Oh, Susana, não chores por mim

Existem alguns chavões difíceis de serem quebrados. Um deles diz respeito a Susana, este adorável filme realizado por Luis Buñuel logo após Os Esquecidos. Tal obra-prima o eclipsou. Algumas declarações de Buñuel, que tinha más impressões mesmo sem nunca ter revisto o filme, fez com que se propagasse a ideia de que Susana seria um filme menor. Dizia o diretor que o final feliz o estragava, que ele nunca deveria ter filmado o final desse jeito.
Ora, diabos, será que nem mesmo ele percebeu a ironia de tudo? Ou teria esquecido (hipótese mais provável)? Porque o fim de Susana, com as coisas voltando ao que eram e até a febre da égua esvaindo-se milagrosamente, é de uma crueldade totalmente buñueliana. Passa-se a borracha em tudo em nome das aparências e que a maior atingida engula o sapo.
Susana ainda é um dos filmes mais eróticos realizados por Buñuel. Salvo falha na memória, é o mais erótico entre todos os realizados no México nos anos 50. Aqui não temos ovo jogado na lente da câmera, mas escorrendo, depois de quebrado, pelas pernas carnudas de Susana.
Existem outros belos filmes desprezados do Buñuel mexicano: Subida ao Céu, Escravos do Rancor, Robinson Crusoe, A Ilusão Viaja de Bonde, Os Ambiciosos. Nenhum é tão bom quanto Susana, mas já está mais do que na hora desses filmes serem celebrados como merecem.
Escrito por sérgio alpendre às 22h26
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A Separação e algumas junções

As Praias de Agnès ---------------------------- - Filme forte esse A Separação. Ilustra bem a diferença entre os que adotam a câmera cachorro ou suas variações (pernilongo, abstinência alcoólica e quetais) e os que realmente constroem uma dramaturgia. As coisas não são solucionáveis nesse filme de Ashgar Farhadi. Temos problemas comuns, que podem afligir a todos nós, e que não se resolvem num passe de mágica (como é regra no cinema comercial). Muitos dos problemas seriam solucionados se as pessoas envolvidas tivessem bom senso o tempo todo. Não é o caso, no mundo e no filme. Tanto melhor, pois nos afligimos com ele, e nos envolvemos com o talento de Farhadi. E essa escola de atores do cinema iraniano dá um show. Alguns são reconhecíveis do filme anterior de Farhadi, o igualmente ótimo Procurando Elly.
- Longos trechos revistos de Brasa Adormecida, o melhor longa de Djalma Limongi Batista (não vi os curtas). Totalmente amalucado na segunda metade, com Maitê Proença no auge da beleza (algo que rivaliza com Grace Kelly e Ava Gardner) e uma reconstituição de época que é mais divertida do que precisa, o filme tem uma série de referências cinefílicas (Murnau, Buñuel e principalmente Fassbinder são as que me vem à mente agora).
- A pergunta certa não é "como Buñuel passou de dois filmes interessantes mas mancos como Gran Casino e Gran Cavalera para a obra-prima que é Os Esquecidos, seu terceiro filme mexicano", mas "como ele teria realizado dois filmes quase ordinários como os supracitados entre as obras-primas Las Hurdes e Os Esquecidos". Este último impressiona em todos os aspectos. No social, pela maneira como ele insere suas observações da pobreza mexicana na narrativa (camas com estruturas de bronze, por exemplo, pelo qual foi criticado). No onírico, pela feliz conjunção dos sonhos com o enredo, algo deslocado do enredo, mas que nos ilumina para algumas características até então escondidas dos personagens. Fora isso, a movimentação de câmera é primorosa, como em vários dos filmes que Buñuel realizou com mais dinheiro, no México ou fora. E o ovo que se choca contra a lente permanece como uma das imagens mais chocantes do cinema.
- Revisão de As Praias de Agnés, a espetacular esmiuçada na memória de Agnès Varda, que entrou com atraso de mais de quatro anos no Cinesesc (antes tarde do que nunca, diriam com razão os que lamentam a qualidade das estreias semanais no circuito). Legal também porque dá vontade de voltar aos filmes, dela e de Jacques Demy. Texto meu para a Revista Interlúdio: http://www.revistainterludio.com.br/?p=2053
Escrito por sérgio alpendre às 23h00
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Escola Inspiratorium - inscrições abertas

