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chip hazard


Aviso

Novo blog:

sergioalpendre.com

Não consigo mais postar fotos por aqui, então senti que os dias de chip hazard estavam contados. O novo blog está em nova plataforma e com o meu nome no título.

Este continua ativo, como arquivo de textos e eventuais avisos.

Obrigado por todos os anos de leitura (foram quase doze). Espero que todos que aqui frequentavam continuem seguindo minhas publicações no outro endereço.



Escrito por sérgio alpendre às 01h29
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O fim dos tempos

Leio o João Pereira Coutinho e imagino o quanto ainda podemos descer rumo ao obscurantismo. Será que temos ainda o que descer? Ele diz que em Harvard alguns alunos desconfortáveis com o termo "violar a lei" pediram que os professores o evitassem. O texto do escritor português fala do excesso de preservação que os pais reservam aos filhos, e que isso os faz cada vez mais despreparados para a vida.

Alguns trechos:

"A história é relatada na revista "Atlantic Monthly" e os autores, Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, não se limitam às "violações" da lei. Segundo os próprios, crescem nos Estados Unidos os casos de "microagressões" –palavras, conceitos, meras alusões que põem em risco o "bem-estar emocional" dos alunos. E os alunos têm direito a esse "bem-estar". As universidades devem ser "zonas de conforto" onde nunca se deve escutar aquilo de que não se gosta."

"Um exemplo do artigo: se o assunto é literatura, o professor deve avisar previamente a turma que "misoginia" e "abusos físicos" fazem parte da obra "O Grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald. Caso contrário, uma alma mais sensível pode desmaiar em plena classe e a carreira do professor estará terminada. Pergunta óbvia: como se chegou até aqui?"

O texto desesperador está integralmente aqui:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/233864-como-destruir-um-filho.shtml


Escrito por sérgio alpendre às 18h20
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O retorno do filho do post esquizofrênico

- Primeiramente, a indicação da terceira edição do curso de crítica que ministro com Inácio Araujo: http://oficinadecritica.blogspot.com.br/

- Ministrar: baita verbo feio, e nunca consigo me livrar dele.

- Por enquanto, estou em São Luís para o módulo História do Cinema Mundial. 40 horas de cinema e bons papos com os alunos interessados da Escola Lume. Hoje foi dia de demência do pre-code, ou seja, dos filmes feitos imediatamente antes da instalação definitiva do Código Hays. Esqueci de trazer O Sinal da Cruz, do De Mille, mas falei desse e de muitos outros, e mostrei trechos de Gold Diggers of 1933. Defendo, há tempos, que a década de 1930 é uma das mais importantes da história do cinema, e tem sido subestimada a rodo por aí. Ford, Hawks, Renoir, Ozu, Walsh, Vidor, De Mille, Cukor, Ophuls, Sternberg e Mizoguchi brilharam nessa década. Preciso dizer mais?

- Dizem por aí que The Book of Souls, o novo disco do Iron Maiden, é o melhor que eles fizeram desde Seventh Son of a Seventh Son. E é isso mesmo. É o disco mais progressivo da banda, e o que faz mais jus à declaração de Steve Harris de que seu disco preferido é Foxtrot, do Genesis. Já o do Motorhead é legal, e só. Mais do mesmo em vários aspectos, até que uma nova audição me desminta.

- Mês raro no circuito comercial paulistano. Aos filmes recentes de Godard (Adeus à Linguagem) e Green (La Sapienza), somam-se o belo Tristeza e Alegria, de Nils Malmros, o melhor diretor dinamarquês de sua geração (tome, Lars Von Trier), e o essencial Já Visto Jamais Visto, de Andrea Tonacci.

- Mais uma indicação para encerrar o post. A Revista Interlúdio, editada por mim e Bruno Cursini, lançou uma nova edição, que pode ser conferida em www.revistainterludio.com.br. Tem Godard, Giallo, Robin Wood (meu crítico preferido), Muylaert, Iberê Carvalho, Peyton Reed, Woody Allen, Guy Ritchie (que não coube na Home, mas está em Nos Cinemas) e muito mais.



Escrito por sérgio alpendre às 14h52
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Que Horas Ela Volta?

Numa primeira visão, gostei de Que Horas Ela Volta? Parecia existir ali mais nuances do que no habitual cinema brasileiro dos anos 2000, com um trabalho muito bom das atrizes. Alguns planos ou cenas, contudo, ficavam martelando minha cabeça, fazendo com que o filme piorasse em minha memória.

O que mais me incomodou foi:

- Val (Casé) dá de presente para sua patroa (Karina Teles) um jogo de café. Percebemos que a patroa detestou o presente, mas Val o leva para a cozinha e tenta montar o jogo de acordo com o que vê na embalagem. Essa sequência toda esbarra no exagero de interpretação de Casé, que se alonga demais na montagem do jogo, insistindo em dizer coisas engraçadinhas como "ah, é descasado".

- Jessica (Camila Márdila) chega na casa onde sua mãe mora, a casa dos patrões. Ela é logo sabatinada pelos burgueses com consciência culpada, que, no entanto, se assombram com a informação de que ela pretende prestar FAU. Os planos de reações são, convenhamos, constrangedores. A única que se sai bem nessa cena é Camila Márdila.

