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Filmes do circuito e Robert Aldrich

Enquanto isso, vejo e revejo filmes. Entre as estreias dos cinemas a coisa está feia. Giovanni Improtta e Terapia de Risco são bem fracos. Walachai, que vem logo aí, é um documentário razoável que poderia ficar na TV, e A Datilógrafa, que é simpático, não vai tirar o cinema francês da atual mediocridade. Tem Amor Profundo, o belo filme de Terence Davies que estranhamente está passando em cinemas afastados. E pouco mais.

O que salva mesmo é a série de revisões de filmes de Robert Aldrich que iniciei em janeiro e pude continuar neste mês. Meus preferidos continuam os mesmos de outrora: A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly, 1955), Triângulo Feminino (The Killing of Sister George, 1968) e Resgate de uma Vida (The Grissom Gang, 1971). O primeiro é um inesquecível noir que já antecipa as principais características da obra do diretor, conforme apontadas por Jean-Baptiste Thoret (energia represada que tende a explodir, força de corpos apertados pelo enquadramento, impulsividade). Triângulo Feminino é a primeiro grande filme a falar diretamente e corajosamente de lesbianismo, e a direção de Aldrich prende os corpos usando as divisões dos cenários, portas, janelas, esquadrias e pilastras. Resgate de Uma Vida retoma a um só tempo Bonnie & Clyde (evidenciando mais uma vez a proximidade de Aldrich com a Nova Hollywood) e Rastros de Ódio, com o tema do rapto e da perseguição.

Existem outros imperdíveis: Com a Maldade na Alma (Hush... Hush... Sweet Charlotte, 1964) e O Voo da Fênix (The Flight of the Phoenix, 1965), principalmente. O primeiro tem um dos nomes originais mais fantásticos que conheço, e uma cena explícita de mão decepada que só se tornou possível em Hollywood por causa de Psicose. O Voo da Fênix sintetiza o que estava acontecendo em Hollywood na época, com a troca de gerações e produtores e diretores jovens assumindo, aos poucos, as rédeas. No filme, segundo a brilhante ideia de Thoret, a Nova Hollywood (Hardy Krueger) e a velha Hollywood (James Stewart) unem forças para reconstruir o avião (o cinema) e escapar da prisão do imenso deserto de Gobi.

E dois outros filmes cresceram bastante nas revisões: O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (que ainda acho superestimado, mas pelo menos superei certa birra) e Crime e Paixão, com a bela Catherine Deneuve como uma prostituta, e um dos finais mais tristes em todo o cinema de Aldrich (Triângulo Feminino e Resgate de Uma Vida também apresentam finais muito tristes).



Escrito por sérgio alpendre às 12h57
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Pensando alto

- Ridícula a campanha publicitária de Elena. Ter depoimentos favoráveis de Walter Salles e Fernando Meirelles é motivo de orgulho agora? Que público espera-se conseguir com essa estratégia? Um bando de pessoas sem personalidade? O filme não é grande, mas merece algo menos desesperado do que essa apelação. Não se tem mais vergonha das propagandas mais absurdas.

- Numa época em que há mais publicitários do que cineastas fazendo filmes, e que mesmo os cineastas precisam abusar da publicidade por um lugarzinho ao sol, convém pedir: façam mais cinema e menos propaganda.

- E por falar em propaganda... Quanto mais leio textos elogiosos a Doméstica, mais o filme me parece oportunista, panfletário e mesmo nocivo ao cinema. Seria pedir muito que discutissem o filme fora do insuportável viés sociológico e sem as costumeiras piruetas acadêmicas?

- Por outro lado, um trecho de Lula - O Filho do Brasil me deixou com a impressão de que o filme não deve ser tão ruim quanto prometia. Vi a sequência em que Lula conquista Marisa. Não é má. Parece novela, mas dos anos 80, dirigida por Denis Carvalho (num mau momento, não exageremos). Deixei para ver inteiro uma outra hora, em DVD, pois a imagem do Canal Brasil estava com má definição.

P.S. - É que não dá para falar em cinema ao falar de Doméstica. Então seria pedir muito mesmo.



