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Diretores

- Fritz Lang. Tentei fazer um Top 10 ou 20 com os filmes do mestre, mas não consegui. Sinto não atender ao pedido de um leitor. Precisaria ter revisto mais filmes. Revi recentemente Gardênia Azul, por exemplo, e o filme cresceu assustadoramente, tornando-se uma obra-prima (assim como os dois outros do que Simsolo chamou de "Trilogia das Mídias": No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma). Além desses três, posso dizer que são imperdíveis pelo menos uns 15 mais, com destaque para os quatro Mabuse, Os NibelungosMulher na LuaMFúriaVive-se Uma Só VezOs ConquistadoresOs Carrascos Também Morrem, O Segredo da Porta Fechada, Os Corruptos e os dois indianos. O fato é: Lang é o tipo de diretor que se deve conhecer a fundo, ver e ler tudo que se puder sobre ele, rever os filmes sempre. 

- Woody Allen. Revi trechos de Para Roma com Amor. Claro que é um filme mais bobo dele e tal. Sua encenação é menos cuidada que em outros filmes recentes (como Sonho de Cassandra e Vicky Cristina Barcelona, os mais fortes dele neste século). Mas sempre há algo a se reter num filme dele. Sempre há cenas que me levam a rir. Raramente seus filmes me incomodam. Neste, mais uma vez, a presença do Allen ator é o maior destaque.

- Cecil B. De Mille. Gênio, diretor da precisão. Tomemos Sansão e Dalila, um dos mais subestimados do diretor. Cada corte surge de uma necessidade dramática. Os movimentos de câmera são muitos, sempre elegantes e igualmente necessários para o melhor entendimento de algum dilema ou alguma reação. Melodia do olhar. O que se disse de Nicholas Ray vale para De Mille, o diretor que captou olhares voluptuosos de Hedy Lamarr e olhares dissimulados de Angela Lansbury. A cada revisão eu chego perto da conclusão de que De Mille, pelo menos no cinema sonoro, só fez obras-primas.

- Leon Hirszman. Não precisa mais de 20 minutos de A Falecida, primeiro longa do diretor e de Fernanda Montenegro (já soberana), para ver ali uma excelência de mise en scène. Semelhante a De Mille na precisão, se é que se pode comparar cineastas tão distantes, Hirszman nos apresenta, como um mestre, a situação social e o ambiente que cerca os personagens. A Falecida apresenta uma faceta diferente do cinema novo, assim como, no mesmo ano, O Desafio, de Paulo Cezar Saraceni, e São Paulo S, A., de Luís Sérgio Person. Lembrando ainda de A Hora e a Vez de Augusto Matraga para reiterar que 1965 foi um ano especialíssimo para o cinema brasileiro.


Escrito por sérgio alpendre às 03h08
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Loucura

- Revisão de A Gardênia Azul, de Fritz Lang. Nunca considerei um de seus melhores filmes, mas mudei de opinião. Richard Conte e Anne Baxter com uma química incrível, no primeiro filme do que Noel Simsolo chamou de "tríptico no qual a mídia tem um lugar importante ao lado de assassinos, policiais, inocentes e arrivistas". Completam o tríptico: No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma. Três obras-primas de um dos maiores artistas do século 20.

- O melindre continua em pauta. Agora foi Roger, do Ultraje a Rigor, que exagerou no mimimi contra Marcelo Rubens Paiva. Este, a não ser que eu tenha perdido algo, não disse nada de grosseiro a respeito de Roger, que parece ter perdido vários parafusos trabalhando com Gentile e reagiu desproporcionalmente, de maneira doentia.

- Acabo de saber de três derrotas de times campeões brasileiros, da série A (embora um deles, no campo, caiu para a série B), para times da divisão inferior (um deles na zona de rebaixamento). Não acompanho mais futebol, não vejo mais jogos brasileiros (não sou masoquista), mas gosto de saber quando acontece coisa assim.

- As mortes de 2014 eu não vou comentar. São muitas, o que talvez seja inédito, e é muito triste e trágico. Mas prefiro superar em silêncio.