- O patrão se apaixona pela ninfeta, e em dado momento chega a perguntar se ela não quer se casar com ele. Depois de perceber que virá uma possível negativa, ele diz, gaguejando, que era brincadeira. A atriz parece ter uma interpretação notável nesse momento, mas o plano não a favorece. A câmera fecha um pouco o enquadramento dos dois, mas em momento algum deixa de mostrá-la em perfil.

- Val entra no quarto, logo depois de consolar Fabinho, que não passou na primeira fase da Fuvest, gritando que sua filha tinha passado, e com uma nota humilhante. Um plano grosseiro, que revela uma tremenda falta de tato da personagem com aquele que ela criou como se fosse um filho. Filmada quase toda num plano só, a cena serve apenas para dar o golpe de misericórdia à tragédia do vestibular. Os ricos, contudo, viram a situação: Fabinho parte para estudar na Austrália.

Na revisão, esses problemas continuaram, a meu ver, e um outro, que já era perceptível, mas não me incomodava tanto, passou a me incomodar mais: o maniqueísmo (que Inácio chamou de novelismo, com razão). Isso se dá principalmente em dois níveis: mulheres fortes/homens fracos; pobres fortes/ricos fracos ou problemáticos (a mãe que não consegue o mesmo carinho que o filho reserva à empregada, que, afinal, o criou.

Tem coisas boas também. Após Jéssica ter informado que pretendia concorrer à FAU, ela conhece melhor a casa. Graças ao impressionante trabalho de Camila Márdila, percebemos a consciência que Jéssica vai tomando de toda a situação, e a possibilidade de controlar todos ali. Ela se aproxima de uma estante com livros, e os dois homens da casa o cercam, por trás, como se estivessem prestes a avançar sobre a presa. Ela percebe esse cerceamento e consegue virar o jogo, "segura de si", como Fabinho comentará depois para Val.

A cena em que ela se senta na piscina e Fabinho chega com um baseado é bem interessante, e os momentos em que Val está na cozinha e os patrões na sala de jantar são todos fortes, mesmo quando Regina Casé exagera no gestual. As atrizes, aliás, são todas ótimas.

Fora isso, duas perguntas subordinadas. Por que recusar o campo/contracampo em alguns momentos em que este seria mais funcional: principalmente o do pedido de casamento e o anúncio final de Val para a filha? Se havia mesmo essa vontade estilística de evitar o campo/contracampo, por que não escolher um ângulo melhor para a colocação da câmera?

Durval Discos e É Proibido Fumar têm seus defeitos, mas não têm planos tão mal filmados.



Escrito por sérgio alpendre às 00h27
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Cinema de montagem

Não gosto de anunciar mostras e outros eventos por aqui, mas calhou de eu fazer isso por dois posts seguidos. Devo estar com febre crônica.

É que entre as mostras de setembro ainda tem uma que promete demais (caso as projeções façam jus à excelência dos títulos). Será no Belas Artes, a partir do dia 10 e até dia 23: Mostra Cinema de Montagem.

A seleção:

- Uma Página de Loucuras (1926), um dos filmes que Teinosuke Kinugasa fez com o grupo neosensorialista;

- Eu te Amo, Eu te Amo, um dos filmes mais esquisitos de Alain Resnais;

- O Cremador, de Juraj Herz, um dos diretores mais injustiçados da Nouvelle Vague Tcheca; 

- Edvard Munch, obra menos conhecida de Peter Watkins (embora já tenha saído em DVD por aqui);

- O Signo do Caos, último longa de Rogério Sganzerla e um dos quatro ou cinco mais importantes filmes brasileiros dos últimos trinta anos;

Mais uma série de filmes igualmente importantes (Marker, Peixoto, Eisenstein, Costa...), dos quais destaco o monumento Histoire(s) du Cinéma, de Jean-Luc Godard.


Escrito por sérgio alpendre às 01h42
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Festivais e mostras aos montes

Começando pela região Centro-Oeste, mais especificamente pelo estado de Goiás:

- Pude finalmente conhecer o FICA, que chegou a sua 17ª edição agora em 2015. Neste ano privilegiaram o cinema (antes era um balaio com shows, festas e o cinema ali para atrapalhar). Falta afinar a sintonia, pois parecem meio dependentes demais do tema ambiental. De todo modo, foram dias muito agradáveis na Cidade de Goiás (Goiás Velho), onde pude conhecer a produção atual goiana e dois bons filmes, o curta Matias e o longa My Name is Salt (foto).

- Está rolando, ou terminando, a segunda edição do Fronteira, festival que me parece bem interessante em Goiânia. Neste ano teve um longa de Pièrre Léon, e vários filmes de Yervant Gianikian e Ricci Luchi, e de Bruce Baillie. Quem acompanhou não deve ter se queixado.

Em SP:

- Aki Kaurismaki é um diretor meio subestimado. Tem grandes filmes (ao menos os das duas trilogias, a dos trabalhadores e a dos perdedores), e uma versão ótima para Crime e Castigo, de Dostoievski. Passou no Belas Artes, em DCP, após uma temporada na Caixa Cultural do Rio.

