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Aurora

Sobre Aurora, de F.W. Murnau, escreveu M.S. Fonseca, no catálogo da Cinemateca Portuguesa:

"Para se falar da sucessão de travellings e panorâmicas que, na saida noturna, acompanham o herói do filme, George O'Brien. até ao encontro com a vamp, a excelente Margaret Livingstone, tudo filmado num único longo plano, só há um qualificativo possível: sublime. Note-se, o que é sublime não é a capacidade técnica de executar um plano assim, nem sequer a permanente mestria da câmera, da montagem (veja-se o passeio em que George O'Brien faz menção de lançar à água Janet Gaynor), da fabulosa iluminação, enfim, o prodígio dos enquadramentos; o que é sublime é que tudo isso esteja em tão rigorosa adequeção com o chamado conteúdo do filme."

Palavra chave no trecho: adequação.



Escrito por sérgio alpendre às 01h51
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Os dias de FICBIC

No início de novembro, troquei a seca paulistana pela abundância de água de Curitiba. Fui como curador do FICBIC - Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba, convidado pelos organizadores do Festival, Luiz Ernesto Meyer Pereira e Luciana Casagrande Pereira. Foi um trabalho que fiz com dedicação e paixão, e que me deixou, no final, bastante orgulhoso. 

Nesse período, revi filmes muito fortes, alguns ainda inéditos em São Paulo (como o novo do Pedro Costa, que deveria constar do currículo escolar a partir deste ano - tipo, prova do Enem). 

Foram nove dias intensos e recompensadores os que passei na capital paranaense. Primeiramente porque existe sempre a tensão da espera: será que os filmes que programei chegarão sem problemas ao público? 

Mas também porque tive a oportunidade de programar filmes que me deixaram extasiado, e gostaria que eles fossem vistos, discutidos, debatidos da melhor forma possível.

Felizmente, tudo correu bem. As projeções em DCP foram excelentes, e as projeções em 35mm também (no caso dos filmes do Eugène Green, excetuando La Sapienza). Os organizadores do festival são sérios e apaixonados, e por isso a estrutura era a melhor possível. Nesse sentido, devo agradecer imensamente, além dos organizadores, os incansáveis André Volpato, Lilllian França e Karen Mathias, além de Igor, o encarregado das legendas eletrônicas.

A intenção foi fazer uma mostra plural, com filmes que apontassem caminhos possíveis para o cinema contemporâneo, caminhos nem sempre destacados no circuito de festivais internacionais.

Teve filme para todos os gostos, desde o narrativo tipo Sessão da Tarde de tempos áureos (Queen and Country) à fábula chutação de balde (Pessoas Pássaro); do ensinamento e do pensamento artístico (em dois filmes tão diferentes como La Sapienza e National Gallery) à brincadeira com gêneros e expectativa do público (O Sétimo Código); do estudo de composição (O Atirador) à releitura de uma obra literária (Noites Brancas no Píer); da densidade de um passado cheio de traumas (Cavalo Dinheiro) ao questionamento das instituições (Dois Casamentos). 

Os debates contribuíram imensamente para o evento, e nesse sentido agradeço imensamente aos debatedores: Joel Yamaji, Andrea Tonacci, Luis Rosemberg Filho, Fernando Severo e Paulo Camargo. Todos tiveram falas inspiradas, que fizeram meu trabalho de mediador ficar mais fácil.

Tive contato com inúmeros cinéfilos que chegaram com palavras carinhosas e agradecidas, além de uma porção de ideias interessantes sobre os filmes que viram. Alguns até se apresentaram como leitores fiéis do meu trabalho, e pediram para que eu não abandonasse este blog, no que agradeci, meio que surpreendido. Conheci também um parente distante, Antonio Alpendre, que é professor. 

No mais, foi um prazer testemunhar o maravilhamento das pessoas diante dos filmes. De Luiz Ernesto com os últimos do Eugène Green e com National Gallery (que causou maravilhamento em outros presentes também, como Paulo Camargo). De Matheus Kerniski e Vivien (esposa do Joel) com Noites Brancas no Píer. De Joel com Cavalo Dinheiro. De Tonacci com Dois Casamentos.

Por tudo isso, só tenho que agradecer a todos que fizeram desses primeiros dias de novembro algo realmente especial para mim e, acredito, para todos os que trabalham no FICBIC. E também, espero, para quem conseguiu acompanhar o festival. 


Escrito por sérgio alpendre às 16h09
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Maior abandonado

Sim, este blog está tal e qual a música. Mas isso vai acabar. Tive uma temporada de trabalho intensa e gratificante, coroada no final por uma edição muito bacana do FICBIC (Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba), da qual fui curador, com filmes como Cavalo DinheiroNational GalleryDois CasamentosNoites Brancas no PíerLa SapienzaA Ponte das ArtesA Religiosa Portuguesa, entre outros.

