada
 no extracampo
 nudo e selvaggio
 nitrato, acetato e poliéster
 na minha rolleiflex
 o caminho alternativo
 o cantinho do ócio
 o cinema e a pessoa
 o falcão maltês
 o lugar do sangue
 o olhar implícito
 o dia da fúria
 o esporte favorito dos homens
 o perseguidor
 o olho do furacão
 o planalto em chamas
 o signo do caos
 o signo do dragão
 o touro enraivecido
 olho cinematográfico
 olhos de caleidoscópio
 olhos livres
 olho de hochelaga
 paralelismo
 paragrafilme
 palavras do bruno
 passarim
 pagoda reborn
 pela luz dos meus olhos
 pensar enlouquece
 phantom limb
 pickpocket
 querelas cinematográficas
 qualquer coisa
 quotes e tal
 RD - b side
 rebeldes do deus neon
 sempre em marcha
 setaro's blog
 sétima arte e algo mais
 this blog is a movie
 the bridge
 toca do cinéfilo
 tudo é cinema
 vá e veja
 viver e morrer no cinema
 urso de lata
 watalandia
 zé geraldo couto
 zanin
 a film by
 chris fujiwara
 Chronic'art
 cinema em cena
 cinema escrito
 cine players
 cinemascope
 cinemascópio
 cinequanon
 cinética
 contracampo
 dvd beaver
 filmescópio
 film comment
 filmologia
 filmes polvo
 Foco
 green cine
 la furia umana
 moviola
 multiplot
 reverse shot
 taturana
 rouge
 UOL cinema
 zingu


chip hazard


Mad Max: Estrada da Fúria

Pessoal tem elogiado bastante esse novo Mad Max. Bem, acho que mais do que isso: o pessoal está embasbacado com o filme. Não creio que seja para tanto, e fui sem grandes expectativas, porque já acostumado com essas supervalorizações (eu mesmo cometo algumas de vez em quando).

É fato que George Miller é um diretor muito melhor que os Marvel boys, e que sua direção, mesmo na ação alucinante, não deixa de lado um cuidado com o espaço onde se dá a encenação. Em um ou outro momento você vê umas mudanças estranhas nas posições das carangas, mas nada muito aviltante.

Incomodam mais o excesso de música (ainda que exista um comentário interessante sobre isso na própria narrativa - o cara com a guitarra é insano) e o tom meio piegas de redenção. Mas têm momentos interessantíssimos como o da travessia do terreno infértil, com água contaminada e habitado por corvos e homens com perna de pau. Uma imagem realmente impactante.

O exagero das cenas de ação são aquilo lá, para não ser levado a sério mesmo. Um setentão se divertindo a valer por trás das câmeras. Não é a maravilha que pintam. É meio que um desfile de escola de samba, só que mais divertido. E é muito melhor do que esses filmes de super-heróis atuais.


Escrito por sérgio alpendre às 00h40
[] [envie esta mensagem] []



...

Dia desses Inácio Araujo reclamou da postura de Joaquim Pedro de Andrade em alguns filmes, uma postura de quem está acima de seus personagens, de quem os julga. Disse também que isso não costuma incomodar as pessoas, mas o incomoda. Acho bem o contrário. Os críticos normalmente se incomodam com isso. Eu não. Ou raramente me incomodo. Lembro que na Contracampo alguns diretores eram atacados justamente por esse tipo de postura "de cima" (lembro de Werner Herzog, mas havia outros). Na lista de discussão interna da revista, eu ficava praticamente sozinho defendendo Meu Melhor Inimigo. Inácio reclamou justamente de um dos meus preferidos do grande Joaquim Pedro, Guerra Conjugal.

Nunca entendi muito bem essa bronca contra quem julga. Creio que da inteligência e da honestidade vem uma certa arrogância, que pode se manifestar ou não. Hoje em dia há uma tendência de cercear uma manifestação mais contundente de julgamento, como se fosse um grande pecado. Existe com frequência um sentimento de superioridade em quem lida com crítica, pensamento, coisas fora de moda. Mas muitas vezes esse sentimento vira rapidamente ao contrário. Surge um sentimento de inadequação, de não ter jeito para as coisas, de ser um completo idiota. Esse sentimento efêmero de superioridade, aliás, é o que nos move. Porque nós, que lidamos de alguma forma com arte (escrevendo críticas ou dando aulas, no meu caso), sofremos o diabo porque somos autocríticos, inseguros, ansiosos. Se nos tirarem esse breve olhar de cima, o que sobrará de nós?



Escrito por sérgio alpendre às 00h09
[] [envie esta mensagem] []



De volta, de novo

- Surgiu uma foto de um multiplex em Bauru (mas podia ser em qualquer lugar do Brasil), em que as cinco salas exibem Velozes e Furiosos 7, dublado. Fábio Porchat, o comediante, compartilhou, e nos comentários alguns malucos defenderam o multiplex dizendo palavras que não ofendem, de tão burras. Uma delas diz respeito à necessidade de o cinema lucrar. E eu fico pensando: como lucrar exibindo apenas um filme? Ou se está falando de um público lobotomizado por completo, ou de uma estratégia burra do exibidor, ou pior, de algo mais escuso, que justificaria a onipresença do blockbuster americano (um incentivo da major, provavelmente).

- Falando nisso, Adilson Mendes flagrou a Cinemateca Brasileira com grandes logos da Warner. Já está tudo dominado mesmo?

- Volto dos 20 dias passados entre Portugal, França e Espanha. Deprimido, porque confirmo que não estou mais na civilização. Angustiado, porque o Brasil parece se encaminhar muito rapidamente para um fundo de poço que parece ser nossa condição. Desmotivado, porque em Madri e San Sebastián pude constatar (ou confirmar) que aqui no Brasil não existe cinefilia. Como existir, se livros sobre cinema simplesmente não vendem, e por isso saem cada vez menos, ocupam menos espaço nas livrarias, são pouco lidos?