- Vai rolar a Mostra Dogma 95, no CCBB. Já passou por Brasília. Talvez Rio, não sei. Boa oportunidade para ver o que sobrou desse movimento nefasto. na época gostei dos dois primeiros filmes, Festa de Família, de Thomas Vintenberg, e Os Idiotas, de Lars Von Trier. Os demais filmes associados a esse movimento são, convenhamos, bem ruins. Não sei o que ficará desses dois primeiros numa revisão.

No Rio:

- A Mostra David Lean começa logo em setembro, no Botafogo 1. Se for em 35mm, ou no mínimo em DCP (ainda não consegui descobrir), vale um bate-volta (no meu caso) para ver A Filha de Ryan, principalmente, mas também A Ponte do Rio Kwai, Lawrence da Arábia, Oliver Twist, Desencanto e Passagem para a Índia. Bom, o ideal é ver todos.

Tem mais, sei que tem, mas por enquanto dou conta dessas aí.

Claro, em setembro vai ter o Indie, primeiro em BH, depois em SP. As retrospectivas estão ótimas: Kira Muratova e Sharunas Bartas. Fora o que vier de novidades.



Escrito por sérgio alpendre às 01h58
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FICA 2015

Estou, a partir desta quarta-feira, 12 de agosto, na Cidade de Goiás (também conhecida como Goiás Velho) para acompanhar, pela primeira vez, o FICA - Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, em sua 17ª edição.

A proposta se assemelha à de Tiradentes. Numa cidade histórica, improvisam uma tenda onde passam os filmes, curtas, médias e longas, em competição ou em mostras paralelas. Com diferença estampada no título: os filmes devem passar pela temática ambiental. Como é possível expandir bastante tal conceito, temos uma mescla de filmes facilmente identificados com o meio ambiente e filmes mais tradicionais, cuja ligação com o tema é apenas periférica.

Neste primeiro dia, a impressão não é das melhores. Os curtas que têm algo de interesse são poucos (três, na verdade: A Vida de Cada Um, A Pedra e Sob Nossos Pés), e nenhum deles pode ser chamado realmente de bom. Na outra sessão, mais claramente ambiental, dois curtas que com muita boa vontade podem ser chamados de filmes. São mais videos institucionais.

O português A Ria por Dentro é claramente um programa de TV que podemos ver com interesse, mas não podemos chamar de cinema. O brasileiro Último Refúgio: Reserva Biológica de Duas Bocas é bem parecido com o português, com a vantagem que o diretor tenta algumas abstrações para temperar um pouco a coisa.

Devo ressaltar que vi apenas duas sessões de uma programação bem grande. Uma das sessões tem sete curtas de Goiás.

Bom, a cobertura sai depois, na Interlúdio. Por aqui, apenas algumas pitadas. Seguimos, que o calor do dia só é suportável porque sabemos que virá o friozinho da noite.


Escrito por sérgio alpendre às 00h54
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Obra-prima

Leitores perguntam sobre meu conceito de obra-prima, talvez impressionados pelo tom falsamente objetivo de meu último post. Digo falsamente porque nunca se é totalmente objetivo, apesar de se buscar uma certa objetividade.

Definir o que para mim (o que para qualquer um) é uma obra-prima requer um curso, ou um livro. Não é algo simples de ser resumido. Porque envolve minha concepção de cinema, que é bem plural, apesar de aparentar o contrário. Envolve minha vivência, a ordem com a qual descobri as coisas, as revisões e releituras constantes.

Não é algo que eu saiba definir de bate-pronto, como se fosse uma receita de bolo. Um livro inteiro sobre o assunto iria apenas arranhar uma possível explicação.

De início, posso dizer que a história não me interessa. O que interessa é como a história é contada. É o beabá, a ideia mais simples possível de apreciação artística.

Posso dizer também que um filme deve ter uma boa escrita de câmera, isso quer dizer uma câmera que seja adequada a um sentimento que se está passando (e que muitas vezes também é difícil de saber). Por isso não gosto de filmes que não pensam a câmera, que não agem de acordo com o ensinamento de John Ford: "só existe um lugar para se colocar a câmera, o bom diretor é aquele que sabe o lugar".

Ford e Mizoguchi são meus diretores preferidos. Então, torna-se natural indicar, mais uma vez, este trecho aqui, de um texto meu publicado na Taturana há alguns anos:

Uma pergunta que ouvi no fim de 2009 ainda ecoa na minha cabeça: “Qual seria, hoje, o cinema a ser defendido?” Depois de alguma hesitação, respondi: “o cinema que apresentasse alguns ou todos os preceitos de Mizoguchi, ou, se não fosse possível apresentar tais preceitos, que pelo menos não os negasse”. Em alguma medida, a maior parte do que interessa no cinema contemporâneo responde por algum princípio que Mizoguchi defendia – e como ele, de maneira ligeiramente diferente, defendiam Raoul Walsh, Otto Preminger, Fritz Lang, Joseph Losey, Ida Lupino, Shohei Imamura, Manoel de Oliveira, Jean-Marie Straub & Danielle Huillet, Abbas Kiarostami, Andrei Tarkovsky e alguns outros, todos diretores com um ou mais pontos de contato com a estética de Mizoguchi. Essa estética é baseada na câmera persecutória e na discrição no registro das emoções do ator, para que essas mesmas emoções se transfiram diretamente ao espectador, sem chantagens nem manipulações. Walsh e Preminger, por exemplo, acreditavam no plano-sequência como respeito ao trabalho do ator e como possibilidade maior de conseguir o máximo de sua interpretação e assim pensava, também, Samuel Fuller, Joseph Losey, Max Ophuls e Shohei Imamura. Lupino e Lang ainda respeitavam a inevitabilidade do confronto com o espaço, assim como o registro que preservasse a intimidade do ator. Straub e Oliveira convergem pela preocupação com o texto, com as diferentes entonações que esse texto pode proporcionar, e pela maneira como essas entonações dirigem a performance do ator dentro do espaço cênico.