Escrito por sérgio alpendre às 00h20
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Leitores adultos

Cinéfilos e jornalistas reclamam de um título de resenha da Folha que diz: "Quem tem neurônio não vai gostar de 'Vestido para Casar'". Teria sido um título agressivo aos leitores que podem gostar do filme.

Não li a crítica porque não vi o filme, e todos que me acompanham mais ou menos sabem que há tempos considero o panorama crítico no Brasil e no exterior deplorável, no qual textos bons são exceção, e estão cada vez mais raros. E que há uma falência do espírito crítico e uma terrível falta de tempo para quem não vive de brisa, tempo que deveria ser usado para burilar textos e estudar mais, caso o trabalho intelectual fosse minimamente valorizado.

Mas que diabos de mimimi é esse? Título agressivo por quê? Queremos leitores adultos ou um bando de crianças que correm para seus papais quando contrariados? Leitores adultos dão no máximo risada com esse título. Eu mesmo já fui xingado indiretamente por críticas assim agressivas contra filmes que defendi. Vou chorar? Claro que não. Posso repensar, debater, porque essa história de "gosto não se discute" é uma bobagem.

Depois de ler as reclamações dos colegas, fui buscar na estante o livro sensacional que Noël Simsolo escreveu sobre Fritz Lang nos anos 80. Neste diamante da escrita cinematográfica, um de meus livros preferidos, o escriba xinga de imbecis os críticos alemães que torceram o nariz para Lang nos anos 20, e lembra da estocada que Jean-Louis Comolli, num texto de 1963, dá em um monte de críticos (incluindo o falecido André Bazin, que anos antes havia detonado No Silêncio de uma Cidade e Suplício de uma Alma), quando afirma que a obra de Lang "é um desafio aos imbecis: eles tombam".

Esse é um dos problemas da crítica atual: o medo de ser franco e de tratar o leitor como adulto (Paulo Francis sempre dizia: "não ofendo os leitores, eu apenas os trato como adultos").

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P.S. Sempre é bom lembrar o excelente texto de Gérard Legrand a respeito de Mizoguchi (que, com Lang, era o preferido de Simsolo na época do livro), cujo início é reproduzido aqui:



Escrito por sérgio alpendre às 02h06
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Karel Zeman

O Barão Fanfarrão (Checoslováquia, 1962)



Escrito por sérgio alpendre às 13h35
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Jacques Aumont

Com a releitura de Moderno?, me reconcilio com Jacques Aumont. Claro, instigante, nada prolixo e feliz no trabalho com as referências. Tirando o velho equívoco de achar que o cinema dos anos 30 era um atraso estético (equívoco lamentável, por sinal, e bem repetido por aí), ele acerta bastante. É provavelmente seu melhor livro, junto com O Cinema e a Encenação. Com todos os outros livros dele fico dividido (todos que eu li, pelo menos). Essa divisão acontece dentro das obras. Ou me interesso pelo trecho lido, chegando até a admirar algumas sacadas, ou acho um porre. Acontece com A Imagem e O Olhar Imaginário, por exemplo, e, com a balança um pouco mais favorável, também no caso de Teoria dos Cineastas. Vale dizer ainda que Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, editado com Michel Marie, é um ótimo livro para consultas. E vários de seus textos antigos para a Cahiers du Cinéma são muito bons. Noves fora, descontando chatices e bobagens aqui e ali, vale a pena ler Aumont. Desde que seja depois de Douchet, Lourcelles, Wood, Simsolo, Astruc, Rohmer, Greenberg, Argan, Mourlet, Bazin...



Escrito por sérgio alpendre às 00h04
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Sam Peckinpah

Após a revisão de todos os filmes de Sam Peckinpah para o curso que ministrei no Cinesesc, resolvi fazer este ranking em homenagem a esse grande diretor (no lugar do habitual top 10 porque ele tem apenas 14 filmes para cinema). 

Nesta sexta-feira, aliás, vi a cópia censurada de Pat Garrett & Billy the Kid em 35mm. O filme permanece grande mesmo com três das quatro melhores sequências mutiladas. Principalmente porque a relação de admiração entre eles persiste, e o velório final também. 