Queria, então, repassar algumas coisas:

1. Mostra SP. Ponto negativo para a programação, que deixou filmes clássicos mais uma vez em cinemas que não exibem com janela 1.33, e mesmo assim bem mal programado. Essa regra do ineditismo é um tiro no pé, mas ao menos encontraram nos clássicos uma possível saída. Basta apenas programarem direito.

2. Eleições. Torcedores de ambos os lados agindo como débeis mentais, com vantagem para os torcedores do Aécio, cuja escrotidão atingiu o limite mais alto que existe (e o uso da palavra torcedores não é casual, gente inteligente comportou-se como torcedores boçais de times de futebol nestas eleições). Fiquei enojado, com vergonha da humanidade. E esse papo de Cuba, Venezuela, bolivarismo, de andar com a camisa brasileira e de ameaçar fugir para Miami (antes fossem), pelas barbas de Orson Welles... Onde esse pessoal perdeu tanta massa cinzenta para vir com essas bobagens? Votei na Dilma por vários motivos. Mas não pela área cultural. Acho a meritocracia do PSDB menos pior do que a burocracia e a arte de contrapartida que tivemos nos últimos dez anos.  

3. DVDs. O oásis do cinéfilo que não quer encarar nosso circuito cada vez mais insignificante e não pode madrugar para entrar nas filas do CCBB. A Versátil, como sempre, na dianteira com essas coleções caprichadas (Primeira Guerra, Cinema Yakuza, Samurai 3, Filmes Noir, obras-primas do terror), e mais alguns quitutes (Harakiri, Trono Manchado de Sangue, Fedora - meu Deus, essa obra-prima do Billy Wilder finalmente em DVD...). A Universal mandou bem também ao lançar uma caixa de blu-rays com cinco filmes protagonizados por Clint Eastwood (dois de Don Siegel e os três primeiros dirigidos pelo próprio). O DVD de O Estranho Sem Nome estava uma caca. Era necessário nova versão em alta definição. Enfim, novidades a granel nesse setor. 

4. Futebol? Não sei mais o que é isso. Fizeram o favor de destruir o nosso, então posso acompanhar a NFL com menos culpa.

5. E para não dizerem que não falei do assunto, acho que é por muito mau-caratismo que não existe ainda uma criminalização eficaz da homofobia. As igrejas deviam ser as primeiras a pedir isso. Chega de lavarem as mãos a agressões contra pessoas. Fazem, assim, o jogo de Satã. Mas quando um casal gay é espancado no metrô, não se deve pedir só a criminalização da homofobia, mas também as imagens das câmeras que existem nos metrôs (ou não existem mais?). Pegar os agressores é muito fácil. Basta querer. Mas não querem, e esses que não querem são tão criminosos quanto os agressores. E tudo isso me embrulha o estômago.

6. Circuito comercial. Faço coro com o Inácio. Vivemos na "nação mais cinematograficamente boçal do universo"... E aí quando estreia um filme mais ou menos, dá-lhe louvações de todos os lados. A boçalidade impera.

7. Curso. Por último uma indicação: Em 1 de dezembro começa um novo curso meu na Inspiratorium. É sobre quatro gêneros cinematográficos: western, terror, comédia e musical. Mias informações aqui:




Escrito por sérgio alpendre às 02h39
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Clement Greenberg

Lembro de três grandes confluências intelectuais em minha vida (deve ter mais, mas agora são essas que lembro). Foram descobertas ou indicações que vieram não para influenciar meu pensamento, meu modo de ver a vida e o mundo, mas para expor em melhores palavras aquilo que eu mesmo pensava de maneira trôpega, mal formada.

Isso se deu, como eu dizia, três vezes de maneira brutal. Primeiro com Luís Buñuel, no início da cinefilia. Logo depois, ou ao mesmo tempo, com Emil Cioran e sua visão crítica do mundo (visão que alguns chamam de pessimista). Em terceiro lugar, já neste século, com Clement Greenberg. Os dois primeiros eu fui buscar. Greenberg me foi indicado.

Quem me indicou o grande crítico de arte americano foi o Luiz Carlos Oliveira Jr, quando, num de nossos inúmeros e saudosos papos, ele me disse que aquilo que eu lhe falava com certa convicção tinha fortes semelhanças com o que ele tinha lido de Greenberg. Me indicou, assim, O Debate Crítico e Estética Doméstica. Pois encontrei mesmo, muito do que eu pensava, exposto com maior clareza e eloquência nas páginas do segundo livro, principalmente. Tanto nos ensaios da primeira metade quanto nas conferências com alunos da segunda. Desde então, recomendo Estética Doméstica e outros livros de Greenberg em aulas.