Escrito por sérgio alpendre às 01h00
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Somos Tão Jovens

Algumas coisas que pensei durante e após a sessão de Somos Tão Jovens:

- O filme tem tantos slogans em sua primeira metade que me lembrou um antigo comercial da Veja em que músicos iniciantes compunham suas letras recortando trechos de notícias da revista. É constrangedor quando ouvimos alguns desses slogans sendo proferidos por Thiago Mendonça.

- A interpretação de Thiago, como a de muitos, incomoda por ser uma imitação meio canhestra do artista. Com o tempo, contudo, nos acostumamos. Mas acho que mais uma ou duas cenas com aquele Herbert Vianna e eu teria de ir ao sanitário, ou ao pronto-socorro. Um tormento.

- TV ligada na MTV, enquanto passam diversos clipes dos Titãs. É, no fundo, Legião Urbana é bem melhor que a banda paulista. Ambos tem um disco forte cada (Cabeça Dinossauro e Legião Urbana Dois). Mas a Legião tem dois outros discos interessantes (o primeiro e o V), enquanto os Titãs só têm momentos esparsos dentro de alguns de seus outros discos.

- Há um momento emocionante na presepada que é Somos Tão Jovens. Quando a banda toca "Ainda é Cedo" pela primeira vez, e Dado, totalmente inseguro, patina na imitação de The Cure do início da música. A conexão dessa bela canção pós-punk com a personagem que é de longe a mais agradável do filme, Aninha, é razoavelmente bem filmada.

- A abertura já coloca o filme perto do lixo com aquela versão ridícula para "Tempo Perdido", um dos maiores sucessos da banda. Ridícula porque suavizada, uniformizada, como a banda da tal propaganda antiga da Veja (quem encontrá-la no You Tube ganha um chokito).



Escrito por sérgio alpendre às 02h34
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Oficina, Varilux, Resnais

Algumas dicas:

- Inácio Araujo e eu ministraremos, a partir da próxima quinta-feira, uma oficina de crítica cinematográfica. Estudaremos textos importantes e filmes de todas as épocas. Mais informações em:

http://oficinadecritica.blogspot.com.br/

- Novo filme de Alain Resnais, Vocês Ainda Não Ouviram Nada, não deve durar muito em cartaz, mas é uma beleza, quase tão bom quanto Medos Privados em Lugares Públicos. Há crítica do filme na Interlúdio:

www.revistainterludio.com

- Por último, começa neste 1º de maio a nova edição do Festival Varilux. O número de filmes medianos é sempre grande, mas há a possibilidade de vermos o primeiro bom trabalho de Bruno Dumont (Hadewijch bateu na trave): Camille Claudel 1915. O filme ainda permite vislumbrar uma nova fase na carreira do diretor. Será que acabou mesmo a fase "mamãe quero ser Bresson"?



Escrito por sérgio alpendre às 23h27
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Montes

Monte de coisas lidas, monte de coisas vistas. O que escrever? Uma vez que não posso escrever sobre tudo, às vezes parece fazer mais sentido não escrever nada.

Quero dizer: estou pensando neste espaço, por vezes negligenciado, que no ano que vem completará uma década de idade.

Faz sentido manter um blog nestes tempos de imediatismo e facebook? Ainda penso que faz. Acho o espaço de um blog mais pessoal e menos propagandístico do que o facebook.

Algumas leituras:

- Robin Wood em dois momentos: Hollywood From Vietnam to Reagan... and beyond (o melhor livro possível sobre o período 1965-1985, e além) e Howard Hawks (trabalho de juventude, genial, apaixonado).Tem ainda o pequeno livro sobre Rio Bravo, que é igualmente sensacional.

- Jean-Baptiste Thoret, também em dois momentos: 26 Secondes: L'Amérique Éclaboussée (sobre o assassinato de JFK, o filme de Zapruder e sua influência no cinema americano) e Le Cinéma Américain des Anées 70 (livro que leio e releio com enorme prazer desde 2011).

- Gary Gerstle, The American Crucible - Race and Nation in the Twentieth Century: a história dos EUA no século 20 sob o prisma dos conflitos raciais. Livro de passagens antológicas.

Alguns filmes:

- A Cidade dos Desiludidos, de Vincente Minnelli: ou como um diretor, filmando dentro de um estúdio extremamente fechado à ideia de autoria, consegue deixar sua marca.