As três sequências mutiladas a que me refiro são: a) a do início, com planos da emboscada a Pat Garrett em 1909 (inexistentes na cópia vista em película) se misturando com os de Billy e seus comparsas atirando nos galos enterrados; b) a tocante conversa de Pat Garrett com sua esposa, em que esta reclama que ele não é mais o mesmo após ser nomeado xerife; c) Pat com as prostitutas (cortada quase que totalmente na versão da época). 

Na versão que tem em DVD, o filme fica imbatível em primeiro lugar no Top. Na versão exibida na mostra, diria que fica em terceiro.

Gosto de todos os filmes de Peckinpah. Nem tanto de Assassinos de Elite e Cruz de Ferro, mas adoro o injustiçado Comboio, mal visto principalmente por ser o filme que mais fugiu ao seu controle. 

1) Pat Garrett & Billy the Kid (1973)

2) Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (Bring me the Head of A.G., 1974)

3) Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969)

4) Juramento de Vingança (Major Dundee, 1965)

5) Pistoleiros do Entardecer (Ride in High Country, 1962)

6) A Morte Não Manda Recado (The Ballad of Cable Hogue, 1970)

7) Os Implacáveis (The Getaway, 1972)

8) O Casal Osterman (The Osterman Weekend, 1983)

9) Dez Segundos de Perigo (Junior Bonner, 1972)

10) Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971)

11) Comboio (Convoy, 1978)

12) O Homem Que Eu Devia Odiar (The Deadly Companions, 1961)

13) Cruz de Ferro (Cross of Iron, 1977)

14) Assassinos de Elite (The Killer Elite, 1975)


Escrito por sérgio alpendre às 03h10
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Top 10 Ermanno Olmi

Curiosamente, não lembro ao certo como descobri o cinema de Ermanno Olmi. Das duas uma: ou foi numa exibição de A Árvore dos Tamancos na TV aberta, ou foi no Belas Artes (sala Mário de Andrade) vendo A Lenda do Santo Beberrão. De todo modo, foi entre 1990 e 1991. 

Não era o tipo de cinema que eu mais admirava na época (era mais dos clássicos americanos no início da cinefilia), assim como não era ainda um grande admirador de Rossellini ou Godard (mas já adorava Buñuel). 

Mais tarde descobri, de Olmi, O Posto e Os Noivos, e virei para sempre um entusiasta da maneira como o cineasta, camponês bergamasco autêntico, constrói seu cinema, partindo de Rossellini para uma visão de mundo bem peculiar (algo que todo grande artista tem obrigatoriamente).

1) A Árvore dos Tamancos (L'Albero Degli Zoccoli, 1978)

2) O Posto (Il Posto, 1961)

3) La Cotta (1967)

4) Os Noivos (I Fidanzati, 1962)

5) O Mestre das Armas (Il Mestiere delle Armi, 2001)

6) O Tempo Parou (Il Tempo si è Fermato, 1959)

7) Camminacammina (1983)

8) E Venne un Uomo (1965)

9) A Lenda do Santo Beberrão (La Leggenda del Santo Bevitore, 1988)

10) Cantando Dietro i Paraventi (2003)

Bateram na trave: Longa Vida à Senhora (1987), A Lenda do Bosque Velho (1993) e o curta La Mia Valle (1955).

Ficaram de fora filmes de que gosto bastante, como Un Certo Giorno (1969), I Recuperanti (1970) e La Circostanza (1973).


Escrito por sérgio alpendre às 22h02
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ESPN, mostras e Eastwood

1) Copa do Mundo 2014. Jogos realmente sensacionais, pela emoção. Sempre disputados e muito corridos, apesar do calor na maior parte das sedes. O capítulo negativo vai para a ESPN Brasil, que faz sua pior cobertura desde que o canal existe. A ideia de congelar PVC, Mauro Cesar Pereira e João Carlos Albuquerque (o simpático canalha), os três melhores e mais carismáticos da emissora, foi de uma incrível estupidez. Os dois primeiros como setoristas de seleções favoritas, o que é um desperdício completo de grande matéria-prima para análise. O canalha está sumido, quase não aparece, e quando aparece é na hora do almoço, nunca ou raramente no horário nobre. Lamentável (a não ser que ele tenha pedido um descanso, o que acho difícil). Aliás, desde que a direção passou do Trajano para o Palomino tenho me irritado frequentemente com a emissora.