Segue um trecho do brilhante ensaio "Convenção e Inovação", presente em Estética Doméstica, relido para o curso de crítica que estou ministrando com Inácio Araujo:

"No passado, talvez se reconhecesse mais facilmente - mesmo se apenas implicitamente - que, a fim de romper com uma convenção, era necessária dominá-la ou, se não isso, pelo menos entender ou apreciar sua razão de ser. Blake, e Whitman também, estavam suficientemente imbuídos do verso métrico para serem capazes de superá-lo de modo mais ou menos efetivo ou, no mínimo, interessante, e adotarem o verso livre. Joyce precisou dominar o passado literário a fim de fazer o que fez com muitas convenções  consagradas da narrativa. Schoenberg precisou absorver a tonalidade clássica até os ossos antes que pudesse abandoná-la, como o fez. Manet conhecia do avesso a convenção de séculos da modelagem e do sombreado que violou tão radicalmente. Pollock era versado o bastante em todos os precedentes da composição e tratamento que violou. Picasso era um profundo conhecedor da tradição ocidental da escultura monolítica quando rompeu com ela, como fez em suas construções-colagens.

Não é minha intenção insistir que todos os inovadores foram, ou tiveram de ser, eruditos no sentido pleno, o sentido corrente. (E de qualquer modo, a erudição artística, a de que um artista necessita, é menos uma questão de conhecimento do que de gosto, de consciência desenvolvida em determinada direção. Shakespeare aparentemente não possuía tanta erudição livresca quanto Ben Jonson, mas era artisticamente mais erudito, ou seja, seu gosto era mais amplo e mais profundo.) Tudo o que digo é que a história não mostra nenhum caso de inovação significativa em que o artista inovador não conhecesse e dominasse a convenção ou as convenções que modificava ou abandonava. O que significa dizer que submetia sua arte à pressão dessas convenções, enquanto as modificava ou rechaçava. Que não precisava sair em busca de novas convenções para substituir as que deixava de lado; suas novas convenções emergiriam das antigas simplesmente por meio de seu embate com as antigas. E estas, não importa quão abruptamente descartadas, de algum modo permaneceriam lá, como fantasmas, e como fantasmas governariam".


Escrito por sérgio alpendre às 21h51
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38ª Mostra SP vem aí

O cinéfilo paulistano que estiver desanimado com a Mostra SP pode tratar de se reanimar. Na coletiva de imprensa realizada neste sábado, uma série de quitutes de primeira linha foram anunciados, entre os quais a exibição especial dos três longas monumentais que Victor Erice dirigiu.

Na enorme retrospectiva do diretor, produtor e distribuidor Marin Karmitz, filmes essenciais como Mélo (Alain Resnais), A Noite de São Lourenço (Paolo e Vittorio Taviani), Salto no Vazio (Marco Bellocchio), O Apicultor (Theo Angelopoulos), Um Assunto de Mulheres (Claude Chabrol), O Carvalho (Lucian Pintilie), O Vento nos Levará (Abbas Kiarostami), Conto de Cinema (Hong Sang-soo) e Atirem no Pianista (François Truffaut).

Tem ainda três filmes de Noboru Nakamura, discípulo de Yasujiro Shimazu, um dos mais importantes cineastas japoneses. Lar Doce Lar (1951) e Paixão Mórbida (1964) são imperdíveis. O primeiro lembra Naruse, tem atores frequentes em Ozu e diretor de fotografia de Mizoguchi. O segundo está em sintonia com a Nuberu Bagu e com alguns filmes de Yasuzo Masumura. O outro, Quando a Chuva Cai (1957), é mais convencional e moralista, mas tem qualidades.

E a lista não acaba: O Homem e Sua Jaula (Fernando Coni Campos), O Circo (Charles Chaplin), O Velho do Restelo (curta de Manoel de Oliveira), A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos), Falstaff (Orson Welles), foco Espanha, com filmes clássicos de Buñuel, Edgar Neville, Arturo Carballo, entre outros, e ainda uma sessão especial Aloysio Raulino. 

A relação de filmes já está no site da Mostra. Certamente tem mais.


Escrito por sérgio alpendre às 02h18
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Cinco filmes

Para dar conta dos últimos filmes vistos, nenhum deles plenamente bem sucedido, alguns breves comentários:


Guardiões da Galáxia. Para um roqueiro quarentão como eu, a grande sacada poderia ser a fita que o protagonista ganha da mãe e não larga por nada, mesmo após vinte anos em outra galáxia. Cheia de sucessos pop/rock dos anos 60 e 70 (tem até The Piña Colada Song, do Rupert Holmes), essa fita é mais um sinal de que o protagonista não cresceu, apesar de ter entrado em contato com outros mundos e diversos seres de outro planeta. É um playboy meio desmiolado e transformado em herói. Ao menos ele amadurece um pouco no decorrer do filme. Os maiores personagens são o guaxinim Rocket (que lá na origem, a HQ, tem sua relação com a adorável "Rocky Raccoon", dos Beatles) e seu companheiro Groot.