A Vanessa Gouveia e o Bruno Primor, da Inspiratorium, me avisam que estão abertas as inscrições para a Formação de Cinema, curso profissionalizante com duração de dois anos e início em março de 2012.
O time reunido pelo Bruno com a ajuda do Joel Yamagi é de primeira. Humildemente faço parte dele, como um mascote que ainda irá aprender muito com esses feras todos. Entrei como coordenador da linha de História e Crítica, algo que muito me orgulha.
Os demais companheiros de time são Alziro Barbosa, em Fotografia; Cristina Amaral, em Montagem; Luiz Adelmo, em Som; Renata Rugai, em Arte; Renata Saraceni, em Produção e o próprio Joel Yamaji, em Direção e Roteiro.
A Formação de Cinema prevê ainda palestras e bate-papos entre convidados especiais e alunos. Entre os nomes já confirmados estão Andrea Tonacci, Carlos Reichenbach, Roberto Gervitz, mas existem outros. Visitei a sede da Escola em Janeiro deste ano. As instalações são muito boas e o trabalho deles é sério. Sou suspeito para recomendar o investimento no curso, mas eu diria que é uma oportunidade e tanto para quem quer algo mais livre com boa estrutura (e o Bruno me mostrou o acervo deles, excelente. Nunca tinha visto um número sequer da revista Nosferatu. A finada revista espanhola tornou-se meu novo sonho de consumo). ------------------------------------------------------------------------------------ O serviço (tirado do release):
Como realizar a matrícula? O pagamento do curso será feito semestralmente, em parcelas, que poderão ser acertadas das seguintes formas: dinheiro, cartão de débito, cartão de crédito, boleto bancário ou cheque. Quem pagar à vista a quantia dos seis meses terá um desconto de 5% no valor total. As matrículas já estão abertas e os interessados podem realizá-la diretamente na recepção do INSPIRATORIUM ou garantir a vaga, pagando no site – www.inspiratorium.com.br –, via Pagseguro. FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE CINEMA :: INSPIRATORIUM De 5 de março de 2012 a 14 de dezembro de 2013 De segunda a sexta, das 19h às 22h Carga horária: 1200 horas (+ horas adicionais das atividades extras) Investimento Semestral = R$ 5.940,00 Pagamento pode ser realizado no site ou na recepção. Checar as possíveis formas de pagamento escrevendo para agenda@inspiratorium.com.br. • Pagamentos à vista com 5% de desconto Mais informações sobre o INSPIRATORIUM – espaço-escola de Cinema e Artes Cinema, literatura, pintura, fotografia, teatro, dança e demais artes, embora universos distintos, compartilham afinidades intrínsecas, mantendo uma conversa próxima ao longo dos tempos. Localizado na Vila Mariana, o espaço-escola INSPIRATORIUM oferece um ensino interdisciplinar com programas de estudos moldados pelas muitas vias possíveis de relação entre as artes em propostas de curta, média e longa duração. Sua transversalidade está pensada para atender profissionais, artistas, estudantes e entusiastas. As instalações foram concebidas de forma integrada a fim de promover reflexão, produção e divulgação de projetos artísticos. O conceito “portas abertas” permite que salas, paredes, portas, janelas, colunas e demais áreas sejam plataformas de exposições artísticas. INSPIRATORIUM – escola de Cinema e Artes Rua Pedro Morganti, 51, Vila Mariana. Telefones: (11) 2619-3111 / 7111 agenda@inspiratorium.com.br www.inspiratorium.com.br
Escrito por sérgio alpendre às 11h52
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L'Apollonide

Finalmente vi L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância, em uma cópia digital sofrível no Reserva Cultural. É um bom filme, bem filmado, com alguns momentos deslumbrantes de encenação aqui e ali (que mereciam projeção à altura), mas está longe de ser a obra-prima que alguns amigos disseram.
Fica bem evidente que Bonello fala também de nossa época, incluindo aí a inserção de um plano final tosco e oposto àquele de O Poder Vai Dançar, de Tim Robbins. No filme de Robbins, tudo se passa nos anos 30 (ou 20, não me lembro bem), e só no final vemos o belo plano da trupe teatral saindo nas ruas de hoje (o hoje de uns doze anos atrás). No filme de Bonello, as pistas se acumulam dentro da narrativa, seja na música pop, seja na tatuagem de uma das prostitutas, ou mesmo no linguajar delas. E no final tudo é escancarado e captado por uma câmera digital de quinta categoria. É também um comentário sobre o cinema. Antes buscava-se a limpidez visual, os cineastas queriam que o público visse as cenas da melhor forma possível, como testemunhas privilegiados. Hoje busca-se a sujeira, o testemunho escondido ou mal visto da realidade crua.
L'Apollonide passa também a impressão de que para Bonello os frequentadores de bordéis são doentes, e as prostitutas frustradas, e o clima pesado se impõe pela escolha dos momentos mais sórdidos - ou mais lúgubres - passados dentro da casa. A exceção é o piquenique que é mostrado bem no meio do filme, um respiro necessário para que o diretor voltasse a investir contra a exploração do corpo e da alma.
Apesar do tema, é um filme relativamente comportado, sem cenas fortes de sexo como as que haviam em O Pornógrafo. L'Apollonide acaba sendo menos excitante que um filme de Cecil B. De Mille dos anos 20 e 30.
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A Contracampo voltou, com novos editores e novos textos. A pauta principal da edição é sobre Paulo Cezar Saraceni, e a seção de críticas foi tirada. Segundo os editores, não há mais sentido em cobrir o circuito comercial. E têm toda a razão. Eu é que sou teimoso e ainda insisto em cobrir, aqui, no UOL e na Interlúdio. Mas sempre protestando contra o baixo nível geral das estreias (como tem ainda como piorar, melhor manter a grita, mesmo que seja inútil). Voltando à Contracampo, vamos torcer para que a revista reencontre seu rumo com a renovação. Foi onde me formei como crítico, e para onde olharei sempre com carinho. Leitura recomendada:
http://www.contracampo.com.br/index.htm
Escrito por sérgio alpendre às 15h05
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Sob a influência de Blue Oyster Cult

Algumas palavras sobre Tiradentes
- A cidade está pequena para o festival, o que já é perceptível desde 2010. Ou se encolhe a estrutura, passam menos longas e levam menos convidados, ou aquilo vai ficar cada vez mais insuportável nos fins de semana dominados por motoristas e adolescentes mal educados.
- Safado, delirante, doido, desconectado, descompensado, deslumbrado, doentio, maravilhoso. Todos esses adjetivos cabem, e são insuficientes, para descrever uma experiência única: a de ver pela primeira vez O Homem Que Não Dormia na Mostra de Tiradentes. Isto porque o filme é um estrondo direcionado para todos os lados, feito de forma livre, mas ao mesmo tempo preso às limitações narrativas que permitem sua força. Mas podemos dizer que O Homem Que Não Dormia é um filme arriscado? De certo modo, sim. Há nele uma série de desconexões que proporcionam nossa confusão mental, uma confusão que pode nos dar prazer, e normalmente dá, mas que colocam o filme sob uma capota de risco que a todo momento ameaça implodi-lo. - Gustavo Beck reclamou que há um oba oba da crítica em Tiradentes. Falou também em colônia de férias. Logo em Tiradentes, um dos festivais mais cansativos de se cobrir, com debates, três longas por dia e diversos curtas. Serve para vermos que alguns realizadores tem uma visão distorcida demais da realidade.
- Muito legal ter visto o último filme de Alberto Salvá no encerramento da Mostra. Na Carne e na Alma é ousado como nenhum filme jovem atual, e tem um roteiro muito bem construído em torno de um amor radical de um jovem de Niterói por uma patricinha da zona sul do Rio de Janeiro. São filmes como esse, O Gerente, A Erva do Rato e O Homem Que Não Dormia, todos de diretores veteranos, que revitalizam o cinema nacional. 
O Homem Que Não Dormia
Escrito por sérgio alpendre às 21h44
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15ª Mostra de Cinema de Tiradentes