- O Tesouro do Barba Ruiva, de Fritz Lang: de um diretor que filmou só uma vez em cinemascope, para ensinar como se fazia.

- Um Lugar ao Sol, de George Stevens: sobre um homem tragado pelo mal, e por isso filmado constantemente no escuro. Um dos filmes mais sombrios já realizados em Hollywood.

- Aconteceu em Xangai, de Josef Von Sternberg: muito antes de Lynch, muito mais maluco e ousado.

- Musashi - Trilogia Samurai, de Hiroshi Inagaki: obstinação e admiração mútua numa belíssima releitura da história de Miyamoto Musashi, também filmada por Mizoguchi (antes) e Uchida (depois), entre outros.


Escrito por sérgio alpendre às 02h17
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Amarelo Turner

Santa Fé do Sul, cidadezinha que conheci, em 1980, com menos de 5 mil habitantes. Podia andar por toda a cidade, mesmo com meus 11 anos. Foi o que fiz na época.

Voltei em 1984. Nada tinha mudado. Nas lojas de disco, uma nova dupla de nome esquisito, Chitãozinho e Xororó, fez com que eu e meu irmão nos acabássemos nas risadas. Nas lojas de disco, nada do rock que ouvíamos. Só sertanejo.

2000, a madrinha do meu pai ficou doente. Acompanhei-o em mais uma visita à cidade. Pouco tinha mudado. Uma universidade estava sendo construída. Fui visitar o local, na entrada da cidade, beira de estrada.

2013. Tudo diferente. "É mesmo Santa Fé do Sul?", pergunto à recepcionista do hotel, incrédulo. Cidade enorme, com trânsito, ruas arborizadas e praças imensas. Comércio bombando. O que uma universidade não faz?

Caminho para ver se reconheço algo do que testemunhei há 13 anos. Nada. É outra mesmo.

Na volta para o hotel, depois de tomar um sorvete que, pesado, custou exatos 6,66 reais (ah, se eu fosse supersticioso), me deparo com o mais lindo pôr-do-sol que vi desde que vejo cores.

O céu já estava bonito o suficiente, mas em determinado momento, um raio certeiro do sol deixou a avenida arborizada tomada por um amarelo que Joseph Turner sofreu para conseguir.

Tirei uma foto. Mas nem o mais hábil dos fotógrafos poderia captar tamanha beleza. Apaguei.

Lamentei não ser médium na hora. Desses que dominam o astral. Teria tentado receber o gênio pré-impressionista para que ele criasse uma outra obra-prima com aquilo que estava acontecendo diante de meus olhos.

O que ver no cinema de hoje, depois disso?



Escrito por sérgio alpendre às 19h57
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Oz

Foi uma grande surpresa ter gostado de Oz: Mágico e Poderoso. Mesmo sendo de um diretor que respeito por quase tudo que fez, Sam Raimi, e mesmo tendo James Franco e Michelle Williams nos papéis principais, me surpreendi bastante com o resultado final.

O filme abre corajosamente com uma longa sequência (de mais de vinte minutos) em janela bem menor e em preto e branco. Nossas retinas se habituam com o monocromatismo e recebem com um choque as cores excessivas em scope que chegam depois do furacão.

Esse princípio das cores é o grande risco corrido por Raimi. É tudo tão artificial que nos perguntamos se a presença de Mila Kunis ali, excessivamente maquiada, não é um trabalho super avançado de rotoscopia. Esse estranhamento demora uns dez, quinze minutos. As coisas entram nos eixos depois, e são encantadores os agradáveis personagens secundários, principalmente o macaquinho alado e a garota de porcelana, fiéis companheiros do mágico de araque.

A homenagem à magia do cinema me pareceu melhor trabalhada do que em Hugo (e menos exibicionista também). Gosto de ambos mais ou menos com a mesma intensidade, mas Oz é mais eficaz ao estabelecer a ilusão como uma força das imagens em movimento.

Para encerrar, um Top 5 Sam Raimi (avisando que não revi nenhum de seus filmes, ou seja, o ranking pode já ter nascido ligeiramente desatualizado):

1) Dois Heróis Bem Trapalhões (Crime Wave, 1985)
2) A Morte do Demônio (Evil Dead, 1983)
3) Homem Aranha 2 (Spiderman 2, 2004)
4) Rápida e Mortal (The Quick and the Dead, 1995)
5) Arrasta-me Para o Inferno (Drag me to Hell, 2009)

obs: Oz Poderia entrar nesse TOP (em quarto ou quinto), mas prefiro esperar um pouco para ver como ele fica na memória.

obs 2: Não gosto de Army of Darkness e The Gift, que nunca foram revistos.