- De Menor. Caru Alves de Souza falou que foi bastante influenciada pelos irmãos Dardenne. Isso fica evidente no filme. Ainda bem. No cinema brasileiro recente várias declarações de influência são irreconhecíveis, e eu fico me perguntando como os diretores vêem os filmes que os influenciaram. No caso de Caru, ela viu direitinho. O filme peca em algumas coisas: a câmera dardenniana, por exemplo, está perdida em cenas importantes, atrapalhando bastante nossa relação com o drama da moça. Por isso não vai longe. Mas é uma promessa, de fato, como disse o Inácio.

- Lucy. Não é o pior filme do mundo, como me fizeram acreditar, mas os quinze minutos finais quase o jogam na lixeira. O lance com o uso do cérebro poderia ser interessante, e Besson aprendeu mais ou menos os macetes do cinema de ação oriental. Pena que no decurso a coisa desande tanto.

- Se Eu Ficar. Escrevi para a Folha sobre este filme interessante, mas igualmente decepcionante pelo final, quando fica claro que o romance estabelecido não é forte o suficiente para evitar algumas risadas na última sequência (que era para ser acachapante).

- Anjos da Lei 2. Escrevi sobre esse também. Saiu na Ilustrada de domingo. Fiquei feliz por poder parafrasear o grande Robin Wood. A leitura do casal de amigos pode ser óbvia para os críticos e jornalistas, mas certamente não é para a maior parte do público do filme.


Escrito por sérgio alpendre às 00h02
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Diretores

- Fritz Lang. Tentei fazer um Top 10 ou 20 com os filmes do mestre, mas não consegui. Sinto não atender ao pedido de um leitor. Precisaria ter revisto mais filmes. Revi recentemente Gardênia Azul, por exemplo, e o filme cresceu assustadoramente, tornando-se uma obra-prima (assim como os dois outros do que Simsolo chamou de "Trilogia das Mídias": No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma). Além desses três, posso dizer que são imperdíveis pelo menos uns 15 mais, com destaque para os quatro Mabuse, Os NibelungosMulher na LuaMFúriaVive-se Uma Só VezOs ConquistadoresOs Carrascos Também Morrem, O Segredo da Porta Fechada, Os Corruptos e os dois indianos. O fato é: Lang é o tipo de diretor que se deve conhecer a fundo, ver e ler tudo que se puder sobre ele, rever os filmes sempre. 

- Woody Allen. Revi trechos de Para Roma com Amor. Claro que é um filme mais bobo dele e tal. Sua encenação é menos cuidada que em outros filmes recentes (como Sonho de Cassandra e Vicky Cristina Barcelona, os mais fortes dele neste século). Mas sempre há algo a se reter num filme dele. Sempre há cenas que me levam a rir. Raramente seus filmes me incomodam. Neste, mais uma vez, a presença do Allen ator é o maior destaque.

- Cecil B. De Mille. Gênio, diretor da precisão. Tomemos Sansão e Dalila, um dos mais subestimados do diretor. Cada corte surge de uma necessidade dramática. Os movimentos de câmera são muitos, sempre elegantes e igualmente necessários para o melhor entendimento de algum dilema ou alguma reação. Melodia do olhar. O que se disse de Nicholas Ray vale para De Mille, o diretor que captou olhares voluptuosos de Hedy Lamarr e olhares dissimulados de Angela Lansbury. A cada revisão eu chego perto da conclusão de que De Mille, pelo menos no cinema sonoro, só fez obras-primas.

- Leon Hirszman. Não precisa mais de 20 minutos de A Falecida, primeiro longa do diretor e de Fernanda Montenegro (já soberana), para ver ali uma excelência de mise en scène. Semelhante a De Mille na precisão, se é que se pode comparar cineastas tão distantes, Hirszman nos apresenta, como um mestre, a situação social e o ambiente que cerca os personagens. A Falecida apresenta uma faceta diferente do cinema novo, assim como, no mesmo ano, O Desafio, de Paulo Cezar Saraceni, e São Paulo S, A., de Luís Sérgio Person. Lembrando ainda de A Hora e a Vez de Augusto Matraga para reiterar que 1965 foi um ano especialíssimo para o cinema brasileiro.


Escrito por sérgio alpendre às 03h08
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Loucura

- Revisão de A Gardênia Azul, de Fritz Lang. Nunca considerei um de seus melhores filmes, mas mudei de opinião. Richard Conte e Anne Baxter com uma química incrível, no primeiro filme do que Noel Simsolo chamou de "tríptico no qual a mídia tem um lugar importante ao lado de assassinos, policiais, inocentes e arrivistas". Completam o tríptico: No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma. Três obras-primas de um dos maiores artistas do século 20.

- O melindre continua em pauta. Agora foi Roger, do Ultraje a Rigor, que exagerou no mimimi contra Marcelo Rubens Paiva. Este, a não ser que eu tenha perdido algo, não disse nada de grosseiro a respeito de Roger, que parece ter perdido vários parafusos trabalhando com Gentile e reagiu desproporcionalmente, de maneira doentia.