A 15ª Mostra de Tiradentes começou com a exibição do irregular Billi Pig, novo longa de José Eduardo Belmonte com Selton Mello, Grazi Massafera e Milton Gonçalves no elenco. É uma operação curiosa a que Belmonte optou por fazer. Depois de construir narrativas nas quais é possível perceber certa estrutura, apesar da liberdade das produções, o diretor filma pela primeira vez com um orçamento maior, com a proposta de fazer uma comédia popular, e arrisca muito mais do que em seus filmes independentes. O tom é sempre delirante, e algumas gags são bem engraçadas. Pena que a falsa necessidade de desenvolver um fiapo de história tenha feito com que Belmonte se perdesse um pouco com o delírio e as possibilidades de humor, fazendo um filme frouxo, sobretudo em seu terço final. Seria melhor ter assumido seu lado Hellzapoppin, a comédia maluca dos anos 30 que os quarentões viam nas sessões da tarde de um passado distante. -------------------------------------------------------- Minha cobertura acontecerá principalmente no UOL. Mas aqui devo fazer os tradicionais posts com cotações. Além disso, eu e Heitor Augusto iremos escrever algo também para a Revista Interlúdio, provavelmente ainda durante o evento. Boa leitura.
Escrito por sérgio alpendre às 01h21
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Top 20: circuito comercial em 2011

Para a lista de melhores de 2011 resolvi ampliar um pouco o campo. Agora valem todos os filmes lançados no Brasil (mesmo que em uma única cidade) que tenham sido realizados de 2007 em diante. Resolvi ampliar para poder incluir o maravilhoso longa autobiográfico de Agnès Varda, e também porque nosso circuito comercial demora absurdamente para lançar filmes europeus ou independentes. Como sempre, não pretendo aqui fazer uma lista de melhores filmes que vi em 2011, como faz o Leandro Caraça. Prefiro optar por uma lista de filmes elegíveis fechada e em comum com outros cinéfilos. A lista perde em qualidade, mas acho que a brincadeira fica um pouco mais divertida. Além disso, não saberia dizer quais filmes foram vistos em janeiro ou fevereiro, e quais foram vistos em novembro ou dezembro (ou mesmo antes) do ano anterior.
RELANÇAMENTO DO ANO:
Violência e Paixão (Conversation Piece, 1974), de Luchino Visconti Burt Lancaster em estado de graça, defendendo sua solidão ameaçada. Uma obra-prima do mestre Visconti.
O CIRCUITO EM 2011 (contando estreias de todo o Brasil cuja data do primeiro lançamento não seja anterior a 2007)
1) Além da Vida (Hereafter, 2010), de Clint Eastwood Eastwood ensina como se cruzar várias histórias e lidar com o sobrenatural.
2) As Praias de Agnès (Les Plages D'Agnès, 2008), de Agnès Varda Uma cine-autobiografia tocante e bem humorada dessa grande cineasta francesa.
3) Singularidades de uma Rapariga Loira (2009), de Manoel de Oliveira Oliveira menor. O que já é suficiente para ser um dos melhores do ano.
4) Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010), de Abbas Kiarostami Um Kiarostami aparentemente atípico, lúdico e transformador.
5) A Pele Que Habito (La Piel que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar Renovação e amargura em um dos melhores filmes do diretor.
6) O Garoto da Bicicleta (Le Gamin au Vélo, 2011), de Jean-Pierre e Luc Dardenne Mais um filme que sugere renovação, desta vez rumo à simplicidade.
7) O Sequestro de um Herói (Rapt, 2009), de Lucas Belvaux Sóbrio e solene como um grande policial francês dos anos 70.
8) Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen Um delicioso divertimento por um diretor especialista em divertimentos.
9) Margin Call - O Dia Antes do Fim (Margin Call, 2011), de J.C. Chandor "Hoje está passando um filme de terror".
10) Desconhecido (Unknown, 2011), de Jaume Collet-Serra O diretor catalão faz o filme de ação do ano.
11) Riscado (2010), de Gustavo Pizzi A vontade artística e seus obstáculos. 12) Faça-me Feliz (Fais-moi Plaisir, 2008), de Emmanuel Mouret Depois de Horas, o francês entorta. 13) O Vencedor (The Fighter, 2010), de David O. Russel Foi o único filme que me fez ficar com vontade de ser boxeador. O que diz muito de suas qualidades. 14) Caminho para o Nada (Road to Nowhere, 2010), de Monte Hellman Um filme decepcionante de um grande diretor. 15) A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2011), de Werner Herzog 3D usado inteligentemente, o que é raro. 16) Trabalhar Cansa (2011), de Marco Dutra e Juliana Rojas Muito melhor que os curtas dos diretores, este longa sinaliza duas carreiras promissoras. 17) Capitão América: O Primeiro Vingador (C.A.: The First Avenger, 2011), de Joe Johnston Aventura à moda antiga, indo na contramão dos estúdios Marvel. 18) Namorados Para Sempre (Blue Valentine, 2010), de Derek Cianfrance O título dado no Brasil é o mais enganador dos últimos tempos. 19) Isto Não é um Filme (This is Not a Film, 2011), de Jafar Panahi É, sim. 20) Os Residentes (2010), de Tiago Mata Machado Um grande mérito: mostrar uma das melhores DRs do cinema brasileiro. Jabor perde.
Observações:
a) Se valessem só estreias paulistanas, quatro filmes seriam desclassificados (As Praias de Agnès, Caminho para o Nada, Faça-me Feliz e Caverna dos Sonhos Esquecidos). Em seus lugares, entrariam, nas últimas posições: Sem Saída, Estrada para Ythaca, Super 8 e Chantal Akerman de Cá. b) Comparada com a lista do ano passado, que pode ser lida aqui, a deste ano está bem mais fraca. Sinal claro de enfraquecimento do circuito. Ou seja, o que estava ruim, ficou ainda pior. c) Como a lista deste ano está mais fraca, é bem possível que algum filme que perdi no circuito pudesse entrar caso eu tivesse visto. Turnê, por exemplo. d) Na lista do filme B consta O Casamento a Três, um filme de 2009 do Jacques Doillon, diretor que geralmente faz filmes que me agradam bastante. Por acaso esse filme estrou mesmo em algum lugar? e) Do nono ao vigésimo lugar, todos ganharam a mesma nota em meu arquivo pessoal: 7,5.
Escrito por sérgio alpendre às 23h56
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Encerrando 2011 - Parte 4 (e uma dica para 2012)