2) A Copa em outras emissoras, por outro lado, é impossível de se ver. O que dá certa pena. Se a ESPN, que está cada vez pior, ainda é a melhor, imaginem como estão as outras.

3) Julho está fenomenal no circuito alternativo de cinema. Ainda rola a mostra Ermanno Olmi no CCSP (no próximo post, um Top 10 do diretor). Logo mais, Fritz Lang e Sam Peckinpah, com filmografias inteiras no CCBB e Cinesesc, respectivamente. 

4) Belo filme o de Clint Eastwood. E estreou muito mal (ao menos em SP), com poucos horários e em cinemas mais periféricos, e ainda por cima durante a Copa. A recepção que teve Jersey Boys me lembrou a de Menina de Ouro, com os fiscais (como chamou Inácio Araujo à época) reclamando de coisas bobas e deixando de ver o que o filme tem de fundamental: é mais um capítulo na revisão da História dos EUA por um de seus melhores diretores, e essa revisão se forma, desta vez, pela música pop, e pela maneira como ela atinge a sociedade.


Escrito por sérgio alpendre às 15h06
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Ermanno Olmi

Num depoimento de 2000 tirado do catálogo Ermanno Olmi - Uma excêntrica normalidade, publicado pela Cinemateca Portuguesa:

"(...) sonho com um público arrependimento dos intelectuais, até agora coniventes com uma dissolução cultural que tem como únicos pontos de referência a espetacularização e as audiências. Também o cidadão, com o seu telecomando, tem a sua quota de culpa. Mas a grande traição provém, exatamente, da casta dos intelectuais arregimentados num covil imoral. E nessa casta incluo não só os que trabalham nas editoras e nos jornais, mas também aqueles que tomam decisões administrativas ou subscrevem regulamentos insensatos. Não pretendo penitências mas um simples anúncio feito de boa vontade: percebemos que podemos mudar."



Escrito por sérgio alpendre às 14h06
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Os 100 mais belos filmes franceses segundo les inrockuptibles

O excesso de trabalho pré-Copa e uma viagem durante a Copa me afastaram do blog. Isso não se faz. De volta, portanto, a este espaço que mantenho desde 2004 (está prestes a completar 10 anos).

Confesso que tinha me passado despercebida a lista que a Inrockuptibles fez em março, com os 100 melhores filmes franceses de todos os tempos. Eis a lista:


Algumas curiosidades da lista (que não é tão ruim quanto essas listas costumam ser):

1) A Mãe e a Puta (foto), de Jean Eustache, é um primeiro colocado pouco óbvio (e, aliás, existem várias escolhas pouco óbvias na lista). Claro que era de se esperar na lista, mas em primeiro? Quando vi, achei bacana, pois o filme de fato é uma obra-prima. Depois fiquei pensando que deveria ter sido algum do Renoir ou do Vigo. O que fez com que o filme de Eustache fosse tão bem votado? Terá sido a ideia estúpida de que o cinema francês começou de fato com a Nouvelle Vague? 

2) Dois filmes de Jacques Demy estão nos dez primeiros lugares. E são os dois mais óbvios: Le Parapluies de Cherbourg e Les Demoiselles de Rochefort. Legal que o maravilhoso Peau D'Anne marcou presença, em 83º.

3) Na lista pessoal do Kiyoshi Kurosawa, vi a confirmação de algo que sempre me intrigou. Quando revi Charisma (Karisuma), lembrei bastante de dois filmes de Godard: Weekend e Detetive. Não entendia por que esse segundo, normalmente tido como um filme menor do diretor (para mim, o único que não desce, tirando alguns da fase Dziga Vertov), me viria à mente. Pois foi um dos dez votados por Kiyoshi. Talvez isso explique algo que eu intuía, mas não conseguia explicar racionalmente.