ATUALIZAÇÃO: Troquei o segundo Evil Dead pelo primeiro. Revi os dois e o primeiro se mostrou bem superior. Acabou roubando o segundo lugar de Spiderman 2.


Escrito por sérgio alpendre às 23h02
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Pequeno apanhado - coisas ruins

- Tremenda decepção com Killer Joe, de William Friedkin. Não que eu esperasse alguma coisa do diretor à esta altura. Desde Viver em Morrer em Los Angeles ele só fez um filme que preste, Caçado. Mas esperava ao menos algo do quilate de um Possuídos, algo fraco com um ou outro achado. Killer Joe é constrangedor, na maneira como filma uma família à beira da infantilidade, com uma decupagem equivocada nos interiores, e na incapacidade de Matthew McConaughey de sustentar o tom propositadamente exagerado de seu personagem. Fora isso, a impressão que passou é de que a peça que serviu de base ao filme também é muito fraca.

- Indomável Sonhadora é ainda pior. Veio acompanhado de elogios da Sight and Sound, predominância de duas estrelas (cotação positiva) na Cahiers du Cinema e outras coisas mais, quando de fato é uma bomba indescritível. Não esperava muito da Cahiers. Delorme é um bom crítico, mas costuma defender muitas coisas indefensáveis. Mas não imaginava que fosse defender algo tão grotesco e lamentável quanto esse aborto cinematográfico. As imagens são medonhas, e o pior é que não podemos nem ouvir o filme, pois uma narração besta acompanha quase todas as cenas. Isso, sim, é tortura.

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ATUALIZAÇÃO: Carlos Quintão (a quem agradeço) avisa que a crítica da Sight and Sound destroi Indomável Sonhadora. Bom, obviamente me confundi.



Escrito por sérgio alpendre às 20h23
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Novo apanhado - sobre gênios

- Saiu o novo disco de David Bowie. Quem me conhece sabe que o considero um gênio, à altura dos grandes músicos da história. Bowie passou por diversas fases diferentes, sempre ensinando como se faz. Quando bandeou para o eletrônico, fez obras-primas como Outside e Earthling. Depois deste último, lançou discos legais, mas a genialidade parece ter se distanciado. Aparecem traços dela, mas em momentos esporádicos (mais em Heathen, por certo o melhor entre os últimos). Este novo, The Next Day, choca pela simplicidade. É uma nova busca pelo básico, dentro do que esse básico representaria em 2013. Você começa a ouvir e pensa: ok, é um bom disco, mas pouco vindo de um gênio que passou dez anos sem lançar nada. Aí chega uma música de batida insinuante, "If You Can See Me", depois o refrão de "I'd Rather Be High", e você pensa que o miolo do disco revela a genialidade que parecia perdida. Mais do que procurar genialidade aqui e ali, devemos escutar com atenção, e dar novas chances ao disco. Parece ser daqueles que se revelam especiais aos poucos.

- Hitchcock é o segundo filme de Sacha Gervasi, ex-roadie que havia estreado no cinema com The Story of Anvil, uma história de amor (ao heavy metal, mas sobretudo entre dois amigos de infância que fundaram a banda). Em Hitchcock, você tem que se acostumar com a maquiagem de Anthony Hopkins, ator chamativo demais para fazer um gênio do cinema. Hitchhopkins. São duas personalidades fortes se chocando como duas locomotivas. Demora um pouco para nos acostumarmos. Quando isso acontece, fica mais evidente que o filme trata de outra história de amor, entre Hitch e Alma Reville, sua grande parceira desde o início. Uma fala ao menos é fenomenal. Alma menciona que ele demorou 30 anos para dizer o que ela sempre quis ouvir, ao que Hitch responde: "é por isso que me chamam de mestre do suspense".