A Guerra Está Declarada, de Valérie Donzelli --------------------------------------------------------- A lista dos 20 melhores filmes lançados comercialmente no Brasil será publicada na próxima segunda-feira. Enquanto isso, mais dois filmes foram vistos, passando a limpo parte do ano passado no circuito.
- Turnê, de Mathieu Amalric, até que vai bem como um sub-Cassavetes. A estreia de Amalric na direção lembra bastante uma das obras-primas de Cassavetes, A Morte de um Bookmaker Chinês. O ponto forte é o olhar para as artistas americanas de neoburlesco, que se encontram com um agente francês (Amalric, de bigode) para uma turnê em conjunto pela França. O uso da trilha sonora também merece destaque. - Doce Vingança, de Steven R.Monroe, é uma atualização de A Vingança de Jennifer (Meir Zarchi, 1978). Como o anterior era bem forte para a época, a atualização vai até o extremo do palatável para um público acostumado com os Jogos Mortais da vida. As mortes são inventivas como num desenho animado, e a moça violentada adquire traços de espírito maligno durante sua vingança. O filme explora a catarse do espectador. Este fica com tanta raiva dos estupradores que pode até se regozijar com as execuções. Não gosto, mas também não é o lixo que eu esperava.
Abrindo 2012: - A Guerra Está Declarada é um belo filme francês que chegou em janeiro ao nosso combalido circuito comercial. Foi dirigido e atuado por Valérie Donzelli, contracenando com o marido (juntos enfrentaram os mesmos problemas na vida real: filho com câncer, cartão de crédito estourado, harmonia enfraquecida, etc.). Tem um achado considerável: perceber que mesmo nos momentos mais tristes existe algo inusitado que pode nos fazer rir. A maneira como a diretora nos mostra isso é muito feliz. E alguns diálogos seriam proibidos no Brasil politicamente correto e bundão de hoje (nos EUA também, aliás).
Por mais que ultimamente a Cahiers du cinema esteja muito pouco confiável, desta vez eles acertaram (se bem que nessa mesma edição tem um mar de estrelas para Melancolia). É exagerado dar a cotação máxima (como Delorme e Tessé o fizeram), mas é um filme que vale ver. Mas é preciso ter muita paciência com o público do Reserva Cultural, que está cada vez mais nojento (do tipo que te olha feio porque você tem barba). Esse tipo de elite paulistana, que olha para todos com superioridade, poderia passar férias permanentes na Suiça.
Escrito por sérgio alpendre às 02h19
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Encerrando 2011 - Parte 3

Brasil: na trave! Dois filmes brasileiros que quase chegaram lá, a meu ver.
- Estamos Juntos (foto), de Toni Venturi, é outro drama que tem seus achados, principalmente pelo trabalho dos atores. Leandra Leal (que interpreta Carmem) já esteve melhor, mas ainda assim arrasa em algumas cenas, comprovando mais uma vez a boa atriz que é. Cauã Reymond parece crescer a cada dia como ator, com uma interpretação semelhante àquela de Falsa Loira, só que ainda mais segura. O amigo imaginário de Carmem (ou melhor: marido passivo e imaginário) é uma grande bobagem no filme. Serve apenas para deixar a personagem menos interessante. Venturi tem coisas interessantes em sua carreira. Costuma se dar melhor nos documentários, mas sempre há algo a se reter em suas ficções.
- Bróder, de Jeferson De, é daquele tipo de filme que começa tão bem que a gente fica torcendo para que não saia dos trilhos. Infelizmente, se não chega a sair, é atrapalhado por alguns obstáculos no caminho, quase todos relativos à tendência do personagem de Caio Blat de entrar em enrascadas. O ambiente familiar da comunidade é tão bem filmado (incluindo a maneira de lidar com um jovem que cresceu lá e fez sucesso como jogador de futebol no exterior) que era desnecessária essa subtrama pelos descaminhos do crime.
Escrito por sérgio alpendre às 20h46
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Encerrando 2011 - Parte 2