Esse trecho pode dar a entender que sou rígido demais em meus princípios, o que não seria verdade. Diria que é mais uma base do que uma condição do cinema que defendo. Algo que seja contrário a isso seria muito mais difícil de me agradar, ainda que eu tenha de me manter sempre aberto à excelência do que é contrário. E que alguns filmes que aparentam ser o contrário do que defendo são na verdade convergentes ou complementares. E ainda tem o cinema experimental, o documentário, enfim, todo um mundo que pode me quebrar, pois estou sempre aberto a brigar com os meus preceitos, modificando-os, e é isso que importa. Enfim, já escrevi sobre tudo isso. Estou me repetindo.

O link para o texto completo (que tem trechos que obviamente hoje seriam mudados) é este: https://revistataturana.wordpress.com/2010/07/19/a-relevancia-de-mizoguchi/


Escrito por sérgio alpendre às 20h50
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Cinema americano em 1995

Conversando outro dia com Bruno Andrade e Paulo Santos Lima, dizia-lhes da maravilha que foi rever Fogo Contra Fogo (Heat), em blu-ray, vinte anos depois de ter visto no cinema essa obra monumental de Michael Mann. Falávamos do antológico tiroteio, da interpretação de De Niro, do ensaio que foi L.A.Takedown, e de repente me toquei de uma coisa: que ano sensacional foi 1995 dentro do cinema americano. Desconfio que desde o fim dos anos 60 não tivemos ano tão forte, e desde então nunca mais tivemos outro que se igualasse.

Vejamos, então, uma lista de obras-primas americanas de 1995:

Fogo Contra Fogo (Heat), de Michael Mann
Cassino (Casino), de Martin Scorsese
Showgirls, de Paul Verhoeven
The Addiction, de Abel Ferrara
As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County), de Clint Eastwood
À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness), de John Carpenter

Que outro ano do cinema americano dos anos 70 em diante teve ao menos seis obras-primas? Não lembro. E olha que John Carpenter quase emplaca mais um: A Cidade dos Amaldiçoados. Á Beira da Loucura, por sinal, está listado como de 1994 no imdb, mas o mesmo site data a estreia do filme em 1995, e para mim é isso que conta. E mesmo que não contasse, cinco obras-primas já seria um feito impressionante.

Lembro de anos de inúmeros grandes filmes: 1974, 1976, 1978 (parece que os anos pares foram melhores naqueles tempos de Nova Hollywood). Mas não sei se cada um deles chega ao número incrível de seis obras-primas. Bom, talvez nessa década ainda tenha algum ano que chegue a esse número. Mas de 1980 em diante, talvez não tenha mesmo.

1995 é mais um ano em que muitas bobagens foram lançadas no cinema americano. De certo modo, essa tendência à infantilidade vinha se acentuando mais do que anteriormente desde a segunda metade dos anos 80. Mas pelo número de picos, é mesmo um ano especial. Pelo menos entre os últimos trinta anos.

ATUALIZAÇÃO: Percebi depois que posso ter sido precipitado ao dizer que desde o fim dos anos 60 não tínhamos ano tão bom. Um breve apanhado de 1976 me deu isto aqui: Taxi Driver, Josey Wales, Chinese Bookie, Trágica Obsessão, Carrie, e Foi Deus Quem Mandou. Ou seja, seis obras-primas no ano, duas só do De Palma. 1978 deve ter algo assim, e, pensando um pouco mais, o biênio 1980/1981 também. Deixemos assim, então: pelo alto índice de picos, 1995 é o melhor ano dos últimos trinta anos. Acho que aí dá para assinar.


Escrito por sérgio alpendre às 00h16
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ESPN Brasil e a TV brasileira

Um parêntesis em nossa programação normal é necessário. A decadência da ESPN Brasil é uma das mais tristes que já presenciei na televisão brasileira. A saída de Paulo Vinícius Coelho é só um sintoma, e representa pouco diante do que perdemos.