- Acabo de saber de três derrotas de times campeões brasileiros, da série A (embora um deles, no campo, caiu para a série B), para times da divisão inferior (um deles na zona de rebaixamento). Não acompanho mais futebol, não vejo mais jogos brasileiros (não sou masoquista), mas gosto de saber quando acontece coisa assim.

- As mortes de 2014 eu não vou comentar. São muitas, o que talvez seja inédito, e é muito triste e trágico. Mas prefiro superar em silêncio.


Escrito por sérgio alpendre às 00h20
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Leitores adultos

Cinéfilos e jornalistas reclamam de um título de resenha da Folha que diz: "Quem tem neurônio não vai gostar de 'Vestido para Casar'". Teria sido um título agressivo aos leitores que podem gostar do filme.

Não li a crítica porque não vi o filme, e todos que me acompanham mais ou menos sabem que há tempos considero o panorama crítico no Brasil e no exterior deplorável, no qual textos bons são exceção, e estão cada vez mais raros. E que há uma falência do espírito crítico e uma terrível falta de tempo para quem não vive de brisa, tempo que deveria ser usado para burilar textos e estudar mais, caso o trabalho intelectual fosse minimamente valorizado.

Mas que diabos de mimimi é esse? Título agressivo por quê? Queremos leitores adultos ou um bando de crianças que correm para seus papais quando contrariados? Leitores adultos dão no máximo risada com esse título. Eu mesmo já fui xingado indiretamente por críticas assim agressivas contra filmes que defendi. Vou chorar? Claro que não. Posso repensar, debater, porque essa história de "gosto não se discute" é uma bobagem.

Depois de ler as reclamações dos colegas, fui buscar na estante o livro sensacional que Noël Simsolo escreveu sobre Fritz Lang nos anos 80. Neste diamante da escrita cinematográfica, um de meus livros preferidos, o escriba xinga de imbecis os críticos alemães que torceram o nariz para Lang nos anos 20, e lembra da estocada que Jean-Louis Comolli, num texto de 1963, dá em um monte de críticos (incluindo o falecido André Bazin, que anos antes havia detonado No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma), quando afirma que a obra de Lang "é um desafio aos imbecis: eles tombam".

Esse é um dos problemas da crítica atual: o medo de ser franco e de tratar o leitor como adulto (Paulo Francis sempre dizia: "não ofendo os leitores, eu apenas os trato como adultos").

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P.S. Sempre é bom lembrar o excelente texto de Gérard Legrand a respeito de Mizoguchi (que, com Lang, era o preferido de Simsolo na época do livro), cujo início é reproduzido aqui:



Escrito por sérgio alpendre às 02h06
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Karel Zeman

O Barão Fanfarrão (Checoslováquia, 1962)



Escrito por sérgio alpendre às 13h35
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Jacques Aumont

Com a releitura de Moderno?, me reconcilio com Jacques Aumont. Claro, instigante, nada prolixo e feliz no trabalho com as referências. Tirando o velho equívoco de achar que o cinema dos anos 30 era um atraso estético (equívoco lamentável, por sinal, e bem repetido por aí), ele acerta bastante. É provavelmente seu melhor livro, junto com O Cinema e a Encenação. Com todos os outros livros dele fico dividido (todos que eu li, pelo menos). Essa divisão acontece dentro das obras. Ou me interesso pelo trecho lido, chegando até a admirar algumas sacadas, ou acho um porre. Acontece com A Imagem e O Olhar Imaginário, por exemplo, e, com a balança um pouco mais favorável, também no caso de Teoria dos Cineastas. Vale dizer ainda que Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, editado com Michel Marie, é um ótimo livro para consultas. E vários de seus textos antigos para a Cahiers du Cinéma são muito bons. Noves fora, descontando chatices e bobagens aqui e ali, vale a pena ler Aumont. Desde que seja depois de Douchet, Lourcelles, Wood, Simsolo, Astruc, Rohmer, Greenberg, Argan, Mourlet, Bazin...



Escrito por sérgio alpendre às 00h04
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Sam Peckinpah

Após a revisão de todos os filmes de Sam Peckinpah para o curso que ministrei no Cinesesc, resolvi fazer este ranking em homenagem a esse grande diretor (no lugar do habitual top 10 porque ele tem apenas 14 filmes para cinema). 

Nesta sexta-feira, aliás, vi a cópia censurada de Pat Garrett & Billy the Kid em 35mm. O filme permanece grande mesmo com três das quatro melhores sequências mutiladas. Principalmente porque a relação de admiração entre eles persiste, e o velório final também. 

As três sequências mutiladas a que me refiro são: a) a do início, com planos da emboscada a Pat Garrett em 1909 (inexistentes na cópia vista em película) se misturando com os de Billy e seus comparsas atirando nos galos enterrados; b) a tocante conversa de Pat Garrett com sua esposa, em que esta reclama que ele não é mais o mesmo após ser nomeado xerife; c) Pat com as prostitutas (cortada quase que totalmente na versão da época). 