É a vez das comédias e dos europeus.
- Missão Madrinha de Casamento certamente não é a cocada toda que anunciaram aos quatro ventos. Só está acima da média das comédias americanas que estrearam no ano porque tal média foi bem baixa. Kristen Wiig tem sua grande chance sob uma produção de Apatow (ela já havia participado de Férias Frustradas de Verão e Ligeiramente Grávidos, mas nunca com tamanho destaque). É uma ótima atriz cômica, como já sabem os que ainda assistem ao Saturday Night Live. Mas o filme é longo, a direção de Paul Feig nem sempre segura o ritmo, e o elenco é bem desigual.
- Muito pior é Quero Matar Meu Chefe, que desde o início se revela uma bobagem sem tamanho com aqueles letreiros estúpidos anunciando os personagens incômodos e as narrações que parecem ter sido escritas por um garotinho de oito anos. Nem as participações de Jamie Foxx, Colin Farrell e Kevin Spacey ajudam a criar algum interesse pelo que acontece em cena. Uma nulidade, confirmando a incompetência de Seth Gordon (de Surpresas do Amor).
- Passando para os europeus, tive uma certa decepção com Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino, que andou figurando em algumas listas de melhores. Não que o filme italiano protagonizado por Tilda Swinton seja ruim. Tem uma direção estilizada, algo entre Lucrecia Martel e Marco Bellocchio. Mas fica a milhas desses dois, principalmente porque é monocórdico, insiste num mesmo tom, o da contenção, para que a explosão só aconteça no final. Entendo que é para ser assim, é sua proposta. A questão é que ficou entediante, principalmente porque esses burgueses do filme não me interessaram em momento algum. Logo, a explosão final também não me causou maior efeito. Filme médio, em meio tom, para pessoas de gosto médio, como tantos que são feitos atualmente na Europa.
- O Sequestro de um Herói (foto) tinha sido lamentavelmente esquecido por mim depois que o perdi em circuito. Quem me lembrou dele foi o João Gabriel da Contracampo. Na verdade, parece ter sido esquecido pelos cinéfilos em geral, apesar de ter sido elogiado (me conta a Mônica), quando exibido na Mostra SP de 2010. Lucas Belvaux é um diretor a ser seguido. Fez uma trilogia irregular em 2002, mas que tinha pelo menos um longa forte: Acordo Quebrado. Este novo é um filme de sequestro que lembra os policiais franceses dos anos 1970 (de Yvez Boisset ou Jacques Deray), como também alguns filmes japoneses, como Sequestro, de Takao Okawara ou Céu e Inferno, de Akira Kurosawa. Direção segura, excelente trabalho dos atores e roteiro engenhosamente construído. Nos dias atuais, difícil obter mais que isso.
Escrito por sérgio alpendre às 14h42
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Encerrando 2011 - Parte 1

Janeiro chega e mais uma vez vou atrás de alguns filmes que queria ter visto no cinema, mas não pude por algum motivo. O DVD salva.
- Capitão América - O Primeiro Vingador, não é apenas o melhor filme de Joe Johnston, mas um dos melhores filmes de ação dos últimos anos. Leandro Caraça sugere, neste texto para a Revista Interlúdio, que Johnston é um diretor injustiçado. Não vejo motivo para tanto, já que não gosto propriamente de nenhum de seus outros filmes. Mas é inegável sua competência de artesão (que Caraça comparou muito apropriadamente com Nathan Juran e Byron Haskin), pelo menos nesta deliciosa aventura da Marvel. Infelizmente não será de Johnston a direção do promissor Os Vingadores (que estreia em maio deste ano). Menos mal que o escalado tenha sido Joss Whedon, que fez o simpático Serenity e tem uma elogiadíssima carreira na televisão.
- Um outro filme de ação surpreendente visto agora em DVD é Sem Saída, de John Singleton. Perde-se um pouco com algumas reviravoltas (explicadas meio nas coxas), mas é eficiente como entretenimento e nada tedioso quando detém-se no ambiente familiar do começo.
- Mudando para as comédias, não tive a mesma surpresa. Sexo Sem Compromisso se confirmou como mais uma bobagem de Ivan Reitman (que até os anos 1980 ainda fazia coisas interessantes, além de ter produzido filmes de Cronenberg), e Natalie Portman prova mais uma vez, nesse filme, que perde em beleza e sensualidade para uma outra atriz bonita que tenha sido escalada como coadjuvante. A surra aqui não é tão grande quanto a que levou de Mila Kunis em Cisne Negro, mas se eu fosse o personagem do Ashton Kutcher, iria para cima da Greta Gerwig, não da Portman.
- Se Beber Não Case II não é o desastre que pintaram alguns, nem a porralouquice que pintaram outros. É uma continuação padrão, com algumas ideias turbinadas, outras requentadas. Como não acho o primeiro grande coisa, este aqui fica um pequeno degrau abaixo, apesar de algumas piadas realmente engraçadas.
- Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família é outra continuação que não se iguala ao primeiro da série. Para este terceiro episódio da batalha familiar entre o pobre e destrambelhado Gay Focker (Ben Stiller) e o ex-agente secreto Jack Byrnes (Robert De Niro), sai Jay Roach, entra Paul Weitz, sem que haja qualquer vantagem para a mini-franquia. A graça depende exclusivamente dos atores e da construção de seus personagens nos dois filmes anteriores, e por isso não há vexame aqui. Mas é difícil não notar que a série está descendo a ladeira.
Escrito por sérgio alpendre às 01h11
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Terra em transe, fechando 2011

Ao rever Terra em Transe, uma tristeza tomou conta de mim: é impossível um filme desses ser feito hoje, no mundo, e ainda mais no Brasil. Na verdade, é impossível filmar algo com 50% de sua coragem (a não ser na clandestinidade e de uma maneira muito tosca).
Hoje em dia parece haver espaço apenas para o misticismo, os afetos, o fim do mundo providencial ou para uma divagação chula disfarçada de profunda indagação sobre o sentido da vida, nunca para um esporro contra tudo e todos, contra os mitos e as verdades vendidas em baciada ("o povo é sábio", "o caminho está à esquerda", "um filme precisa ser impecável na técnica", "viva o Brasil", "viva a juventude").
Dane-se o sincronismo de som e imagem. Um esporro desses não precisa disso. A falta de sincro, aliás, é fundamental, assim como a montagem que permite o domínio do caos.
Terra em Transe sempre foi meu Glauber preferido por ser o mais caótico, o mais glauberiano de seus filmes. É sempre bom revê-lo, ainda que seja triste compará-lo com a produção atual.
Escrito por sérgio alpendre às 15h10
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TOP 10: Frank Capra