4) Catherine Deneuve é a atriz com mais filmes lembrados na lista. Empatada com Michel Piccoli (9 filmes cada). Em entrevista, ela diz que não gostou muito de trabalhar com Luis Buñuel, e que este queria mais cenas de nudez em A Bela da Tarde, no que ela recusou. Depois, lembremos, ela se recusou também a trabalhar em Belle Toujours, apesar de admirar e amar Manoel de Oliveira.

5) O diretor com mais filmes na lista é Jean-Luc Godard, que emplacou sete títulos. Depois vem Jean Renoir, François Truffaut e Robert Bresson, com seis filmes cada. Jacques Demy aparece em seguida com cinco.


Escrito por sérgio alpendre às 13h14
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Henri Langlois

A correspondência de Langlois, vasta obra, ainda precisa ser publicada. Há uma carta a [Hans] Richter, em 1952, na qual Langlois se espanta que o cineasta lhe tenha recusado uma cópia de Rêves à Vendre para uma programação, em seguida a um texto bem crítico que ele havia publicado sobre a obra em La Revue de Cinéma. Ele explica assim que existem dois Langlois, que não se confundem jamais: o Langlois crítico, subjetivo, e o Langlois programador. Se ele tivesse intitulado a mostra "As obras-primas do cinema de vanguarda, teria compreendido a recusa de Richter, mas como a programação se chama "História do cinema de vanguarda", o filme deve ser exibido.

Bernard Benoliel, em entrevista a Nicolas Azalbert, na Cahiers du Cinéma 669, de abril, 2014 (capa Alain Resnais - uma das melhores edições recentes, aliás).

Ele também havia dito, em entrevista publicada na Cahiers 135, que se recusava em abdicar de sua subjetividade, e ao mesmo tempo se recusava a rejeitar qualquer filme como programador.

Bernard Eisenschitz, na mesma entrevista.


Escrito por sérgio alpendre às 16h01
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Renovando as forças

"A gente vai levando", dizia a velha canção. A música marcou época, mas a verdade é que a situação está cada vez pior para quem quer se envolver com arte.

Apesar disso, dois acontecimentos recentes, um na terça, outro na quarta desta semana, renovaram minhas esperanças na humanidade que assim caminha.

O primeiro foi o encontro com o grande Nelson Pereira dos Santos, para um debate sobre sua obra no Sesc Belenzinho. Foi exibido o curta Missa do Galo, adaptação de Machado de Assis com os mesmos atores que haviam feito Azyllo Muito Louco (outra adaptação do escritor) pelo mesmo Nelson em 1969: Nildo Parente e a rainha Isabel Ribeiro.

Nelson respondeu pacientemente todas as perguntas. Seu entusiasmo, a vontade de falar com os presentes, as novas ideias (adianto, são rossellinianas), tudo reverberava sua paixão por cinema. Foi extremamente generoso e gentil. Não esquecerei seu abraço, na despedida. 

Nesta quarta-feira, dia 04, voltei a Águas de São Pedro, cidade localizada a meia hora (de carro) de Piracicaba, que conheci quando criança, trazido por meus pais. É o tipo de lugar ideal para se viver em paz. Tem cerca de 3 mil habitantes, um sebo de livros adorável, e alunos interessados de todas as idades, como o professor Rubens Teixeira, que muito contribuiu para que eu aprendesse também. Há mesmo algo de mágico na água daqui.


Escrito por sérgio alpendre às 00h53
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Eugène Green esnobado por Cannes

Confesso que nunca entendi o tanto que o pessoal da cinefilia se importa com o Festival de Cannes. Não estranho quem goste de ir, cobrir, acompanhar os filmes, embora eu mesmo não tenha muita vontade de fazer isso. É normal querer se alimentar de filmes, mesmo que a safra seja ruim. Estranho, sim, alguém que fica esperando ansioso pelas premiações, pela programação, pela recepção crítica aos filmes, sem ter visto coisa alguma, como se viesse desse festival o melhor do cinema atual.

Estranho mais ainda que um filme como La Sapienza, do grande Eugène Green, tenha sido inscrito em Cannes 2014 e não tenha constado na enorme programação do evento (algo que me foi contado por um amigo, Pedro Faissol, que esteve com ele recentemente). 