- Mas a vida continua. Continuo dando aulas, escrevendo para a Folha de S.Paulo, tentando atualizar este blog e escrever para a Revista Interlúdio, participando do poeiraCast, jogando sinuca sempre que posso e ouvindo muita música (Steely Dan, Van der Graaf Generator, Ian Gillan, Deep Purple, Led Zeppelin, Gentle Giant, Moody Blues, Estelle, Arctic Monkeys, Depeche Mode, Picassos Falsos, Chico Buarque, Sérgio Sampaio foram os últimos). Também continuo a ler vários livros ao mesmo tempo e a rever filmes com imenso prazer, redescobrindo e reavaliando coisas.

- Ouvindo também Def Leppard, banda de que sempre gostei, e retomei por causa de uma excelente entrevista com Joe Elliott, o vocalista, no canal Bis.

- Encerrando em chave cinematográfica: revi A Noviça Rebelde, do sempre subestimado Robert Wise, após uma ótima conversa com o mestre Francisco Conte. Ele tem razão. É mesmo um filmaço. Godard (alguns faux-raccords) e expressionismo alemão (nas cenas do convento e devemos lembrar que a história se passa numa Áustria prestes a ser ocupada pelos nazistas) encontram George Cukor. É doido assim.


Escrito por sérgio alpendre às 00h07
[] [envie esta mensagem] []



De um Oliveira a outro

Não faço obituários no blog, a não ser quando se passa um tempo, o tempo do luto, de nos acostumarmos à vida sem o falecido.

Para Manoel de Oliveira, abro uma exceção.

Primeiro porque tenho uma relação muito forte com Portugal, desde que, criança, ficava lendo os jornais de meu avô e acompanhando os resultados do campeonato português. Sei lá por quê, torcia para o Boavista, que anos depois descobri ser um time do Porto.

Mais de trinta anos depois, conheço o Porto, o mesmo Porto de Manoel de Oliveira, e de O Porto de Minha Infância, uma de suas obras-primas. Conheço o Douro, rio mágico que brilhou em tantos de seus filmes, a começar pelo primeiro, Douro, Faina Fluvial.

Um anjo, Manuel Mozos, facilitou meu encontro com o mestre. Mas não consegui completar a comunicação. Algo em mim dizia que eu não devia insistir. Não insisti. Tentei só no meu primeiro dia inteiro na cidade.

Agora Manoel de Oliveira se foi. Poucos dias depois de eu ter passado por sua cidade, ter quase comprado um livro sobre ele em Paris, ter passado doze horas numa viagem de ônibus de Paris a San Sebastián (na hora, foi tortura, agora, é história para contar aos netos que não terei).

San Sebastián, cidade mais linda e mágica que conheci, aliviou minha dor. De algum modo, a vista do ponto mais alto da cidade me aproximou do mestre. Senti que estava perto de onde ele deve estar agora. Num céu azul azul, com lua e sol ao mesmo tempo, banhando um mar de beleza indescritível.

Os filmes. Gosto de todos. São capítulos essenciais da História do Cinema. Tenho cá meus preferidos: Amor de Perdição, Francisca, O Sapato de Cetim, Meu Caso, Non ou a Vã Glória de Mandar, O Dia do Desespero, Vale Abraão, O Convento, Palavra e Utopia, Porto de Minha Infância, O Princípio da Incerteza, O Quinto Império, Espelho Mágico, Belle Toujours, O Estranho Caso de Angélica, O Gebo e a Sombra... mais algum, certamente, que devo ter esquecido.

São muitos, sim, porque o homem era simplesmente um dos maiores em sua arte.

Apertei sua mão após a sessão de O Quinto Império. Estava com três amigos. Lembro de ter agradecido por mais uma obra-prima. Sua resposta: "O texto é muito bom". Depois, referindo-se às pessoas que saíram no meio da sessão, completou: "infelizmente as pessoas não têm mais paciência para um bom texto". É clichê, mas vou dizer: o cinema ficou muito mais pobre sem ele.

Por que de um Oliveira a outro? Acontece que meu pai se chama, justamente, Manoel de Oliveira (com um Messias no meio). Herdei seu último nome, vem depois do Alpendre, que é da minha mãe e do meu avô (o mesmo dos jornais e sotaque portugueses).



Escrito por sérgio alpendre às 19h59
[] [envie esta mensagem] []



Top 20 Clint Eastwood

Ainda não revi American Sniper, filme que cresceu bastante na memória (o que não é tão comum acontecer com filmes muito discutidos). Resolvi, contudo, fazer (ou refazer, caso eu já tenha feito no passado) um top da carreira de Clint Eastwood como diretor para ver em que posição ficaria este novo filme em sua carreira. Todos esses filmes foram revistos na ocasião do curso que ministrei em março do ano passado no Sesc Consolação. Claro está que esta lista é uma brincadeira, e que amanhã ou ontem a ordem poderia ser outra.

1) Honkytonk Man (1982)

2) Josey Wales - O Fora da Lei (1976)

3) Os Imperdoáveis (1991)

4) As Pontes de Madison (1995)

5) Um Mundo Perfeito (1993)

6) Crime Verdadeiro (1999)

7) Menina de Ouro (2004)

8) Bronco Billy (1980)

9) Gran Torino (2008)

10) Sobre Meninos e Lobos (2003)

11) Interlúdio de Amor (1973)

12) Além da Vida (2010)

13) O Estranho Sem Nome (1973)

14) Poder Absoluto (1997)

15) Cavaleiro Solitário (1985)

16) Sniper Americano (2014)

17) A Conquista da Honra (2006)

18) Bird (1988)

19) Cowboys do Espaço (2000)

20) Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal (1998)

---------------------------------------------------------------

Obs.: não é Sniper Americano que está numa posição baixa, é a carreira de Clint Eastwood que está numa posição elevada.