Escrito por sérgio alpendre às 22h43
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Apanhado

- Essa guitarra oitentista, na linha de Cris Oliva do Savatage, ainda faz minha cabeça. Gosto da sonoridade e da melodia dessa bela música da banda inglesa Chateaux. Eles eram da fase final da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), e lançaram o poderoso disco Firepower em 1984. É o som que os deuses escutam entre os trovões da mais tenebrosa tempestade. Ouça aqui, caso goste de Heavy Metal dos anos 80:

http://www.youtube.com/watch?v=njk2m3kpCoM

- Oscar 2013 bateu o de 2012 em matéria de chatice. Gosto, com reservas, de apenas três filmes: As Aventuras de Pi, Amor e Django Livre. Nenhum deles merecia ganhar se a Academia pudesse ser levada a sério. Nem indicação mereciam. E coisas como Indomável Sonhadora, me desculpem, é de estragar a retina.

- O grande Kevin Ayers morreu em 18 de fevereiro. Fiquei sabendo só agora. Figura importantíssima do Canterbury Sound, Ayers participou da primeira formação do Soft Machine, e tocou com um dos meus heróis da guitarra, Ollie Halsall. Lançou grandes discos até pouco tempo. The Unfairground, de 2007, foi o melhor disco daquele ano.

- Linha de Passe pisou na bola na última segunda. Primeiro José Trajano e Paulo Andrade caçoaram de um jogador, Clodoaldo, que, segundo eles, seria incrivelmente feio. Juca Kfouri e Paulo Vinícius Coelho não entraram nessa. Depois, Antero Greco cortou a despedida de Márcio Guedes no meio para levar o bolo de aniversário de setenta anos do Juca. Não passaram mais a palavra ao comentarista do Rio.

- Na Neblina, quem diria, é bom. Loznitsa estreou em ficção com o sofrível Minha Felicidade, mas desta vez acerta e faz um filme tocante sobre honra e o sentido de viver sob o signo da injustiça.

- Revendo filmes de Howard Hawks. Não tem pra ninguém. E Cary Grant é um gênio (não me refiro tanto a Levada da Breca e O Inventor da Mocidade quanto a Paraíso Infernal e A Noiva Era Ele). Quem for de Belo Horizonte, prepare-se para o deleite. Quem não for, prepare-se para viajar.



Escrito por sérgio alpendre às 00h54
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Sobre o suposto vazio artístico em que vivemos

Em 2003, Robin Wood escreveu: "A época em que vivemos é dominada pela ciência e pela tecnologia, portanto, pela suposição de que tudo que valha a pena ser dito pode e deve ser suscetível a prova: você pode provar que certo tema é recorrente em uma dúzia de filmes noir, mas não pode provar, de uma maneira definitiva, que Fuga do Passado é melhor que Pacto de Sangue, ou por quê. Um juízo de valor não pode, por sua própria natureza, ser comprovado." Clement Greenberg já havia dito algo semelhante (comparando dois poemas de uma maneira bem interessante) em texto reproduzido no livro Estética Doméstica.

Pois é, não tem como provar. Como, então, muitos reclamam da série de artigos da Carta Capital dizendo que fulano não tinha visto/lido/ouvido filmes, obras, livros, discos que provam que o cenário não é vazio como pintam? Quer dizer que a pessoa tem de adorar filmes como O Som ao Redor, Doméstica ou O Céu Sobre os Ombros, senão passa por alienada? Tem de adorar Criolo? Os gêmeos?

Vou me limitar ao cenário cinematográfico, sobre o qual estou muito mais atualizado. Supõe-se que tais filmes sejam honrosas exceções (a arte) em meio à regra dominante de sempre (a cultura), quando na verdade as exceções são cada vez mais raras (no mundo, não só no Brasil). Entendo que seja mesmo melhor ver esses filmes, sob o risco de ficar encastelado e atirar em vão (algo que, penso, não foi o que os articulistas da Carta fizeram - provavelmente não viram os filmes, mas não atiraram em vão). Ver tais filmes, por outro lado, não nos dá um passaporte para a festa, para a constatação de que o panorama é maravilhoso.