O canal era a melhor possibilidade de reflexão na telinha. Dava de dez em qualquer programa de debate. Ganhava do Canal Livre e do Jornal da Cultura, do Saia Justa e do Roda Viva, e de qualquer programa do suspeito Globo News (a voz do dono por excelência). Com outros programas de esporte a concorrência não existia. No antigo Bate-Bola da hora do almoço, a clássica formação com PVC, Mauro Cezar e canalha rendeu algumas das melhores horas que passei diante da TV. Na verdade, a maior parte do tempo eu mais ouvia o programa, aprendia muito com eles, eram amigos em minha casa, todos os dias. Eu praticamente não trocava de canal. Hoje, o Bate-Bola foi completamente desfigurado, e a toda hora a discussão é interrompida por essas intragáveis entrevistas com jogadores que nada tem a dizer. Canalha e Mauro Cezar ainda estão lá, Hoffman e Bertozzi dizem coisas interessantes, mas as interrupções irritam demais. Provocam o chamado comichão do controle remoto. Com tantos canais, acabo indo para outro e não mais voltando. Não duvido que em pouco tempo esses analistas sejam substituidos por ex-jogadores (porque o "fã do esporte" quer ouvir e ver quem já atuou em campo, não jornalistas ranhetas).

O Pontapé Inicial, um dos melhores e mais agradáveis programas que já vi, com discussões sobre cinema e música, artes em geral, e um pouco de esporte, desapareceu, assim como o divertido Loucos Por Futebol. Trocaram por outros Bate-Bolas, com gente falando a mesma coisa, entre as inúmeras interrupções. A estupidez interativa deu as caras na ESPN e o canal ficou comum, dando espaço demais aos fãs do esporte (que, em sua maioria, tem tanto a dizer quanto os jogadores, ou seja, nada). Sobram, ainda, o Linha de Passe e o Sportcenter (este quando tem amigão e Antero). Até quando resistirão ao baixo nível que toma conta em nome da audiência?

Canal Brasil

Lembraram-me recentemente que o Canal Brasil não passa mais filmes, ou passa em horários ingratos. É verdade. Raramente, nos últimos dez ou quinze anos, vi filmes na TV, mas sempre que via era no Canal Brasil, principalmente à noite ou de madrugada. Vi todos os filmes do Carlo Mossy que o canal exibiu, por exemplo, e descobri pérolas como Juliana do Amor Perdido, de Sérgio Ricardo, ou Kung-Fu Contra as Bonecas, de Adriano Stuart. Entendo que parte da programação seja aberta a outro tipo de programa, mas poderiam deixar mais espaço para os filmes, né? Encontrar um meio termo seria essencial.

Arte 1

Sobra o Arte 1, que lembra o antigo Bravo Brasil em sua tentativa de não se render ao que o grande público é induzido a querer ver. Vamos ver quanto tempo aguenta.


Escrito por sérgio alpendre às 14h05
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10º CineOP

Estive novamente na adorável cidade histórica de Ouro Preto para a décima edição do CineOP, um dos festivais de que mais gosto. Gosto por ser o evento que discute história, que busca filmes perdidos e discute temáticas do cinema brasileiro do passado.

Foram apenas três dias. A intenção era fazer um diário para a Interlúdio. Como dormi muito mal no dia em que cheguei, não consegui aguentar o tranco. Vi vários filmes, não escrevi sobre nenhum. Só três dias, pensei. Melhor deixar tudo para o balanço final.

E cadê o balanço final? Deve entrar até domingo na Interlúdio.

Sabem como é: achei, como sempre, que ia chegar de lá, pegar as anotações e transformar logo em texto. A saúde vem antes, contudo, e eu precisava ir ao médico, buscar exames, preparar textos para a Folha e a fala de uma palestra.

O que vi por lá? Coisas bem bacanas. Não conhecia, por exemplo, os filmes de Gerson Tavares. Pude ver sete curtas e um longa. Dos sete curtas, dois são razoáveis, cinco são muito bons. Lembram os primeiros curtas de Ermanno Olmi para a Edison Volta. O longa é bom, lembrando um sub-Zurlini (algo de A garota com a Valise no tom), e nouvelle vague por outro lado. Um deslumbramento meio infantil com a nouvelle vague francesa que, no entanto, rende algumas cenas bem bonitas. Minha preferida e a de muitos por lá: Jardel Filho cortando o maiô de couro de Norma Bengell, libertando seus seios, de frente para o mar.

Dos novos, alguns curtas bem ruins, com destaque negativo para A Festa e os Cães, do curta-metragista mais supervalorizado do momento, Leonardo Mouramateus (seu A Era de Ouro não é de se jogar fora, mas esse último é constrangedor). Vi também alguns longas bons, como A Paixão de J.L. (quem lembrou de Godard, não errou) e, principalmente, Retratos de Identificação, uma porrada para quem insiste em dizer que a ditadura militar brasileira foi de mentirinha.

Perdi a exibição de Limite. Cópia restaurada recentemente. Tenho em DVD. vai ser o jeito. Mas a exibição causou celeuma. Alguns saíram no meio, reclamando do excesso de grão. Outros saíram reclamando que estava muito limpo. Na dúvida, perguntei para a Luciana Araujo (e a Sheila Schvarzman, do lado, confirmou): era mesmo excesso de grão. Normalmente acho melhor uma restauração que preserva o grão do que a limpeza total. Mas elas me disseram que tinha grão demais, e confio no julgamento delas. Uma pena. Ainda assim, prefiro grão a mais a grão nenhum.