Mesmo desconfiando das balizas autorais, um filme de Green, pelo que ele já fez no cinema, deve ser melhor do que quase tudo que foi exibido por lá (me arrisco, sim, a dizer isso sem ter visto os filmes, por isso escrevo "deve"; além do mais, os longas anteriores de Green deixa o risco muito menor). 

Não sou inocente de achar que entram sempre os melhores segundo a curadoria. É óbvio que negócios e políticas influenciam muito mais as escolhas do que qualidade artística. E por isso, pensando melhor, não estranho a ausência de La Sapienza. O que estranho mesmo é tanta comoção dos cinéfilos por um festival que simplesmente esnoba um cineasta como Eugène Green.


Escrito por sérgio alpendre às 23h45
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Voltando a Dancin' Days

É incrível a diferença entre o espírito daquela época, 1978, e o espírito de hoje em relação ao que o público pode ou deseja ver no horário nobre. Em Dancin' Days, escrita por Gilberto Braga e dirigida por Daniel Filho, inúmeros diálogos sérios, com questões complexas e até filosóficas, são exibidos quase que diariamente com uma duração acima do comum. 

Os personagens também revelam essa complexidade em sua construção. De início, é Mário Lago o responsável pelo show. Sua atuação como o fleumático e picareta Auberico é dos grandes momentos da TV Brasileira. 

Conforme o tempo passa, é Joana Fomm que revela um talento absurdo e engrandece sua personagem, Yolanda, a ponto de entendermos suas razões. Num duelo com Júlia (Sônia Braga), no capítulo 36 que passou neste sábado, compreendemos perfeitamente sua angústia com a possibilidade de perder o carinho e o amor postiços de sua filha de criação, sua vergonha com o passado sofrido e os pais pobres, sua imensa fraqueza. Alguns capítulos antes, o desespero que Yolanda demonstrou ao telefone com uma amiga, antes de pedir desculpas de uma maneira deveras comovente ao marido Horácio (José Lewgoy).

Dizem que são os grandes vilões que fazem os grandes dramas. Pois a Yolanda de Joana Fomm, pela terrível humanidade e complexidade de seu caráter, faz de Dancin' Days a melhor coisa a se ver atualmente na televisão brasileira. Na boa, melhor que qualquer longa brasileiro recente (com a exceção de Educação Sentimental).

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P.S. - O amigo Lufe Steffen criou um talk show para falar da novela e eu tinha esquecido de avisar. Vale a pena seguir. Abaixo está o piloto. Do lado direito tem o link para outros programas (curiosamente, não estou conseguindo realçar como normalmente faço com os links):



Escrito por sérgio alpendre às 00h27
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Dura vida no circuito comercial

Está mesmo dura a vida para o frequentador de cinema. Temos de um lado Cães Errantes, o belíssimo filme de Tsai Ming Liang, e nada mais de outro. Nada que ao menos provoque grande interesse. 

Vi, para o quadro da Folha de S.Paulo, três filmes em dois dias. O Espetacular Homem-Aranha 2 é melhor que o primeiro, mas não acrescenta muito à média baixa do blockbuster atual, e não justifica a atualização da franquia em relação à anterior, e superior, de Sam Raimi. 

Getúlio parece um grande trailer recheado de clichês, e o único motivo para vê-lo é o interesse histórico, uma vez que o episódio é deveras interessante e até certo ponto não fizeram nada de indigno com ele. É cinematograficamente bem pobre, e o bom Tony Ramos não foi uma boa escolha. Penso que seria necessário algum ator desconhecido, com voz e cara não identificáveis, de modo a não criar o efeito "não vejo Vargas em cena, vejo Ramos".

Sobre a bomba Amante a Domicílio, de John Torturro, não quero escrever nada. Há muito tempo não me aborrecia tanto com um filme desse tipo: novaiorquino burguês humanista da pior espécie.