Na versão que tem em DVD, o filme fica imbatível em primeiro lugar no Top. Na versão exibida na mostra, diria que fica em terceiro.

Gosto de todos os filmes de Peckinpah. Nem tanto de Assassinos de Elite e Cruz de Ferro, mas adoro o injustiçado Comboio, mal visto principalmente por ser o filme que mais fugiu ao seu controle. 

1) Pat Garrett & Billy the Kid (1973)

2) Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (Bring me the Head of A.G., 1974)

3) Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969)

4) Juramento de Vingança (Major Dundee, 1965)

5) Pistoleiros do Entardecer (Ride in High Country, 1962)

6) A Morte Não Manda Recado (The Ballad of Cable Hogue, 1970)

7) Os Implacáveis (The Getaway, 1972)

8) O Casal Osterman (The Osterman Weekend, 1983)

9) Dez Segundos de Perigo (Junior Bonner, 1972)

10) Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971)

11) Comboio (Convoy, 1978)

12) O Homem Que Eu Devia Odiar (The Deadly Companions, 1961)

13) Cruz de Ferro (Cross of Iron, 1977)

14) Assassinos de Elite (The Killer Elite, 1975)


Escrito por sérgio alpendre às 03h10
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Top 10 Ermanno Olmi

Curiosamente, não lembro ao certo como descobri o cinema de Ermanno Olmi. Das duas uma: ou foi numa exibição de A Árvore dos Tamancos na TV aberta, ou foi no Belas Artes (sala Mário de Andrade) vendo A Lenda do Santo Beberrão. De todo modo, foi entre 1990 e 1991. 

Não era o tipo de cinema que eu mais admirava na época (era mais dos clássicos americanos no início da cinefilia), assim como não era ainda um grande admirador de Rossellini ou Godard (mas já adorava Buñuel). 

Mais tarde descobri, de Olmi, O Posto e Os Noivos, e virei para sempre um entusiasta da maneira como o cineasta, camponês bergamasco autêntico, constrói seu cinema, partindo de Rossellini para uma visão de mundo bem peculiar (algo que todo grande artista tem obrigatoriamente).

1) A Árvore dos Tamancos (L'Albero Degli Zoccoli, 1978)

2) O Posto (Il Posto, 1961)

3) La Cotta (1967)

4) Os Noivos (I Fidanzati, 1962)

5) O Mestre das Armas (Il Mestiere delle Armi, 2001)

6) O Tempo Parou (Il Tempo si è Fermato, 1959)

7) Camminacammina (1983)

8) E Venne un Uomo (1965)

9) A Lenda do Santo Beberrão (La Leggenda del Santo Bevitore, 1988)

10) Cantando Dietro i Paraventi (2003)

Bateram na trave: Longa Vida à Senhora (1987), A Lenda do Bosque Velho (1993) e o curta La Mia Valle (1955).

Ficaram de fora filmes de que gosto bastante, como Un Certo Giorno (1969), I Recuperanti (1970) e La Circostanza (1973).


Escrito por sérgio alpendre às 22h02
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ESPN, mostras e Eastwood

1) Copa do Mundo 2014. Jogos realmente sensacionais, pela emoção. Sempre disputados e muito corridos, apesar do calor na maior parte das sedes. O capítulo negativo vai para a ESPN Brasil, que faz sua pior cobertura desde que o canal existe. A ideia de congelar PVC, Mauro Cesar Pereira e João Carlos Albuquerque (o simpático canalha), os três melhores e mais carismáticos da emissora, foi de uma incrível estupidez. Os dois primeiros como setoristas de seleções favoritas, o que é um desperdício completo de grande matéria-prima para análise. O canalha está sumido, quase não aparece, e quando aparece é na hora do almoço, nunca ou raramente no horário nobre. Lamentável (a não ser que ele tenha pedido um descanso, o que acho difícil). Aliás, desde que a direção passou do Trajano para o Palomino tenho me irritado frequentemente com a emissora.

2) A Copa em outras emissoras, por outro lado, é impossível de se ver. O que dá certa pena. Se a ESPN, que está cada vez pior, ainda é a melhor, imaginem como estão as outras.

3) Julho está fenomenal no circuito alternativo de cinema. Ainda rola a mostra Ermanno Olmi no CCSP (no próximo post, um Top 10 do diretor). Logo mais, Fritz Lang e Sam Peckinpah, com filmografias inteiras no CCBB e Cinesesc, respectivamente. 

4) Belo filme o de Clint Eastwood. E estreou muito mal (ao menos em SP), com poucos horários e em cinemas mais periféricos, e ainda por cima durante a Copa. A recepção que teve Jersey Boys me lembrou a de Menina de Ouro, com os fiscais (como chamou Inácio Araujo à época) reclamando de coisas bobas e deixando de ver o que o filme tem de fundamental: é mais um capítulo na revisão da História dos EUA por um de seus melhores diretores, e essa revisão se forma, desta vez, pela música pop, e pela maneira como ela atinge a sociedade.