Pois bem, vi quase todos os filmes brasileiros elogiados por grande parte da crítica, senão todos. Gosto de alguns, acho outros superestimados ou irregulares. Nenhum, porém, desde Serras da Desordem (2006), pode ser chamado de especial. E lá se vão mais de sete anos da primeira apresentação pública do filme (em Tiradentes, como me avisou o Marcelo Miranda, não em Gramado). Antes de Serras, neste século 21, somente O Signo do Caos atinge esse status de exceção. Não creio que se possa incluir os ótimos Moscou e Garotas do ABC como exemplos de que não há esse vazio no cinema brasileiro. (E obviamente não posso provar).

A meu ver, a crise existe, sim, e pode até ser temporária. Acho necessário um período de adaptação a este momento em que tudo importa, e consequentemente nada importa; de excesso de opiniões e informações que inunda o mundo virtual. Mas preocupa esse medo irracional da generalização presente em críticas mais amplas (como no antológico texto "A Publicidade Venceu"). Acho que foi o Greenberg mesmo que falou que está na generalização o melhor caminho para uma crítica eficaz a um estado das coisas, e o princípio para um debate mais rico sobre arte. Patrulhar as generalizações, portanto, é um modo meio tacanho de tentar calar aqueles que não embarcam no bonde irresponsável do suposto cinema autoral brasileiro.

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P.S.: Outro dia constatei que o último filme a ganhar nota 10 no meu caderno de filmes foi de 2007 (e foi um só, o último de Rohmer, coincidentemente). Isso me assustou. Todos os anos anteriores tiveram no mínimo uns quatro filmes com a nota máxima nas minhas anotações. A grande maioria deles foram vistos e obtiveram tal distinção pessoal na época em que foram lançados. Como o cinema passou de ter entre três e cinco obras-primas absolutas por ano para nenhuma nos últimos cinco anos (2008-2012)?



Escrito por sérgio alpendre às 20h34
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Horror americano de 1977: dois filmes revistos

Foi um bom ano para o terror made in USA. Teve Martin, do George Romero, insuperável. Teve também o Audrey Rose do Robert Wise, que minha memória diz ser bem interessante; algo semelhante posso dizer de Geração Proteus, que só conheço da televisão, cortado e dublado; além do injustiçado Exorcita II - O Herege, de John Boorman, que é quase tão bom quanto o filme do Friedkin. Revi dois filmes produzidos em 1977: The Car e Quadrilha de Sádicos.

Nesse ano, até o medíocre Elliot Silverstein (de Cat Ballou e Um Homem Chamado Cavalo) se deu razoavelmente bem com The Car, um autêntico filme B dos anos 50 atualizado para a década do sangue. Entre Duel e Christine, passa vergonha. Mas seus momentos fortes ficam. Dois em especial eu lembrava da época em que o filme passava toda hora na TV aberta: quando o carro não entra no antigo cemitério e quando invade a casa (este último é momento é responsável pelo grande plano do filme: as luzes se aproximando da janela e da câmera).

Quadrilha de Sádicos é provavelmente o melhor filme de Wes Craven. Nele, excluídos da América se rebelam contra os arquétipos da América ideal que invadem seu território: o pai policial, a matrona, os jovens esportistas e o novo casal sexualmente superativo, com seu bebê WASP e seus cachorros guardiões das virtudes. Para sobreviverem, os americanos limpos e invasores devem sujar as mãos com o sangue de uma década em que os monstros, que antes ficavam quase sempre no fora de campo, passaram a invadir frequentemente o campo. Quadrilha de Sádicos é uma bela metáfora para a violência e o horror que se apossaram do cinema americano pós-Vietnã (lembrando também de Psicose e do assassinato de JFK).



Escrito por sérgio alpendre às 22h36
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Gosto... não gosto (esquizofrênico)

- Não gostei de Os Três Patetas. Os irmãos Farrelly passaram 90 minutos sem me provocar sequer uma risada. É a primeira vez que isso acontece. Mesmo em Passe Livre, filme bem irregular, há momentos hilários.

- O mesmo posso dizer de O Lado Bom da Vida, o filme mais desinteressante de David O.Russell. Há uma química entre Jennifer Lawrence (mais bela que nunca) e Bradley Cooper. Mas a histeria geral é meio constrangedora, e as cenas familiares formam uma grande presepada.