Escrito por sérgio alpendre às 17h02
[] [envie esta mensagem] []



Oscar - pílulas

- Adorei American Sniper. Não entendo o porquê de acharem o filme pró-guerra ou pró-Bush. E não entendo, afinal, porque isso seria tão determinante no gostar ou desgostar, se estamos falando de cinema, de como uma ideia é exposta em imagens. Clint Eastwood expõe de maneira inteligente, com o horror da guerra circundando cada vez mais o personagem, que vira um robô ao longo das expedições ao Iraque. 

- Dos concorrentes ao Oscar de melhor filme, Eastwood sai na frente em disparada, e é um escândalo que tenha sido preterido para o Oscar de melhor diretor. 

- Achei surpreendentemente digno A Teoria de Tudo, de James Marsh, que parece aqueles filmes ingleses quadrados dos anos 60, algo como um Ronald Neame atualizado (e levemente empobrecido, afinal).

- Birdman não é tão ruim assim, ao menos quando comparado a outras coisas cometidas por Iñarritu, mas será um escândalo se vencer no lugar de American Sniper, algo bem provável, aliás. Algo comparável à vitória de Quem Quer Ser um Milionário? anos atrás.

- Boyhood não merece nada, convenhamos. Linklater nunca me falou muito, a não ser em Antes do Pôr do Sol e Escola de Rock. Com Boyhood, fez uma espécie de Anna dos 6 aos 18, mas sem a poesia alcançada por Nikita Mikhalkov.

P.S.: vi Loucas Pra Casar, que talvez seja o pior filme dirigido por Roberto Santucci (o que é um feito e tanto). Chamar essa comédia com apoio da Globo de cinema popular é de uma terrível cara-de-pau. Cinema popular é Candeias, as pornochanchadas.


Escrito por sérgio alpendre às 03h51
[] [envie esta mensagem] []



Todo o cinema até hoje

Há uma ideia no prefácio da última Foco que resume, com perfeição e como eu nunca havia conseguido, minha própria relação com o cinema: "não se trata, para nós, de permanecer na superfície, restritos ao 'cinema que se faz hoje', e sim de prosseguir com uma ação em profundidade, ou seja, lidar com todo o cinema feito até hoje." Os itálicos são dos editores da revista, e essas palavras merecem mesmo destaque.

É assim que respondo àqueles, bem-intencionados, por certo, que me perguntam por que eu não fui à Mostra de Tiradentes, acrescentando um incômodo (ao menos para mim): "você não quer se manter antenado?"

Porque estar antenado, no meu entender, é procurar encontrar as forças que comandaram (talvez não seja a palavra ideal, mas não encontrei outra) o cinema até hoje. Todo o cinema até hoje, vale repetir. Estar antenado é estudar, mais uma vez, e a cada vez é diferente, a Nouvelle Vague para um curso com alunos que realmente valorizaram cada texto (re)lido, cada filme (re)visto, com interesse e perguntas desafiadoras. 

Além disso, a ideia de que por Tiradentes passa o novo, a vanguarda ou alguma outra asneira que leio de vez em quando por aí, só pode vir de alguém que nunca viu filme feito antes da Nouvelle Vague (ou deveria dizer Tarantino?). Ideias assim brigam contra o cinema, incluindo o feito por jovens tateantes.

Penso isso, mas obviamente defendo que esses filmes que passam por Tiradentes continuem sendo feitos, de preferência melhores do que têm sido, e encontrem público maior do que têm encontrado fora dos festivais.


Escrito por sérgio alpendre às 01h01
[] [envie esta mensagem] []



Momentos tocantes numa sala de cinema

Alguns momentos que me deixaram tocado em minha história de cinéfilo:

- final da exibição de Jules et Jim. Uma moça, cujo rosto eu não vi, portanto não sei se a conhecia de vista, estava em choque após o final do filme, com o namorado (ou um amigo) a consolá-la. Lembro que fiquei impressionado com o estado daquela garota, mesmo sem ter visto direito. Até hoje me lembro desse episódio. Acho absurdo pessoas se desesperarem por futebol, por exemplo. Aquela mulher no mineirão, que depois do quarto gol alemão parecia estar vendo o filho esquartejado na frente dela, foi responsável por uma das imagens mais patéticas que vi na Copa. Mas ser abalada dessa maneira por um filme é algo que sempre me emociona.

- exibição de O Touro Indomável, no antigo Espaço Banco Nacional (onde hoje é o Espaço Itaú da Augusta). Por volta de 1993, creio. Uma moça estava com o filho (que devia ter entre oito e dez anos), bem atrás de mim. Normalmente eu não gosto de pessoas conversando o tempo todo numa sala de cinema. É um comportamento sala de estar que me irrita profundamente. Nesse caso, porém, a moça ia explicando, didaticamente, o que era o filme. A opção pela fotografia em preto e branco, as mudanças de tempo, as mudanças de humor do protagonista. Tudo num tom de voz suave, que não me incomodou em momento algum. No final da sessão, pensei em parabenizá-la. Mas a timidez prevaleceu, e fui embora sem nem olhar para o rosto deles.

- Sessão de curtas no Teatro Castro Alves, em Salvador. Sala lotada, o que normalmente quer dizer sessão caótica. Não foi o que aconteceu por lá. O silêncio era total, algo que nunca tinha testemunhado. Saí com a impressão de que o espectador soteropolitano é o mais comportado e educado do Brasil.

- Por fim, uma sessão tragicômica. No Cine Ipiranga 2, que nem existe mais, creio. Sexto andar do prédio onde fica o Cine Ipiranga, na avenida de mesmo nome, centro de São Paulo. O filme era uma dessas comédias estúpidas da Globo Filmes. Estava com Cid Nader. A plateia parecia saída de um filme do Fellini. Pessoas mudando de lugar a toda hora. Espaço minúsculo entre uma fileira e outra (não dava para ficar com as pernas retas, para se ter uma ideia). No meio da sessão, duas meninas mudaram de lugar (pela quinta ou sexta vez) e sentaram na frente de um maluco, que no minuto seguinte falou para elas: "melhor vocês mudarem de lugar que eu vou vomitar". Elas mudaram, e ele cumpriu a promessa, enfeitando o chão da já emporcalhada sala de cinema.