Resolvi entrar no espírito de natal (ainda que um pouco atrasado) e promover o retorno do TOP 10 com Capra, diretor que costuma reaparecer nesta época com seu indefectível A Felicidade Não Se Compra.
Como foi difícil hierarquizar meus três preferidos, optei por deixar em primeiro aquele que descobri por último (que tem uma direção de fotografia estupenda, de Joseph Walker, e atuação inesquecível de Barbara Stanwick), e em terceiro o que eu já conhecia bem antes de ser cinéfilo. O segundo, assim como vários outros do diretor, pude ver no cinema, em 35mm. Capra é frequentemente menosprezado por ser o diretor que representava o New Deal durante os anos difíceis da Grande Depressão. O filme mais emblemático dessa associação seria Loucura Americana, mas o enredo de A Felicidade Não Se Compra, seu filme mais famoso (que agora é lançado em Blu-ray), passa também pela época, e vários de seus longas se encaixam no espírito de ajuda e solidariedade buscado por Roosevelt na época. Era um diretor irregular. Quando acertava, fazia grandes filmes (como os oito primeiros da lista). Mas às vezes exagerava em seu retrato do bom americano (como em Adorável Vagabundo, que ainda assim é melhor do que querem seus detratores).
1) O Último Chá do General Yen (The Bitter Tea of General Yen, 1933)
2) Do Mundo Nada Se Leva (You Can't Take It With You, 1938) 3) A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life, 1946)
4) Esse Mundo é um Hospício (Arsenic and Old Lace, 1944)
5) Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934)
6) Loura e Sedutora (Platinum Blonde, 1931) 7) A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939)
8) Loucura Americana (American Madness, 1932)
9) O Galante Mr. Deeds (Mr. Deeds Goes to Town, 1936)
10) A Mulher Proibida (Forbidden, 1932) ------------------------------------------------------------
OBS.: Preciso rever alguns filmes do começo dos anos 1930 (provavelmente sua fase mais interessante) e conhecer os que realizou antes de 1929.
Escrito por sérgio alpendre às 01h31
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O menino e o cavalo

Eu, que sempre desconfio da tecnologia, sei reconhecer suas benesses.
Cena: mãe e pai ficam assustados com um ataque de bandoleiros numa rua pacata e tentam atravessá-la, sabe-se lá para onde, com o filho pequeno. A cena é vista de longe, enquanto os cavalos se aproximam de onde a câmera está. A profundidade de campo auxilia nossa visão. No fundo do quadro, vemos nitidamente, sem cortes, a mesma criança sendo atrolelada violentamente por um cavalo em alta velocidade. A imagem é chocante e me deixou abalado por alguns minutos.
Pergunta: em que filme lançado recentemente em DVD no Brasil tem essa cena?
Escrito por sérgio alpendre às 00h48
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As Canções

Não é a primeira vez que a estratégia usada por Eduardo Coutinho me desagrada. Todos os seus filmes têm momentos que me parecem terrivelmente apelativos, com truques baixos para fisgar o espectador e principalmente os críticos e teóricos. Mas seu cinema nunca havia me incomodado tanto a ponto de renegar os filmes num todo. Chegou perto com Babilônia 2000, mas o desagrado existia em trechos específicos, quando os truques se mostravam mais evidentes ou menos trabalhados. O desagrado completo se concretizou mesmo somente com As Canções. Em minha crítica para a Revista Interlúdio, escrevi justamente que o cinema de Coutinho é baseado em truques. Tudo bem, eu mesmo já citei o grande Otto Preminger em texto, dizendo que o cinema de Hitchcock é todo baseado em truques. Preminger admirava Hitch, mas o diminuía qualificando-o como um truqueiro talentoso. Coutinho em muitos momentos é um truqueiro talentoso. Mas há uma diferença brutal entre os dois diretores, além das diferenças óbvias. Coutinho usa o mesmo pequeno expediente de truques em todos os filmes, Hitchcock usava uma gama imensa e variada deles, e seus truques não se repetiam em todos os filmes. Havia ousadia, experimentação, uma vontade de ver até onde ele podia manipular o espectador. Havia, acima de tudo, uma inteligente variação quando os truques eram os mesmos. Coutinho não arrisca. Trabalha sempre em solo seguro. Nada de errado com isso, a priori. Mas quando não há nada mais que truques, a coisa desanda.
O maior problema de Coutinho, a meu ver, é ter fãs que acreditam piamente na ideia de autor, que vão ao cinema determinados a gostar de seus filmes e relevar qualquer problema encontrado, por maior que seja. Ignoram o mau uso de procedimentos que normalmente, em filmes de pobres mortais, seriam determinantes para uma recusa. Chamei esses fãs de míopes, reconhecendo a possibilidade de que eu mesmo seja míope em relação a alguns outros autores (Scorsese, Eastwood ou Cronenberg, por exemplo). Mesmo assim, não me surpreenderia se alguns leitores viessem com mi-mi-mi, no facebook ou nos comentários deste blog. Coutinho, vaidoso como boa parte da classe artística brasileira, estaria mal acostumado graças a essa babação de ovo inconsequente. A falta de críticas a seus filmes parece ter diminuído seu ímpeto artístico. Já que qualquer coisa que fizer será agraciado com os louros de sua grife, para que se esforçar?
Moscou sinalizava uma vontade de transgredir seus próprios parâmetros. Um Dia na Vida (que eu não vi) me parece fora de consideração em sua trajetória por ser uma brincadeira. Como não vi, não vou dizer que é preguiçoso. Em As Canções, tudo que ele faz é usar os mesmos truques batidos com que ganhou prestígio, além de apelar para o sentimentalismo barato. Seus fãs podem até merecer esse tipo de repetição. Mas para a história do cinema é um filme irrelevante.
Escrito por sérgio alpendre às 16h15
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Gosto... não gosto (o retorno)