Escrito por sérgio alpendre às 00h51
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Composição, teu nome é Manoel de Oliveira

Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990)



Escrito por sérgio alpendre às 02h12
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TOP 10 Jerry Lewis

Em homenagem a um dos maiores gênios do cinema, arrisco aqui um Top 10 de filmes com sua presença, ou como ator, ou como ator e diretor.

1) O Terror das Mulheres (The Ladies Man, Jerry Lewis, 1961)

2) O Otário (The Patsy, Jerry Lewis, 1964)

3) Errado Pra Cachorro (Who's Minding the Store, Frank Tashlin, 1963)

4) A Família Fuleira (The Family Jewels, Jerry Lewis, 1965)

5) O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy, Jerry Lewis, 1960)

6) O Mocinho Encrenqueiro (The Errand Boy, Jerry Lewis, 1962)

7) O Professor Aloprado (The Nutty Professor, Jerry Lewis, 1963)

8) O Rei dos Mágicos (The Geisha Boy, Frank Tashlin, 1958)

9) Smorgasbord (Jerry Lewis, 1983)

10) O Fofoqueiro (The Big Mouth, Jerry Lewis, 1967)

NOTAS:

- os cinco filmes que Lewis dirigiu para a Paramount (1960-1964) estão presentes na lista, nas sete primeiras posições.

- três filmes da fase pós-Paramount (1965-1983), estúdio com o qual ele se manteve em briga constante desde antes de estrear na direção. O Otário é uma boa ilustração de seus problemas com o estúdio.

- apenas um filme dos anos 1950, e nenhum filme com a dupla Martin-Lewis. O que mais chega perto de um lugar entre os dez melhores é Ou Vai ou Racha (Hollywood or Burst, de Tashlin, 1956).

 



Escrito por sérgio alpendre às 13h45
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Memória de Helena

Memória de Helena é um típico primeiro filme. Dirigido pelo então crítico David Neves, o filme está cheio de ideias visuais e alusões ao cinema dos anos 60. Tem muito Godard (principalmente no desenho de som, nos cortes abruptos da trilha, no uso da narração), Antonioni (clima burguês decadentista, ritmo por vezes contemplativo), Resnais (fragmentação) e Bresson (a cena do suicídio de Helena, das melhores do filme, tem inspiração clara em Mouchette).

Uma outra cena me deixou impressionado: Helena está em seu quarto observando a janela. Os personagens do filme passam e somem, do lado de fora, como em truques de mágica, ou deslizam pela extensão da janela como se estivessem em uma esteira. Neves usa campo e contracampo, com cada plano durando cerca de dois segundos, às vezes menos, alternando os personagens que passam com a reação de Helena. Efeito Kulechov.

Há outros elementos admiráveis: as amigas brincando com o louva-deus, a chegada impactante de Joel Barcelos, a frágil delicadeza das duas moças (Adriana Prieto e Rosa Maria Penna), a charlatanice divertida de Arduíno Colassanti, o encontro com o tio e suas histórias sobre Diamantina.

Filme irregular, por certo, com seu alusionismo febril. Mas muito talentoso. Mostra um potencial que explodiria na obra-prima Muito Prazer, dez anos depois.


Escrito por sérgio alpendre às 02h36
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Interatividade

Inácio Araujo faz um post clementgreenbergiano falando sobre a interatividade, do qual destaco a passagem abaixo:

Se há uma coisa perigosa no mundo, pior que a bomba atômica, é a interatividade.

Menos por ela em si do que pelo que tem de intimidante. Todos nos sentimos na obrigação de ser interativos, de aceitar o diálogo amplo e blábláblá.

O auge disso eu vejo no Guia da Folha, onde duas pessoas reclamam da exposição Miró.

Um deles diz que é o pior pintor do mundo.

A outra diz que fazia muitos daqueles quadros… na infância.

No entanto, esse pior pintor do mundo goza de uma reputação enorme entre os pintores do século 20.

Diante disso, o espectador tem duas respostas possíveis: a) entender que toda a crítica e história da arte são uma farsa empenhada em difundir falsos valores; b) buscar saber por que se chegou a uma espécie de consenso entre pessoas que conhecem o assunto a respeito pintor espanhol.

O segundo caminho pode ser, obviamente, um pouco trabalhoso. Supõe ir atrás de informações, buscar até eventuais discordâncias, compará-lo a outros pintores, saber qual o pensamento que orienta esses quadros tão “infantis” e que são, necessariamente, diferentes dos que ela desenvolvia na infância.

É mais ou menos assim que se forma um gosto.

Só discordo de uma coisa do texto. Inácio identifica o mal no twitter, e até batiza o post com o nome da rede dos 140 caracteres, mas é evidente que o mal vem de antes. Vem da própria ideia de interatividade. Esse post tem a ver com um mais antigo, de sua própria lavra, em que dizia que o leitor hoje é um consumidor, e como tal exige seus direitos. É parte da falência em que vivemos nesta dita "pátria educadora", em que governos sempre cometem o crime (sim, é crime) de cortar verba da educação e da saúde em momentos difíceis da economia.