P.S. Para os que ainda estão interessados numa lista de melhores do ano (é incrível como hoje em dia esse interesse dura bem menos do que há alguns anos), eis a edição de melhores de 2014 da Interlúdio:



Escrito por sérgio alpendre às 02h11
[] [envie esta mensagem] []



Notas

La Pointe Courte (1955), de Agnès Varda

-------------------------------------------------

Whiplash me encanta pela música de alta qualidade, um jazz nervoso, intenso. A trama é interessante: um jovem baterista quer ser o melhor; prefere morrer famoso aos 30 do que viver 80 anos sendo um ninguém. Encontra pela frente um professor obsessivo, capaz de levar os alunos à depressão caso eles não correspondam totalmente ao que ele pede. Esse professor é interpretado por J.K.Simmons, grande ator que aqui ficou descontrolado. Sua atuação está num tom acima, desequilibrando um pouco o filme. É do personagem? Talvez. Mas transformá-lo logo de início num vilão tira um pouco a graça. No momento em que ele chora, a máscara cai, mas o efeito não nos comove. É mais fácil, nesse caso, mudarmos da raiva para o desprezo do que para a condolência.

- Já ao novo de Assayas, Acima das Nuvens, falta desequilíbrio. Tudo é muito calculado, como num filme de Atom Egoyan. Os ambientes pelos quais circulam os personagens parecem mortuários. Não entendo como alguém aguente viver assim: o tempo todo vigiado (por fotógrafos, por pares do convívio social, pelos subordinados), o tempo todo atuando, na companhia de chatos. O filme é um tédio só, quase tão grande quanto Destinos Sentimentais, que Assayas realizou tentando imitar James Ivory. 

- O antídoto (sempre há um por perto) é rever a obra-prima de estreia de Agnès Varda: La Pointe Courte, filme que iluminou todo o caminho da Nouvelle Vague. Bergman (de Juventude) e Visconti (de A Terra Treme) amplificados. Ou a caixa Samuel Fuller que a Versátil acaba de lançar, com Casa de Bambu, Quimono Escarlate (meu preferido), Paixões que Alucinam e O Beijo Amargo.


Escrito por sérgio alpendre às 03h35
[] [envie esta mensagem] []



Curso, mostra, revista e dicionário

- Tenho lido e relido algumas coisas da Cahiers du Cinéma da fase de capa amarela (esquema para estudo aqui: http://www.revistainterludio.com.br/?p=7052). A paixão por cinema é evidente em cada página, cada escolha, cada defesa ou ataque apaixonados. O clima era outro. Podia-se viver de crítica de cinema. Podia-se aprender a fazer filmes escrevendo críticas (aprendizado, aliás, assumido por Godard e outros). Essas releituras serão muito úteis para o curso que estou preparando sobre a Nouvelle Vague francesa, a ser realizado às terças e quintas, a partir de 13 de janeiro, no Sesc Consolação. Já não há mais vagas, mas é possível ter alguma desistência de última hora, então creio que vale insistir.


- Adoro dicionários. Para quem lê francês, há dicionários sobre todos os assuntos, e com cinema não seria diferente. Dicionários Pialat, Godard, do pensamento cinematográfico, do cinema fantástico, e o que estou devorando agora, por causa do mesmo curso, o Dictionnaire de la Nouvelle Vague, de Noel Simsolo. Um dos verbetes mais curiosos é o de Louis Malle. Simsolo pergunta se o diretor de Os Amantes pode ser considerado como parte do movimento. Responde que, historicamente, sim, e que Lacombe Lucien tem muito mais a ver com os princípios da NV do que O Último Metrô. Provavelmente postarei mais coisas desse dicionário em breve.

- Ouvindo Electric Light Orchestra agora. ELO, para os mais chegados. Não tem como gostar de Beatles e não gostar de ELO. A não ser que se goste de Beatles pelos motivos errados - a suposta veia política de John Lennon, por exemplo (curiosamente, foi Lennon que falou, por volta de 1975, que se os Beatles estivessem na ativa provavelmente estariam fazendo algo muito parecido com o ELO). Ouçam três músicas do primeiro disco para tirar a prova: "Look at Me Now", composição insana de Roy Wood, e duas pérolas de Jeff Lynne, "Queen of the Hour" e "Mr. Radio". Não precisam me agradecer depois. É um prazer difundir obras de arte como essas.

- Vem aí, daqui a poucos dias, a mostra Easy Riders - O cinema da Nova Hollywood, com curadoria de Francis Vogner dos Reis e Paulo Santos Lima e produção de Leonardo Mecchi. Espero conseguir ver alguma coisa. Tenho estudado esse período há um bom tempo, mas não é fácil ver filmes americanos em tela grande. A programação já foi confirmada. De Bonnie & Clyde (Penn, 1967) a O Portal do Paraíso (Cimino, 1980). 1967 a 1980, periodização defendida tanto por Peter Biskind quanto por Jean-Baptiste Thoret em seu livro antológico sobre cinema americano dos anos 70. Destaco ainda Na Mira da Morte (Bogdanovich, 1968), A Última Sessão de Cinema (Bogdanovich, 1971), Pat Garrett & Billy the Kid (Peckinpah, 1974), Rolling Thunder (Flynn, 1978) e Muito Além do Jardim (o melhor Ashby, de 1979). Grande programa para quem está de férias.


Escrito por sérgio alpendre às 20h21
[] [envie esta mensagem] []



Ecran

Folheando vagarosamente uma Ecran de julho de 1974, com capa para Soylent Green, de Richard Fleischer. Deliciosa leitura. A Ecran surgiu no início de 1972, mais ou menos quando a Cahiers du Cinéma adotou uma postura mais radical, extremista, com textos políticos (dolorosos de ler até o fim). 

Naturalmente a revista comandada por Marcel Martin pode ser considerada uma substituta, ainda que no gosto e nas defesas ela esteja mais para a Positif.