O que salva? Lançamentos em DVD, como sempre, e a reprise de Dancin' Days no canal Viva, com shows de atuação de Joana Fomm e Mário Lago, principalmente. E Pepita Rodrigues não deve ser subestimada. E tem ainda o jovem Fagundes, uma Sonia Braga ainda meio perdida (mas é Sonia Braga, pô), Lidia Brondi e Glória Pires em começo de carreira, Ary Fontoura, Reginaldo Faria, José Lewgoy, Milton Morais, música progressiva tocando de fundo, "Amanhã" (pérola do grande Guilherme Arantes), Jorge Ben... outros tempos da teledramaturgia global.


Escrito por sérgio alpendre às 02h32
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Tá no ar e KYTV

É bom o programa comandado por Marcelo Adnet e Marcius Melhem. Muitos compararam ao TV Pirata, embora eles mesmos admitam a maior influência do Satiricom, programa dos anos 70, da mesma Globo. Até onde lembro, creio que tem muito mais a ver com o Satiricom mesmo. Mas a fonte primordial de onde eles tiraram a ideia eu não vi ninguém mencionar. 

Para mim, é a versão brasileira da KYTV, série ótima que a BBC passava no começo dos anos 90, e que foi exibida por aqui no Eurochannel (nos bons tempos do canal). As semelhanças são inúmeras. Desde o formato fragmentado, muitas vezes cortando um quadro no meio para emular um espectador com controle remoto, até o espírito anárquico, deu para sentir que o programa deve e muito ao KYTV. Seria bom alguma emissora comprar os direitos de transmissão da série inglesa, e aproveitar para comprar também o impagável Fawlty Towers, com John Cleese.

Aqui, um dos melhores episódios de KYTV (infelizmente, sem legendas):



Escrito por sérgio alpendre às 20h15
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Coisa curiosa que acontece com listas

Ou melhor, com a recepção às listas que eventualmente fazemos de filmes preferidos com os mais diversos recortes. 

Caí em uma agora, por acidente, publicada pelo site Cinema em Cena, com a minha participação e a de vários outros críticos. 

O mais divertido é observar os comentários (muitas vezes são desanimadores, mas os dessa achei divertidos). 

O principal ponto que acho curioso é que muitos parecem pensar que se não colocamos algum filme numa lista de 15 (sim, eu disse 15) filmes dos últimos 15 (sim, novamente disse 15) anos, é porque não gostamos desse filme. Ele ficou de fora por ser um pobre coitado que não conta com nosso entusiasmo.

O que leva boa parte dos leitores a achar isso me escapa, mas é sempre curioso ver como essa observação se repete nos comentários de listas.

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P.S. Segue a lista, para facilitar o entendimento do que escrevi:



Escrito por sérgio alpendre às 20h28
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Top 10 Ermanno Olmi

Olmi é um dos diretores italianos mais subestimados de que se tem notícia. Este Top tenta lhe fazer justiça, e chamar a atenção para seus filmes, que devem ser descobertos ou revistos.

1. A Árvore dos Tamancos (L'Albero Degli Zoccoli, 1978)

2. O Emprego (Il Posto, 1961)

3. La Cotta (1967)

4. Os Noivos (I Fidanzati, 1963)

5. O Tempo Parou (Il Tempo si è Fermato, 1959)

6. Cammina Cammina (1983)

7. Longa Vida à Senhora (Lunga Vita alla Signora!, 1987)

8. O Objetivo das Armas (Il Mestièri delle Armi, 2001)

9. E Venne un Uomo (1965)

10. Cantando Dietro i Paraventi (2003)

+  A Lenda do Santo Beberrão (La Leggenda del Santo Bevitore, 1988)

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OBS 1: não vi três filmes que poderiam estar na lista: La Circostanza (1973), Il Segreto del Bosco Vecchio (1993) e Genesis (1994).

OBS 2: dos curtas para a Edison Volta meus preferidos são Buongiorno Natura e La Mia Valle, ambos de 1955.


Escrito por sérgio alpendre às 02h20
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Pílulas

Três filmes em cartaz. Somados, não dão um Toque de Mestre, o surpreendente suspense de Eugenio Mira.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho sucumbe ao exagero do politicamente correto. É cálculo o tempo todo. Todos são tratados com muito carinho e compreensão. Até mesmo quem faz bullying (aliás, bullying de meia pataca). Nada contra um retrato fantasioso do mundo, mas o cálculo excessivo faz com que o filme todo fique numa camisa de força.