Eis a volta da brincadeira buñueliana do gosto/não gosto. Não importa a repetição de coisas. O espírito desse tipo de posts permite que uma preferência seja colocada novamente, ou mesmo uma mudança: coisas que já gostei, e agora não gosto mais, e vice-versa.
- Adoro dicionários, enciclopédias e mapas. Um dicionário enciclopédico que tenha muitos mapas, então, é um sonho de consumo. Sempre fico tentado a comprar alguma coleção da Mirador quando vejo em algum sebo. Não compro porque é sempre muito cara. Mas se alguém um dia quiser me presentear... Um amigo de infância tinha uma desas coleções, e eu podia jurar que sabia todos os verbetes de cor (leiam "cór", por favor, já que não estou falando de cores). Obviamente estava enganado, mas sempre que eu o visitava ficava horas folheando algum fascículo, para desespero dele, que devia querer jogar futebol na rua ou coisa assim. Se bem que eu não recusava convite algum para um futebol de rua nessa época. Em eventos como a festa do livro, que começou hoje na USP, a vontade é de sair com todos os dicionários que encontrar, mesmo os mais estapafúrdios. Felizmente para meu bolso, consigo conter esse impulso.
- Falando em festa do livro, é impressionante como livro no Brasil é caro. Não curto isso. A Cosac & Naify, por sinal, vende os seus pela metade do preço, e essa metade acaba parecendo preço cheio, de tão caros que são seus livros. Sabemos que o custo de impressão no Brasil é criminosamente alto. Mas editoras como a Cosac abusam de nossa paciência cobrando mais caro do que as versões importadas dos livros de seu catálogo.
- Detesto com todas as forças a burocracia e os burocratas. A burocracia é um câncer, e os que a mantém são parasitas maléficos que emperram o país e causam hipertensão nas pessoas de bom senso.
- Adoro os extras da Criterion. Um DVD dessa distribuidora, quando recheado de extras, vale o alto preço que pedem. A Versátil é a única distribuidora brasileira que se esforça nesse sentido. Mas ainda assim fica muito longe da excelência das edições da Criterion. Recentemente revi o Dillinger Está Morto que eles lançaram. Tem extras fantásticos: entrevista com Michel Piccoli, entrevista com Adriano Aprá (cujo livro sobre o Rossellini televisivo é uma das melhores coisas que li nos últimos tempos), mesa redonda Le Cercle du Minuit, com Bertolucci, Rosi e Aldo Tassone. O felizardo que sentir vontade de comprar pode seguir este link: http://www.criterion.com/films/21641-dillinger-is-dead.
- Gosto de Margin Call, esse filme surpreendentemente correto e elegante que entrou em cartaz recentemente em São Paulo. Gosto sobretudo de um elenco bem escolhido, com um Jeremy Irons bonachão interpretando justamente um presidente de empresa bonachão. Esse J.C. Chandor é esperto. Escrevi sobre o filme para a Revista Interlúdio. O link está aqui: http://www.revistainterludio.com.br/?p=1584.
- Adoro The Smiths e a voz única de Morrissey. Lembro bem da estranheza que causou o disco The Queen is Dead quando foi lançado no Brasil e invadiu as danceterias. Era uma época feliz, em que chegávamos com um vinil em casa, loucos para escutá-lo, e às vezes furá-lo de tanto ouvir. Hoje, a um só clique, temos quase todas as músicas algum dia compostas. Tornou-se fácil demais escutar as coisas. Tendemos a subestimar o poder da música. Há os que a desvalorizam: aqueles que escutam música na rua, obviamente tendo as minúcias encobertas pelos altos decibéis desta cidade (e de qualquer outra com mais de 500 mil habitantes). E aí sou obrigado a homenagear novamente Nosso Senhor Buñuel, que disse mais ou menos assim em sua deliciosa autobiografia: "Para alcançar toda a beleza, três coisas me parecem fundamentais: esperança, luta e conquista".
Escrito por sérgio alpendre às 01h05
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Cinema Mundo, Taxi Driver e outras coisas de montão

- O Cinema Mundo está fazendo da cidade de Itu um marco do cinema autoral. O Gerente (Paulo Cezar Saraceni), Tamboro (Sérgio Bernardes), Djalioh (Ricardo Miranda), Trabalho e Desertos (ambos de Luiz Rosemberg Filho), (Joel Yamagi e Jader Gudin). Uma seleção que dispensa comentários. E ainda foram exibidos Morada (Joana Oliveira), Os Residentes (Tiago Mata Machado), Mãe e Filha (Petrus Cariry), Post Morten (Pablo Larrain) e Garcia (José Luis Rugeles). Para quem mora em São Paulo ou nas imediações, vale a pena conhecer o festival. Programem-se para o ano que vem. O clima é de puro cinema, de resistência, de liberdade, de vôos arriscados e belos. Sou suspeito, obviamente, já que me tornei amigo do pessoal todo que faz o festival, Renata Saraceni (idealizadora) e Antonio Pacheco como os incansáveis capitães do barco. Mas me parece inegável que o Cinema Mundo de Itu é parada obrigatória.
- Sócrates se foi. Comento só agora, mas a dor está comigo há dias. Uma fineza em campo (literalmente). Como a Globo só mostrava os jogos do Corinthians para São Paulo, a maior parte dos brasileiros só conhece o que ele fez na seleção, o que já é muito acima da média, mas é apenas a ponta do iceberg do que ele era capaz. Foi um dos maiores jogadores que eu vi jogar, e o mais elegante de todos.
- Corinthians campeão. Heitor, corintiano como eu, tem razão. Não é um time que dá gosto de ver jogar. Dá raiva em muitos momentos, pois parece que não há a menor vontade de vencer. Mas me surpreende o ódio que muitos demonstraram nas redes sociais. Nunca vi isso. Acho que nem com camisa de força isso se resolve.
- Reouvindo algumas pérolas do Zappa, da melhor safra possível, com o gênio George Duke na banda. O que esses feras fizeram em Over-nite Sensation, Apostrophe e One Size Fits All não está no gibi.
- O Cangaceiro está saindo em DVD pela Versátil com extras imperdíveis. Dois curtas sensacionais de Lima Barreto: Painel, sobre o famoso "Tiradentes" de Portinari, e Santuario, sobre o conjunto de estátuas "Doze Profetas", de Aleijadinho. Tem ainda um média um tanto cansativo sobre o IV Centenário de São Paulo, e um documentário de quase quatro horas sobre um montão de coisas (Lima Barreto, O Cangaceiro, a Vera Cruz, o cinema da época, atores, filmar obras de arte...). Todos os clássicos do cinema deviam ter lançamentos assim.  - Taxi Driver, em película novinha, no Cine Olido. Quem tem problemas com a região que os supere. Vale a pena ir ao centro de São Paulo para ver o belíssimo filme de Scorsese (sessões às 19h30, até quinta-feira, 15/12). Não existe mula sem cabeça por lá. Nem saci-pererê. As ruas são asfaltadas, existem calçadas, bares, boa comida, sebos cheios de raridades (para quem chegar antes). Fede um pouquinho dependendo da rua. Mas nada que qualquer ônibus da cidade não tenha apresentado em algum momento.
Saiba mais sobre o filme e a reestreia no Olido aqui: http://ursodelata.blogspot.com/2011/12/taxi-driver-classico-de-scorsese-com-de.html
Escrito por sérgio alpendre às 12h19
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Revista Interlúdio