Nesse número, eles ainda repercutem, por meio de um texto bem esclarecedor de Martin, a polêmica que Elio Petri levantou no Festival de Veneza do ano anterior, acusando a crítica de nunca ser questionada, de ser encastelada, entre outras coisas (ele chega a evocar maio de 1973). 

Há também um pequeno texto dando conta da polêmica que Glauber Rocha levantou em sua famosa carta para a revista Visão ("Golbery é gênio da raça"), e registrando o protesto de Glauber porque a Ecran não republicou seu texto na íntegra, e a recusa do diretor de esclarecer seu ponto de vista ("não é compreensível para um europeu").

Mas o que me chamou a atenção foi que a essa altura a revista havia suprimido seu quadro de cotações, mas colocado no lugar, abaixo de cada texto crítico, as cotações dos outros membros da redação, com eventuais comentários (de quem quisesse fazê-los). Por exemplo: abaixo de um texto elogioso de Marcel Martin sobre o brasileiro Toda Nudez Será Castigada, há seis cotações, dois comentários de Claire Clouzot e Max Tessier, e um pequeno comentário de Gérard Lenne, que dá uma estrela (única cotação negativa), lamentando o primarismo desse filme (e dos filmes de Mojica que viu na Convention du Fantastique) e constatando que o Cinema Novo "é um enclave na produção do país". 

Além desses citados, colaboravam freqüentemente para a revista: Claude Beylie (que seria o editor mais adiante), Henry Moret, Jean A. Gili, Guy Hennebelle e Jean Domarchi, entre outros.


Escrito por sérgio alpendre às 22h38
[] [envie esta mensagem] []



Aurora

Sobre Aurora, de F.W. Murnau, escreveu M.S. Fonseca, no catálogo da Cinemateca Portuguesa:

"Para se falar da sucessão de travellings e panorâmicas que, na saida noturna, acompanham o herói do filme, George O'Brien. até ao encontro com a vamp, a excelente Margaret Livingstone, tudo filmado num único longo plano, só há um qualificativo possível: sublime. Note-se, o que é sublime não é a capacidade técnica de executar um plano assim, nem sequer a permanente mestria da câmera, da montagem (veja-se o passeio em que George O'Brien faz menção de lançar à água Janet Gaynor), da fabulosa iluminação, enfim, o prodígio dos enquadramentos; o que é sublime é que tudo isso esteja em tão rigorosa adequeção com o chamado conteúdo do filme."

Palavra chave no trecho: adequação.



Escrito por sérgio alpendre às 01h51
[] [envie esta mensagem] []



Os dias de FICBIC

No início de novembro, troquei a seca paulistana pela abundância de água de Curitiba. Fui como curador do FICBIC - Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba, convidado pelos organizadores do Festival, Luiz Ernesto Meyer Pereira e Luciana Casagrande Pereira. Foi um trabalho que fiz com dedicação e paixão, e que me deixou, no final, bastante orgulhoso. 

Nesse período, revi filmes muito fortes, alguns ainda inéditos em São Paulo (como o novo do Pedro Costa, que deveria constar do currículo escolar a partir deste ano - tipo, prova do Enem). 

Foram nove dias intensos e recompensadores os que passei na capital paranaense. Primeiramente porque existe sempre a tensão da espera: será que os filmes que programei chegarão sem problemas ao público? 

Mas também porque tive a oportunidade de programar filmes que me deixaram extasiado, e gostaria que eles fossem vistos, discutidos, debatidos da melhor forma possível.

Felizmente, tudo correu bem. As projeções em DCP foram excelentes, e as projeções em 35mm também (no caso dos filmes do Eugène Green, excetuando La Sapienza). Os organizadores do festival são sérios e apaixonados, e por isso a estrutura era a melhor possível. Nesse sentido, devo agradecer imensamente, além dos organizadores, os incansáveis André Volpato, Lilllian França e Karen Mathias, além de Igor, o encarregado das legendas eletrônicas.

A intenção foi fazer uma mostra plural, com filmes que apontassem caminhos possíveis para o cinema contemporâneo, caminhos nem sempre destacados no circuito de festivais internacionais.

Teve filme para todos os gostos, desde o narrativo tipo Sessão da Tarde de tempos áureos (Queen and Country) à fábula chutação de balde (Pessoas Pássaro); do ensinamento e do pensamento artístico (em dois filmes tão diferentes como La Sapienza e National Gallery) à brincadeira com gêneros e expectativa do público (O Sétimo Código); do estudo de composição (O Atirador) à releitura de uma obra literária (Noites Brancas no Píer); da densidade de um passado cheio de traumas (Cavalo Dinheiro) ao questionamento das instituições (Dois Casamentos). 

Os debates contribuíram imensamente para o evento, e nesse sentido agradeço imensamente aos debatedores: Joel Yamaji, Andrea Tonacci, Luis Rosemberg Filho, Fernando Severo e Paulo Camargo. Todos tiveram falas inspiradas, que fizeram meu trabalho de mediador ficar mais fácil.

Tive contato com inúmeros cinéfilos que chegaram com palavras carinhosas e agradecidas, além de uma porção de ideias interessantes sobre os filmes que viram. Alguns até se apresentaram como leitores fiéis do meu trabalho, e pediram para que eu não abandonasse este blog, no que agradeci, meio que surpreendido. Conheci também um parente distante, Antonio Alpendre, que é professor. 

No mais, foi um prazer testemunhar o maravilhamento das pessoas diante dos filmes. De Luiz Ernesto com os últimos do Eugène Green e com National Gallery (que causou maravilhamento em outros presentes também, como Paulo Camargo). De Matheus Kerniski e Vivien (esposa do Joel) com Noites Brancas no Píer. De Joel com Cavalo Dinheiro. De Tonacci com Dois Casamentos.

Por tudo isso, só tenho que agradecer a todos que fizeram desses primeiros dias de novembro algo realmente especial para mim e, acredito, para todos os que trabalham no FICBIC. E também, espero, para quem conseguiu acompanhar o festival. 