Capitão América 2: uma aula de como se estragar a melhor franquia de super-heróis desde O Homem Aranha do Sam Raimi. Joe Johnston caiu fora da produção. Talvez tenha começado aí o engano. Anthony e Joe Russo são incapazes de filmar cenas de ação, e esta segunda parte tem muito mais ação que a primeira. O resultado é um dos blockbusters mais insuportáveis dos últimos tempos. E olha que a concorrência é brava. 

Noé, por outro lado, parecia que ia ser um novo recorde de ruindade, mas não é tão ruim quanto pintaram, nem quanto as primeiras cenas indicam. É fraco, mas visto depois de Capitão América 2, soou como um certo descanso para os olhos. A afetação de Aronofsky é normalmente bem entediante, mas aqui está controlada, talvez pelo peso da produção. O filme ainda se veste interessantemente contra o fanatismo religioso, e o momento em que Noé poupa as netas lembra foi pensado provavelmente como uma alusão a Ethan Edwards, de Rastros de Ódio, pegando Debbie no colo e dizendo "Let's go home, Debbie". Heresia, mas ao menos não machuca os olhos como esses blockbusters cheios de explosões que somos obrigados a ver.


Escrito por sérgio alpendre às 00h11
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A Árvore dos Tamancos por Orlando Fassoni

"Temos aí, portanto, um painel construído à margem de discursos e à base dos acontecimentos rotineiros dessas pessoas ingênuas que não experimentaram os odores de uma civilização já poluída na passagem de sociedade rural para a industrial. Um afastamento que faz, por exemplo, com que todos parem o trabalho por um momento ao ouvirem o fonógrafo do patrão tocando uma ópera, ou a se excitarem com as cores do parque de diversões instalado no povoado. Olmi, ao extrair desses seus personagens o que eles têm de mais puro, nos presenteia com um cortejo de situações e de diálogos (o dialeto bergamasco) traduzido por uma narrativa montada segundo a própria sequência dos acontecimentos. Desta forma, podemos acompanhar ora o velho Anselmo, cultivando a terra, para depois, no final, vê-lo emocionado vendendo seus tomates no povoado; o início da corte do jovem da aldeia à moça da colônia, até o ritual do casamento de ambos e a lua-de-mel no convento onde a tia da garota é superiora; a falna diária da viúva Runk, que lava roupas para ganhar as migalhas e ter a polenta na mesa, e toda a sua resignação ante a adversidade; e o processo a que Battisti se submete, ao romper as ordens, pagando caro o preço de seu amor ao filho que colocara na escola para que não fosse outro como ele, marginalizado por um sistema social em que as vontades do patrão superavam todas as possíveis condições de resistência coletiva.

Nesse processo, todos são solidários. Trabalham, cultivam, colhem, entregam dois terços ao patrão, ficam com o mínimo para o sustento, envolvem-se nas dores (o parto do filho de Battisti) e nas alegrias (as noites de frio em que todos ouvem as histórias inventadas por um ou outro). Não há solidão nessa colônia onde uma criança é outra boca faminta, onde a ingenuidade e a pureza interior de cada ser se comprazem em aceitar seus mitos, a acatar ordens com extrema resignação, a esperar milagres das benzedeiras e a fazer previsões através de rimas tradicionais ('lua com coroa é neve que se amontoa', canta o velho Anselmo). 'A Árvore dos Tamancos' é, assim, uma obra que, acima de tudo, dignifica o homem no seu estado mais pungente de pária social submetido a um universo que, embora o oprima, não lhe arranca jamais as suas virtudes, não transforma sua sabedoria nem tolhe o seu intransigente sentido de solidariedade, amor e busca da riqueza na simplicidade dos atos. obra-prima. Uma lição de vida."

* Quinto e sexto dos seis parágrafos da crítica de Orlando L. Fassoni para a Folha de S.Paulo, 15 de novembro de 1979.

* * Tirado do Acervo Folha



Escrito por sérgio alpendre às 23h17
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