Escrito por sérgio alpendre às 11h18
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Filmes no circuito

Sempre reclamo do cinema no circuito, e acho até que nem faz mais sentido reclamar. É causa perdida. Mas é fato que neste ano a coisa está um pouco melhor (ou menos pior, para ser justo). Tivemos, desde o início, e sem contar estreias necessárias (ou por serem blockbusters, ou por serem brasileiras), alguns filmes de inegável força, dos quais os melhores e mais ousados do ponto de vista comercial, penso, são Noites Brancas no Píer e Winter Sleep.

O primeiro é do veterano Paul Vecchiali, que renasceu na França, recebendo homenagens e retrospectivas em todo canto (e um certo menosprezo da Cahiers du Cinéma). Quando o selecionei para o FICBIC 2014, achei que era uma escolha arriscada, mas necessária. Vi alguns cinéfilos extasiados por causa do filme, o que foi recompensador, mas infelizmente ele não causou o mesmo encanto no circuito. Pudera, o público de cinema está muito mal acostumado.

O segundo é de Nuri Bilge Ceylan, que nunca tinha realizado algo dessa estatura: um longa com mais de três horas, atenção voltada aos detalhes, às menores nuances nas relações humanas. Um filme raro, que por causa de sua longa duração e a despeito da premiação máxima em Cannes, estreou mal, em poucos horários, poucas salas, quando merecia muito mais.

É pouco se contentar com apenas duas apostas mais arriscadas (Depois da Chuva e Sniper Americano chegariam de todo modo, ainda que o filme baiano tenha demorado para encontrar seu lugar no circuito, e O Abutre e O Ano Mais Violento não chegam a ser arriscados). Timbuktu é outro grande filme, mas de lançamento justificado, no fim de janeiro, pela indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

No segundo semestre a situação normalmente esquenta, então dá para prever que 2015, pelo menos no circuito comercial paulistano, será melhor que 2014.



Escrito por sérgio alpendre às 00h44
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Mad Max: Estrada da Fúria

Pessoal tem elogiado bastante esse novo Mad Max. Bem, acho que mais do que isso: o pessoal está embasbacado com o filme. Não creio que seja para tanto, e fui sem grandes expectativas, porque já acostumado com essas supervalorizações (eu mesmo cometo algumas de vez em quando).

É fato que George Miller é um diretor muito melhor que os Marvel boys, e que sua direção, mesmo na ação alucinante, não deixa de lado um cuidado com o espaço onde se dá a encenação. Em um ou outro momento você vê umas mudanças estranhas nas posições das carangas, mas nada muito aviltante.

Incomodam mais o excesso de música (ainda que exista um comentário interessante sobre isso na própria narrativa - o cara com a guitarra é insano) e o tom meio piegas de redenção. Mas têm momentos interessantíssimos como o da travessia do terreno infértil, com água contaminada e habitado por corvos e homens com perna de pau. Uma imagem realmente impactante.

O exagero das cenas de ação são aquilo lá, para não ser levado a sério mesmo. Um setentão se divertindo a valer por trás das câmeras. Não é a maravilha que pintam. É meio que um desfile de escola de samba, só que mais divertido. E é muito melhor do que esses filmes de super-heróis atuais.


Escrito por sérgio alpendre às 00h40
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...

Dia desses Inácio Araujo reclamou da postura de Joaquim Pedro de Andrade em alguns filmes, uma postura de quem está acima de seus personagens, de quem os julga. Disse também que isso não costuma incomodar as pessoas, mas o incomoda. Acho bem o contrário. Os críticos normalmente se incomodam com isso. Eu não. Ou raramente me incomodo. Lembro que na Contracampo alguns diretores eram atacados justamente por esse tipo de postura "de cima" (lembro de Werner Herzog, mas havia outros). Na lista de discussão interna da revista, eu ficava praticamente sozinho defendendo Meu Melhor Inimigo. Inácio reclamou justamente de um dos meus preferidos do grande Joaquim Pedro, Guerra Conjugal.

Nunca entendi muito bem essa bronca contra quem julga. Creio que da inteligência e da honestidade vem uma certa arrogância, que pode se manifestar ou não. Hoje em dia há uma tendência de cercear uma manifestação mais contundente de julgamento, como se fosse um grande pecado. Existe com frequência um sentimento de superioridade em quem lida com crítica, pensamento, coisas fora de moda. Mas muitas vezes esse sentimento vira rapidamente ao contrário. Surge um sentimento de inadequação, de não ter jeito para as coisas, de ser um completo idiota. Esse sentimento efêmero de superioridade, aliás, é o que nos move. Porque nós, que lidamos de alguma forma com arte (escrevendo críticas ou dando aulas, no meu caso), sofremos o diabo porque somos autocríticos, inseguros, ansiosos. Se nos tirarem esse breve olhar de cima, o que sobrará de nós?



Escrito por sérgio alpendre às 00h09
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De volta, de novo

- Surgiu uma foto de um multiplex em Bauru (mas podia ser em qualquer lugar do Brasil), em que as cinco salas exibem Velozes e Furiosos 7, dublado. Fábio Porchat, o comediante, compartilhou, e nos comentários alguns malucos defenderam o multiplex dizendo palavras que não ofendem, de tão burras. Uma delas diz respeito à necessidade de o cinema lucrar. E eu fico pensando: como lucrar exibindo apenas um filme? Ou se está falando de um público lobotomizado por completo, ou de uma estratégia burra do exibidor, ou pior, de algo mais escuso, que justificaria a onipresença do blockbuster americano (um incentivo da major, provavelmente).