Escrito por sérgio alpendre às 16h09
[] [envie esta mensagem] []



Maior abandonado

Sim, este blog está tal e qual a música. Mas isso vai acabar. Tive uma temporada de trabalho intensa e gratificante, coroada no final por uma edição muito bacana do FICBIC (Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba), da qual fui curador, com filmes como Cavalo DinheiroNational GalleryDois CasamentosNoites Brancas no PíerLa SapienzaA Ponte das ArtesA Religiosa Portuguesa, entre outros.

Queria, então, repassar algumas coisas:

1. Mostra SP. Ponto negativo para a programação, que deixou filmes clássicos mais uma vez em cinemas que não exibem com janela 1.33, e mesmo assim bem mal programado. Essa regra do ineditismo é um tiro no pé, mas ao menos encontraram nos clássicos uma possível saída. Basta apenas programarem direito.

2. Eleições. Torcedores de ambos os lados agindo como débeis mentais, com vantagem para os torcedores do Aécio, cuja escrotidão atingiu o limite mais alto que existe (e o uso da palavra torcedores não é casual, gente inteligente comportou-se como torcedores boçais de times de futebol nestas eleições). Fiquei enojado, com vergonha da humanidade. E esse papo de Cuba, Venezuela, bolivarismo, de andar com a camisa brasileira e de ameaçar fugir para Miami (antes fossem), pelas barbas de Orson Welles... Onde esse pessoal perdeu tanta massa cinzenta para vir com essas bobagens? Votei na Dilma por vários motivos. Mas não pela área cultural. Acho a meritocracia do PSDB menos pior do que a burocracia e a arte de contrapartida que tivemos nos últimos dez anos.  

3. DVDs. O oásis do cinéfilo que não quer encarar nosso circuito cada vez mais insignificante e não pode madrugar para entrar nas filas do CCBB. A Versátil, como sempre, na dianteira com essas coleções caprichadas (Primeira Guerra, Cinema Yakuza, Samurai 3, Filmes Noir, obras-primas do terror), e mais alguns quitutes (Harakiri, Trono Manchado de Sangue, Fedora - meu Deus, essa obra-prima do Billy Wilder finalmente em DVD...). A Universal mandou bem também ao lançar uma caixa de blu-rays com cinco filmes protagonizados por Clint Eastwood (dois de Don Siegel e os três primeiros dirigidos pelo próprio). O DVD de O Estranho Sem Nome estava uma caca. Era necessário nova versão em alta definição. Enfim, novidades a granel nesse setor. 

4. Futebol? Não sei mais o que é isso. Fizeram o favor de destruir o nosso, então posso acompanhar a NFL com menos culpa.

5. E para não dizerem que não falei do assunto, acho que é por muito mau-caratismo que não existe ainda uma criminalização eficaz da homofobia. As igrejas deviam ser as primeiras a pedir isso. Chega de lavarem as mãos a agressões contra pessoas. Fazem, assim, o jogo de Satã. Mas quando um casal gay é espancado no metrô, não se deve pedir só a criminalização da homofobia, mas também as imagens das câmeras que existem nos metrôs (ou não existem mais?). Pegar os agressores é muito fácil. Basta querer. Mas não querem, e esses que não querem são tão criminosos quanto os agressores. E tudo isso me embrulha o estômago.

6. Circuito comercial. Faço coro com o Inácio. Vivemos na "nação mais cinematograficamente boçal do universo"... E aí quando estreia um filme mais ou menos, dá-lhe louvações de todos os lados. A boçalidade impera.

7. Curso. Por último uma indicação: Em 1 de dezembro começa um novo curso meu na Inspiratorium. É sobre quatro gêneros cinematográficos: western, terror, comédia e musical. Mias informações aqui:




Escrito por sérgio alpendre às 02h39
[] [envie esta mensagem] []



Clement Greenberg

Lembro de três grandes confluências intelectuais em minha vida (deve ter mais, mas agora são essas que lembro). Foram descobertas ou indicações que vieram não para influenciar meu pensamento, meu modo de ver a vida e o mundo, mas para expor em melhores palavras aquilo que eu mesmo pensava de maneira trôpega, mal formada.

Isso se deu, como eu dizia, três vezes de maneira brutal. Primeiro com Luís Buñuel, no início da cinefilia. Logo depois, ou ao mesmo tempo, com Emil Cioran e sua visão crítica do mundo (visão que alguns chamam de pessimista). Em terceiro lugar, já neste século, com Clement Greenberg. Os dois primeiros eu fui buscar. Greenberg me foi indicado.

Quem me indicou o grande crítico de arte americano foi o Luiz Carlos Oliveira Jr, quando, num de nossos inúmeros e saudosos papos, ele me disse que aquilo que eu lhe falava com certa convicção tinha fortes semelhanças com o que ele tinha lido de Greenberg. Me indicou, assim, O Debate Crítico e Estética Doméstica. Pois encontrei mesmo, muito do que eu pensava, exposto com maior clareza e eloquência nas páginas do segundo livro, principalmente. Tanto nos ensaios da primeira metade quanto nas conferências com alunos da segunda. Desde então, recomendo Estética Doméstica e outros livros de Greenberg em aulas.

Segue um trecho do brilhante ensaio "Convenção e Inovação", presente em Estética Doméstica, relido para o curso de crítica que estou ministrando com Inácio Araujo:

"No passado, talvez se reconhecesse mais facilmente - mesmo se apenas implicitamente - que, a fim de romper com uma convenção, era necessária dominá-la ou, se não isso, pelo menos entender ou apreciar sua razão de ser. Blake, e Whitman também, estavam suficientemente imbuídos do verso métrico para serem capazes de superá-lo de modo mais ou menos efetivo ou, no mínimo, interessante, e adotarem o verso livre. Joyce precisou dominar o passado literário a fim de fazer o que fez com muitas convenções  consagradas da narrativa. Schoenberg precisou absorver a tonalidade clássica até os ossos antes que pudesse abandoná-la, como o fez. Manet conhecia do avesso a convenção de séculos da modelagem e do sombreado que violou tão radicalmente. Pollock era versado o bastante em todos os precedentes da composição e tratamento que violou. Picasso era um profundo conhecedor da tradição ocidental da escultura monolítica quando rompeu com ela, como fez em suas construções-colagens.