Escrito por sérgio alpendre às 15h06
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Ermanno Olmi

Num depoimento de 2000 tirado do catálogo Ermanno Olmi - Uma excêntrica normalidade, publicado pela Cinemateca Portuguesa:

"(...) sonho com um público arrependimento dos intelectuais, até agora coniventes com uma dissolução cultural que tem como únicos pontos de referência a espetacularização e as audiências. Também o cidadão, com o seu telecomando, tem a sua quota de culpa. Mas a grande traição provém, exatamente, da casta dos intelectuais arregimentados num covil imoral. E nessa casta incluo não só os que trabalham nas editoras e nos jornais, mas também aqueles que tomam decisões administrativas ou subscrevem regulamentos insensatos. Não pretendo penitências mas um simples anúncio feito de boa vontade: percebemos que podemos mudar."



Escrito por sérgio alpendre às 14h06
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Os 100 mais belos filmes franceses segundo les inrockuptibles

O excesso de trabalho pré-Copa e uma viagem durante a Copa me afastaram do blog. Isso não se faz. De volta, portanto, a este espaço que mantenho desde 2004 (está prestes a completar 10 anos).

Confesso que tinha me passado despercebida a lista que a Inrockuptibles fez em março, com os 100 melhores filmes franceses de todos os tempos. Eis a lista:


Algumas curiosidades da lista (que não é tão ruim quanto essas listas costumam ser):

1) A Mãe e a Puta (foto), de Jean Eustache, é um primeiro colocado pouco óbvio (e, aliás, existem várias escolhas pouco óbvias na lista). Claro que era de se esperar na lista, mas em primeiro? Quando vi, achei bacana, pois o filme de fato é uma obra-prima. Depois fiquei pensando que deveria ter sido algum do Renoir ou do Vigo. O que fez com que o filme de Eustache fosse tão bem votado? Terá sido a ideia estúpida de que o cinema francês começou de fato com a Nouvelle Vague? 

2) Dois filmes de Jacques Demy estão nos dez primeiros lugares. E são os dois mais óbvios: Le Parapluies de Cherbourg e Les Demoiselles de Rochefort. Legal que o maravilhoso Peau D'Anne marcou presença, em 83º.

3) Na lista pessoal do Kiyoshi Kurosawa, vi a confirmação de algo que sempre me intrigou. Quando revi Charisma (Karisuma), lembrei bastante de dois filmes de Godard: Weekend e Detetive. Não entendia por que esse segundo, normalmente tido como um filme menor do diretor (para mim, o único que não desce, tirando alguns da fase Dziga Vertov), me viria à mente. Pois foi um dos dez votados por Kiyoshi. Talvez isso explique algo que eu intuía, mas não conseguia explicar racionalmente.

4) Catherine Deneuve é a atriz com mais filmes lembrados na lista. Empatada com Michel Piccoli (9 filmes cada). Em entrevista, ela diz que não gostou muito de trabalhar com Luis Buñuel, e que este queria mais cenas de nudez em A Bela da Tarde, no que ela recusou. Depois, lembremos, ela se recusou também a trabalhar em Belle Toujours, apesar de admirar e amar Manoel de Oliveira.

5) O diretor com mais filmes na lista é Jean-Luc Godard, que emplacou sete títulos. Depois vem Jean Renoir, François Truffaut e Robert Bresson, com seis filmes cada. Jacques Demy aparece em seguida com cinco.


Escrito por sérgio alpendre às 13h14
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Henri Langlois

A correspondência de Langlois, vasta obra, ainda precisa ser publicada. Há uma carta a [Hans] Richter, em 1952, na qual Langlois se espanta que o cineasta lhe tenha recusado uma cópia de Rêves à Vendre para uma programação, em seguida a um texto bem crítico que ele havia publicado sobre a obra em La Revue de Cinéma. Ele explica assim que existem dois Langlois, que não se confundem jamais: o Langlois crítico, subjetivo, e o Langlois programador. Se ele tivesse intitulado a mostra "As obras-primas do cinema de vanguarda, teria compreendido a recusa de Richter, mas como a programação se chama "História do cinema de vanguarda", o filme deve ser exibido.

Bernard Benoliel, em entrevista a Nicolas Azalbert, na Cahiers du Cinéma 669, de abril, 2014 (capa Alain Resnais - uma das melhores edições recentes, aliás).

Ele também havia dito, em entrevista publicada na Cahiers 135, que se recusava em abdicar de sua subjetividade, e ao mesmo tempo se recusava a rejeitar qualquer filme como programador.

Bernard Eisenschitz, na mesma entrevista.


Escrito por sérgio alpendre às 16h01
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Renovando as forças

"A gente vai levando", dizia a velha canção. A música marcou época, mas a verdade é que a situação está cada vez pior para quem quer se envolver com arte.