www.revistainterludio.com.br Com algumas coisas ainda para acertar, finalmente entra no ar a revista que eu chamo de Paisà fase 2. Como homenageado da vez no dossiê, Alfred Hitchcock, com artigos e filmografia comentada. Espero que gostem. ------------------------------------------------------------------------------------------------ Eu e Um Corpo que Cai Visto pela primeira vez há quase trinta anos, numa sessão noturna na TV, Um Corpo que Cai me pareceu, no ápice da adolescência, o filme mais assustador que eu já tinha visto. A imagem da freira aparecendo do escuro e assustando a personagem de Kim Novak mexeu com meus nervos, perturbou-me por meses a fio. Não existia DVD, obviamente, naquela época, e mesmo os aparelhos de videocassete eram um luxo a que só as famílias mais abastadas era permitido. Como rever tal filme? Como ter novamente essa experiência inédita que eu tive (como também foram experiências inéditas e marcantes as primeiras vezes que vi A Ilha no Topo do Mundo, Um Convidado Bem Trapalhão, Errado pra Cachorro e outros de Jerry Lewis). Hitchcock entrava nesse panteão de diretores que povoavam meu coração adolescente. Anos depois, revi Um Corpo que Cai, por uma velha fita VHS da CIC. O impacto se manteve, embora de forma muito mais racional. Admirava a construção, as cores, o desenvolvimento da narrativa e os atores, mesmo sem saber nada de cinema. Nos anos 1990, finalmente o filme foi exibido no cinema. Lembro bem: sala 2 do Espaço Unibanco, da Augusta. Novo impacto, desta vez como cinéfilo. Era como se eu estivesse vendo o filme pela primeira vez. Mas desta vez eu conhecia outros trabalhos de James Stewart, com Hitchcock e outros diretores. Já o admirava dos dois belos filmes do Frank Capra, Do Mundo Nada se Leva e A Felicidade Não Se Compra. Já era um dos meus atores preferidos. A relação com Kim Novak é que não mudou. Continuou fantasiosa, levemente erótica, voyeurística, como era na adolescência. Revi mais uma vez em película, se bobear na mesma semana distante de 1992. Ou seria 1993? Ou 1995? O que importa é que por algum infortúnio inexplicável do acaso, nunca mais o revi. Nem para escrever este texto, que acabou sendo mais sobre minha relação com o filme do que sobre o filme em si.
Escrito por sérgio alpendre às 01h28
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As Pontes de Madison

Acho que As Pontes de Madison é o único filme com diversos finais que se sustenta como uma obra-prima. Poderia terminar com a chegada da família de Francesca (Meryl Streep) e com a subsequente olhada dela para a estrada, por onde tinha ido seu amante, Robert Kincaid (Clint Eastwood). Poderia terminado pouco depois, assim que ela não encontra força para girar a maçaneta do carro que seu marido dirigia antes da saída da picape da frente, pilotada por Robert. Ou quando ela pede seu minuto para chorar num canto da casa, isolada pela indiferença de sua família. Poderia, ainda, terminar após vermos o flashback de Francesca, já envelhecida e viúva, abrindo a caixa que chegou de Robert. Mas na verdade não poderia ter terminado de outra maneira que não fosse com as cinzas de Francesca sendo levadas pelo vento, nos arredores da ponte que simbolizava aquele amor belo e impossível.
Meryl Streep é uma atriz fantástica. Logo que aparece, acreditamos ser uma dona de casa já assexuada pela formação social e pelo casamento duradouro. Minutos depois, logo que Robert chega, pedindo informações e lhe trazendo um mundo novo, ela se torna repentinamente desejável.
Lembro que a variação no sotaque italiano de Streep incomodou alguns críticos na época. Por que? É natural que a personagem consiga disfarçar seu sotaque quando acaba de conhecer um estranho, e mais natural ainda que ela deixe de se policiar depois de um tempo.
É possível encontrar defeitos em As Pontes de Madison, assim como é possível encontrá-los em qualquer outro filme. O que é difícil é não se emocionar com a sensibilidade desse filme sem igual.
Escrito por sérgio alpendre às 23h19
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Dois filmes brasileiros

Foi a primeira e única experiência dentro da segunda-feira especial que o Cinemark dedica ao cinema brasileiro (sempre a primeira segunda de novembro). Dois filmes vistos, O Palhaço, de Selton Mello, com imagem ótima e som horroroso, e Capitães de Areia, de Cecília Amado, com imagem e som passáveis.
As duas mulheres que sentaram ao meu lado para ver o filme de Selton Mello foram atacadas com gás hilariante na porta do cinema, pois riam de tudo, até mesmo das cenas mais tristes. Se bobear, os neurônios que sobraram nas cabeças delas foram engolidos junto com as últimas pipocas de seus sacos barulhentos. Um horror. Mas o filme é bom. Não é a maravilha que pintaram, mas é algo digno nestes dias tenebrosos. Como eu já disse aqui, o cinema mais comercial brasileiro até que se vira bem, faz coisas minimamente decentes. Do cinema autoral, tirando um ou outro jovem (Petrus Cariry, Tiago Mata Machado, os Pretti e Parente talvez) o que vale mesmo é dos veteranos (Saraceni e Bressane na dianteira).
Sobre Capitães de Areia vou me abster de comentar. Nem o filme, nem Jorge Amado, nem o cinema brasileiro, apesar de tudo, merecem tamanha indigência. A impressão que me deu é que a diretora viu muito mais horas de maus programas televisivos (ou de comerciais para a TV) do que de cinema. Mas eu prometi não comentar, então fico por aqui.
Escrito por sérgio alpendre às 23h12
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