Não é minha intenção insistir que todos os inovadores foram, ou tiveram de ser, eruditos no sentido pleno, o sentido corrente. (E de qualquer modo, a erudição artística, a de que um artista necessita, é menos uma questão de conhecimento do que de gosto, de consciência desenvolvida em determinada direção. Shakespeare aparentemente não possuía tanta erudição livresca quanto Ben Jonson, mas era artisticamente mais erudito, ou seja, seu gosto era mais amplo e mais profundo.) Tudo o que digo é que a história não mostra nenhum caso de inovação significativa em que o artista inovador não conhecesse e dominasse a convenção ou as convenções que modificava ou abandonava. O que significa dizer que submetia sua arte à pressão dessas convenções, enquanto as modificava ou rechaçava. Que não precisava sair em busca de novas convenções para substituir as que deixava de lado; suas novas convenções emergiriam das antigas simplesmente por meio de seu embate com as antigas. E estas, não importa quão abruptamente descartadas, de algum modo permaneceriam lá, como fantasmas, e como fantasmas governariam".


Escrito por sérgio alpendre às 21h51
[] [envie esta mensagem] []



38ª Mostra SP vem aí

O cinéfilo paulistano que estiver desanimado com a Mostra SP pode tratar de se reanimar. Na coletiva de imprensa realizada neste sábado, uma série de quitutes de primeira linha foram anunciados, entre os quais a exibição especial dos três longas monumentais que Victor Erice dirigiu.

Na enorme retrospectiva do diretor, produtor e distribuidor Marin Karmitz, filmes essenciais como Mélo (Alain Resnais), A Noite de São Lourenço (Paolo e Vittorio Taviani), Salto no Vazio (Marco Bellocchio), O Apicultor (Theo Angelopoulos), Um Assunto de Mulheres (Claude Chabrol), O Carvalho (Lucian Pintilie), O Vento nos Levará (Abbas Kiarostami), Conto de Cinema (Hong Sang-soo) e Atirem no Pianista (François Truffaut).

Tem ainda três filmes de Noboru Nakamura, discípulo de Yasujiro Shimazu, um dos mais importantes cineastas japoneses. Lar Doce Lar (1951) e Paixão Mórbida (1964) são imperdíveis. O primeiro lembra Naruse, tem atores frequentes em Ozu e diretor de fotografia de Mizoguchi. O segundo está em sintonia com a Nuberu Bagu e com alguns filmes de Yasuzo Masumura. O outro, Quando a Chuva Cai (1957), é mais convencional e moralista, mas tem qualidades.

E a lista não acaba: O Homem e Sua Jaula (Fernando Coni Campos), O Circo (Charles Chaplin), O Velho do Restelo (curta de Manoel de Oliveira), A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos), Falstaff (Orson Welles), foco Espanha, com filmes clássicos de Buñuel, Edgar Neville, Arturo Carballo, entre outros, e ainda uma sessão especial Aloysio Raulino. 

A relação de filmes já está no site da Mostra. Certamente tem mais.


Escrito por sérgio alpendre às 02h18
[] [envie esta mensagem] []



Cinco filmes

Para dar conta dos últimos filmes vistos, nenhum deles plenamente bem sucedido, alguns breves comentários:


Guardiões da Galáxia. Para um roqueiro quarentão como eu, a grande sacada poderia ser a fita que o protagonista ganha da mãe e não larga por nada, mesmo após vinte anos em outra galáxia. Cheia de sucessos pop/rock dos anos 60 e 70 (tem até The Piña Colada Song, do Rupert Holmes), essa fita é mais um sinal de que o protagonista não cresceu, apesar de ter entrado em contato com outros mundos e diversos seres de outro planeta. É um playboy meio desmiolado e transformado em herói. Ao menos ele amadurece um pouco no decorrer do filme. Os maiores personagens são o guaxinim Rocket (que lá na origem, a HQ, tem sua relação com a adorável "Rocky Raccoon", dos Beatles) e seu companheiro Groot.

- De Menor. Caru Alves de Souza falou que foi bastante influenciada pelos irmãos Dardenne. Isso fica evidente no filme. Ainda bem. No cinema brasileiro recente várias declarações de influência são irreconhecíveis, e eu fico me perguntando como os diretores vêem os filmes que os influenciaram. No caso de Caru, ela viu direitinho. O filme peca em algumas coisas: a câmera dardenniana, por exemplo, está perdida em cenas importantes, atrapalhando bastante nossa relação com o drama da moça. Por isso não vai longe. Mas é uma promessa, de fato, como disse o Inácio.

- Lucy. Não é o pior filme do mundo, como me fizeram acreditar, mas os quinze minutos finais quase o jogam na lixeira. O lance com o uso do cérebro poderia ser interessante, e Besson aprendeu mais ou menos os macetes do cinema de ação oriental. Pena que no decurso a coisa desande tanto.

- Se Eu Ficar. Escrevi para a Folha sobre este filme interessante, mas igualmente decepcionante pelo final, quando fica claro que o romance estabelecido não é forte o suficiente para evitar algumas risadas na última sequência (que era para ser acachapante).

- Anjos da Lei 2. Escrevi sobre esse também. Saiu na Ilustrada de domingo. Fiquei feliz por poder parafrasear o grande Robin Wood. A leitura do casal de amigos pode ser óbvia para os críticos e jornalistas, mas certamente não é para a maior parte do público do filme.