Apesar disso, dois acontecimentos recentes, um na terça, outro na quarta desta semana, renovaram minhas esperanças na humanidade que assim caminha.

O primeiro foi o encontro com o grande Nelson Pereira dos Santos, para um debate sobre sua obra no Sesc Belenzinho. Foi exibido o curta Missa do Galo, adaptação de Machado de Assis com os mesmos atores que haviam feito Azyllo Muito Louco (outra adaptação do escritor) pelo mesmo Nelson em 1969: Nildo Parente e a rainha Isabel Ribeiro.

Nelson respondeu pacientemente todas as perguntas. Seu entusiasmo, a vontade de falar com os presentes, as novas ideias (adianto, são rossellinianas), tudo reverberava sua paixão por cinema. Foi extremamente generoso e gentil. Não esquecerei seu abraço, na despedida. 

Nesta quarta-feira, dia 04, voltei a Águas de São Pedro, cidade localizada a meia hora (de carro) de Piracicaba, que conheci quando criança, trazido por meus pais. É o tipo de lugar ideal para se viver em paz. Tem cerca de 3 mil habitantes, um sebo de livros adorável, e alunos interessados de todas as idades, como o professor Rubens Teixeira, que muito contribuiu para que eu aprendesse também. Há mesmo algo de mágico na água daqui.


Escrito por sérgio alpendre às 00h53
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Eugène Green esnobado por Cannes

Confesso que nunca entendi o tanto que o pessoal da cinefilia se importa com o Festival de Cannes. Não estranho quem goste de ir, cobrir, acompanhar os filmes, embora eu mesmo não tenha muita vontade de fazer isso. É normal querer se alimentar de filmes, mesmo que a safra seja ruim. Estranho, sim, alguém que fica esperando ansioso pelas premiações, pela programação, pela recepção crítica aos filmes, sem ter visto coisa alguma, como se viesse desse festival o melhor do cinema atual.

Estranho mais ainda que um filme como La Sapienza, do grande Eugène Green, tenha sido inscrito em Cannes 2014 e não tenha constado na enorme programação do evento (algo que me foi contado por um amigo, Pedro Faissol, que esteve com ele recentemente). 

Mesmo desconfiando das balizas autorais, um filme de Green, pelo que ele já fez no cinema, deve ser melhor do que quase tudo que foi exibido por lá (me arrisco, sim, a dizer isso sem ter visto os filmes, por isso escrevo "deve"; além do mais, os longas anteriores de Green deixa o risco muito menor). 

Não sou inocente de achar que entram sempre os melhores segundo a curadoria. É óbvio que negócios e políticas influenciam muito mais as escolhas do que qualidade artística. E por isso, pensando melhor, não estranho a ausência de La Sapienza. O que estranho mesmo é tanta comoção dos cinéfilos por um festival que simplesmente esnoba um cineasta como Eugène Green.


Escrito por sérgio alpendre às 23h45
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Voltando a Dancin' Days

É incrível a diferença entre o espírito daquela época, 1978, e o espírito de hoje em relação ao que o público pode ou deseja ver no horário nobre. Em Dancin' Days, escrita por Gilberto Braga e dirigida por Daniel Filho, inúmeros diálogos sérios, com questões complexas e até filosóficas, são exibidos quase que diariamente com uma duração acima do comum. 

Os personagens também revelam essa complexidade em sua construção. De início, é Mário Lago o responsável pelo show. Sua atuação como o fleumático e picareta Auberico é dos grandes momentos da TV Brasileira. 

Conforme o tempo passa, é Joana Fomm que revela um talento absurdo e engrandece sua personagem, Yolanda, a ponto de entendermos suas razões. Num duelo com Júlia (Sônia Braga), no capítulo 36 que passou neste sábado, compreendemos perfeitamente sua angústia com a possibilidade de perder o carinho e o amor postiços de sua filha de criação, sua vergonha com o passado sofrido e os pais pobres, sua imensa fraqueza. Alguns capítulos antes, o desespero que Yolanda demonstrou ao telefone com uma amiga, antes de pedir desculpas de uma maneira deveras comovente ao marido Horácio (José Lewgoy).

Dizem que são os grandes vilões que fazem os grandes dramas. Pois a Yolanda de Joana Fomm, pela terrível humanidade e complexidade de seu caráter, faz de Dancin' Days a melhor coisa a se ver atualmente na televisão brasileira. Na boa, melhor que qualquer longa brasileiro recente (com a exceção de Educação Sentimental).

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P.S. - O amigo Lufe Steffen criou um talk show para falar da novela e eu tinha esquecido de avisar. Vale a pena seguir. Abaixo está o piloto. Do lado direito tem o link para outros programas (curiosamente, não estou conseguindo realçar como normalmente faço com os links):



Escrito por sérgio alpendre às 00h27
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