- Falando nisso, Adilson Mendes flagrou a Cinemateca Brasileira com grandes logos da Warner. Já está tudo dominado mesmo?

- Volto dos 20 dias passados entre Portugal, França e Espanha. Deprimido, porque confirmo que não estou mais na civilização. Angustiado, porque o Brasil parece se encaminhar muito rapidamente para um fundo de poço que parece ser nossa condição. Desmotivado, porque em Madri e San Sebastián pude constatar (ou confirmar) que aqui no Brasil não existe cinefilia. Como existir, se livros sobre cinema simplesmente não vendem, e por isso saem cada vez menos, ocupam menos espaço nas livrarias, são pouco lidos?

- Mas a vida continua. Continuo dando aulas, escrevendo para a Folha de S.Paulo, tentando atualizar este blog e escrever para a Revista Interlúdio, participando do poeiraCast, jogando sinuca sempre que posso e ouvindo muita música (Steely Dan, Van der Graaf Generator, Ian Gillan, Deep Purple, Led Zeppelin, Gentle Giant, Moody Blues, Estelle, Arctic Monkeys, Depeche Mode, Picassos Falsos, Chico Buarque, Sérgio Sampaio foram os últimos). Também continuo a ler vários livros ao mesmo tempo e a rever filmes com imenso prazer, redescobrindo e reavaliando coisas.

- Ouvindo também Def Leppard, banda de que sempre gostei, e retomei por causa de uma excelente entrevista com Joe Elliott, o vocalista, no canal Bis.

- Encerrando em chave cinematográfica: revi A Noviça Rebelde, do sempre subestimado Robert Wise, após uma ótima conversa com o mestre Francisco Conte. Ele tem razão. É mesmo um filmaço. Godard (alguns faux-raccords) e expressionismo alemão (nas cenas do convento e devemos lembrar que a história se passa numa Áustria prestes a ser ocupada pelos nazistas) encontram George Cukor. É doido assim.


Escrito por sérgio alpendre às 00h07
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De um Oliveira a outro

Não faço obituários no blog, a não ser quando se passa um tempo, o tempo do luto, de nos acostumarmos à vida sem o falecido.

Para Manoel de Oliveira, abro uma exceção.

Primeiro porque tenho uma relação muito forte com Portugal, desde que, criança, ficava lendo os jornais de meu avô e acompanhando os resultados do campeonato português. Sei lá por quê, torcia para o Boavista, que anos depois descobri ser um time do Porto.

Mais de trinta anos depois, conheço o Porto, o mesmo Porto de Manoel de Oliveira, e de O Porto de Minha Infância, uma de suas obras-primas. Conheço o Douro, rio mágico que brilhou em tantos de seus filmes, a começar pelo primeiro, Douro, Faina Fluvial.

Um anjo, Manuel Mozos, facilitou meu encontro com o mestre. Mas não consegui completar a comunicação. Algo em mim dizia que eu não devia insistir. Não insisti. Tentei só no meu primeiro dia inteiro na cidade.

Agora Manoel de Oliveira se foi. Poucos dias depois de eu ter passado por sua cidade, ter quase comprado um livro sobre ele em Paris, ter passado doze horas numa viagem de ônibus de Paris a San Sebastián (na hora, foi tortura, agora, é história para contar aos netos que não terei).

San Sebastián, cidade mais linda e mágica que conheci, aliviou minha dor. De algum modo, a vista do ponto mais alto da cidade me aproximou do mestre. Senti que estava perto de onde ele deve estar agora. Num céu azul azul, com lua e sol ao mesmo tempo, banhando um mar de beleza indescritível.

Os filmes. Gosto de todos. São capítulos essenciais da História do Cinema. Tenho cá meus preferidos: Amor de Perdição, Francisca, O Sapato de Cetim, Meu Caso, Non ou a Vã Glória de Mandar, O Dia do Desespero, Vale Abraão, O Convento, Palavra e Utopia, Porto de Minha Infância, O Princípio da Incerteza, O Quinto Império, Espelho Mágico, Belle Toujours, O Estranho Caso de Angélica, O Gebo e a Sombra... mais algum, certamente, que devo ter esquecido.

São muitos, sim, porque o homem era simplesmente um dos maiores em sua arte.

Apertei sua mão após a sessão de O Quinto Império. Estava com três amigos. Lembro de ter agradecido por mais uma obra-prima. Sua resposta: "O texto é muito bom". Depois, referindo-se às pessoas que saíram no meio da sessão, completou: "infelizmente as pessoas não têm mais paciência para um bom texto". É clichê, mas vou dizer: o cinema ficou muito mais pobre sem ele.

Por que de um Oliveira a outro? Acontece que meu pai se chama, justamente, Manoel de Oliveira (com um Messias no meio). Herdei seu último nome, vem depois do Alpendre, que é da minha mãe e do meu avô (o mesmo dos jornais e sotaque portugueses).



Escrito por sérgio alpendre às 19h59
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