Escrito por sérgio alpendre às 00h02
[] [envie esta mensagem] []



Diretores

- Fritz Lang. Tentei fazer um Top 10 ou 20 com os filmes do mestre, mas não consegui. Sinto não atender ao pedido de um leitor. Precisaria ter revisto mais filmes. Revi recentemente Gardênia Azul, por exemplo, e o filme cresceu assustadoramente, tornando-se uma obra-prima (assim como os dois outros do que Simsolo chamou de "Trilogia das Mídias": No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma). Além desses três, posso dizer que são imperdíveis pelo menos uns 15 mais, com destaque para os quatro Mabuse, Os NibelungosMulher na LuaMFúriaVive-se Uma Só VezOs ConquistadoresOs Carrascos Também Morrem, O Segredo da Porta Fechada, Os Corruptos e os dois indianos. O fato é: Lang é o tipo de diretor que se deve conhecer a fundo, ver e ler tudo que se puder sobre ele, rever os filmes sempre. 

- Woody Allen. Revi trechos de Para Roma com Amor. Claro que é um filme mais bobo dele e tal. Sua encenação é menos cuidada que em outros filmes recentes (como Sonho de Cassandra e Vicky Cristina Barcelona, os mais fortes dele neste século). Mas sempre há algo a se reter num filme dele. Sempre há cenas que me levam a rir. Raramente seus filmes me incomodam. Neste, mais uma vez, a presença do Allen ator é o maior destaque.

- Cecil B. De Mille. Gênio, diretor da precisão. Tomemos Sansão e Dalila, um dos mais subestimados do diretor. Cada corte surge de uma necessidade dramática. Os movimentos de câmera são muitos, sempre elegantes e igualmente necessários para o melhor entendimento de algum dilema ou alguma reação. Melodia do olhar. O que se disse de Nicholas Ray vale para De Mille, o diretor que captou olhares voluptuosos de Hedy Lamarr e olhares dissimulados de Angela Lansbury. A cada revisão eu chego perto da conclusão de que De Mille, pelo menos no cinema sonoro, só fez obras-primas.

- Leon Hirszman. Não precisa mais de 20 minutos de A Falecida, primeiro longa do diretor e de Fernanda Montenegro (já soberana), para ver ali uma excelência de mise en scène. Semelhante a De Mille na precisão, se é que se pode comparar cineastas tão distantes, Hirszman nos apresenta, como um mestre, a situação social e o ambiente que cerca os personagens. A Falecida apresenta uma faceta diferente do cinema novo, assim como, no mesmo ano, O Desafio, de Paulo Cezar Saraceni, e São Paulo S, A., de Luís Sérgio Person. Lembrando ainda de A Hora e a Vez de Augusto Matraga para reiterar que 1965 foi um ano especialíssimo para o cinema brasileiro.


Escrito por sérgio alpendre às 03h08
[] [envie esta mensagem] []



Loucura

- Revisão de A Gardênia Azul, de Fritz Lang. Nunca considerei um de seus melhores filmes, mas mudei de opinião. Richard Conte e Anne Baxter com uma química incrível, no primeiro filme do que Noel Simsolo chamou de "tríptico no qual a mídia tem um lugar importante ao lado de assassinos, policiais, inocentes e arrivistas". Completam o tríptico: No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma. Três obras-primas de um dos maiores artistas do século 20.

- O melindre continua em pauta. Agora foi Roger, do Ultraje a Rigor, que exagerou no mimimi contra Marcelo Rubens Paiva. Este, a não ser que eu tenha perdido algo, não disse nada de grosseiro a respeito de Roger, que parece ter perdido vários parafusos trabalhando com Gentile e reagiu desproporcionalmente, de maneira doentia.

- Acabo de saber de três derrotas de times campeões brasileiros, da série A (embora um deles, no campo, caiu para a série B), para times da divisão inferior (um deles na zona de rebaixamento). Não acompanho mais futebol, não vejo mais jogos brasileiros (não sou masoquista), mas gosto de saber quando acontece coisa assim.

- As mortes de 2014 eu não vou comentar. São muitas, o que talvez seja inédito, e é muito triste e trágico. Mas prefiro superar em silêncio.


Escrito por sérgio alpendre às 00h20
[] [envie esta mensagem] []



Leitores adultos

Cinéfilos e jornalistas reclamam de um título de resenha da Folha que diz: "Quem tem neurônio não vai gostar de 'Vestido para Casar'". Teria sido um título agressivo aos leitores que podem gostar do filme.

Não li a crítica porque não vi o filme, e todos que me acompanham mais ou menos sabem que há tempos considero o panorama crítico no Brasil e no exterior deplorável, no qual textos bons são exceção, e estão cada vez mais raros. E que há uma falência do espírito crítico e uma terrível falta de tempo para quem não vive de brisa, tempo que deveria ser usado para burilar textos e estudar mais, caso o trabalho intelectual fosse minimamente valorizado.

Mas que diabos de mimimi é esse? Título agressivo por quê? Queremos leitores adultos ou um bando de crianças que correm para seus papais quando contrariados? Leitores adultos dão no máximo risada com esse título. Eu mesmo já fui xingado indiretamente por críticas assim agressivas contra filmes que defendi. Vou chorar? Claro que não. Posso repensar, debater, porque essa história de "gosto não se discute" é uma bobagem.

Depois de ler as reclamações dos colegas, fui buscar na estante o livro sensacional que Noël Simsolo escreveu sobre Fritz Lang nos anos 80. Neste diamante da escrita cinematográfica, um de meus livros preferidos, o escriba xinga de imbecis os críticos alemães que torceram o nariz para Lang nos anos 20, e lembra da estocada que Jean-Louis Comolli, num texto de 1963, dá em um monte de críticos (incluindo o falecido André Bazin, que anos antes havia detonado No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma), quando afirma que a obra de Lang "é um desafio aos imbecis: eles tombam".

Esse é um dos problemas da crítica atual: o medo de ser franco e de tratar o leitor como adulto (Paulo Francis sempre dizia: "não ofendo os leitores, eu apenas os trato como adultos").

---------------------------------------------------------

P.S. Sempre é bom lembrar o excelente texto de Gérard Legrand a respeito de Mizoguchi (que, com Lang, era o preferido de Simsolo na época do livro), cujo início é reproduzido aqui:



Escrito por sérgio alpendre às 02h06
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]