- Gosto muito do cinema feito no Brasil na segunda metade dos anos 1960. Gosto do que foi feito na primeira metade também, mas menos. Foi bom rever Desesperato, lançado agora pela Lume dentro da coleção Cinema Marginal. É um belíssimo filme de Sérgio Bernardes, com influência da Nouvelle Vague japonesa (sobretudo de Oshima), e de Fernando Birri, Alea, Antes da Revolução. Tem uma ótima atuação de Raul Cortez, e um dos finais mais acachapantes do período.

- Gosto de dar aulas. Descobri isso há poucos anos. Um amigo me perguntou outro dia: "você não se confunde com tantos cursos diferentes num mesmo ano?" Respondi que não, que é muito estimulante, ao menos para mim, mudar de registros (do cinema americano ao brasileiro, do japonês ao francês, do clássico ao moderno, dos blockbusters aos filmes autorais, e as misturas possíveis dentro disso). Por vezes faço confusão. Nada que comprometa os cursos, claro. E a possibilidade de se fazer conexões impensadas entre os diversos gêneros e períodos históricos é maior.

- Não gosto de aniversários. Não me refiro às festas, mas sim à importância exagerada que as pessoas dão a tais datas. O acúmulo de parabenizações pelo Facebook me parece tolice. Talvez seja por isso que eu fique deprimido nas proximidades de meu próprio aniversário, e isso acontece desde a adolescência. Inferno astral? Não creio. Mas também não dou as costas.



Escrito por sérgio alpendre às 18h11
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Esquizopost

- A 16ª Mostra de Tiradentes acabou. É um festival dos mais agradáveis de acompanhar, muito mais pelos encontros e conversas (sempre inspiradoras) do que pelos filmes (que, salvo um ou outro, ficam rés ao chão). Um longa acima da média, pelo menos, da turma da Alumbramento: Doce Amianto. Já saudaram como obra-prima, alguns exagerados. O filme não tem culpa disso. Criou-se, na verdade, o mito Tiradentes, por méritos de um trabalho competente de curadoria, e de um marketing para descolados das redes sociais. O que passa lá é o que vale em matéria de cinema brasileiro. Até o mito cair, muitos enganos serão cometidos (por parte da crítica). E quando o mito cair, talvez os enganos sejam ainda maiores.

- Circuito em polvorosa, como há muito tempo eu não via. Django Livre, Amor, Lincoln, O Mestre, O Lado Bom da Vida, O Último Desafio, Caça aos Gângsteres, Além das Montanhas, O Som ao Redor, Caverna dos Sonhos Esquecidos. Não é questão de serem bons. Alguns não são, outros não sei. São filmes que tenho vontade de conferir, que podemos discutir, que provocam, afinal, algum sentimento.

- Then Play On (1969). Terceiro disco do Fleetwood Mac. Último com o fundador, Peter Green, segundo com o genial guitarrista e compositor Danny Kirwan, mestre das melodias bucólicas semi-progressivas. É um discaço, Dentro da discografia deles, só perde para Bare Trees (1972), e por muito pouco. Faz a ponta do blues inglês dos primeiros discos para o rock sofisticado que culminaria em Rumours, depois de uma das mais longas e inspiradas fases de transição (1969-1974) da história do rock.

- Amanhã é dia de Super Bowl. Comecei a me apaixonar pelo futebol americano em meados dos anos 1980, quando a Bandeirantes passava as finais da NFL. Aprendi que o equivalente ao Corinthians é o New York Giants, e como não tinha motivo para torcer para outro time, passei a torcer por esse. Ano passado foi nosso. Este ano é de San Francisco 49ers ou Baltimore Ravens. Simpatizo com os dois. Mas confesso que desta vez estou mais para os Ravens, assim nomeados em homenagem a Edgar Allan Poe.



Escrito por sérgio alpendre às 20h47
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Avisos

O Império do Desejo, de Carlos Reichenbach

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- Está em pleno curso a mostra Carlos Reichenbach, na atualmente turbulenta Sala Cinemateca. Não entendo muito a razão de exibirem a maior parte das sessões na Sala Petrobras, bem inferior à Sala BNDES. Mas foi bom rever a obra-prima do diretor, O Imperio do Desejo, mesmo na sala menor. Carlão se saía melhor com o formato episódico e mais livre, encontrado também em Filme Demência e Alma Corsária. É quando ele dá vazão às suas viagens intelectuais sem deixar de se atrelar ao gênero de sucesso do momento, a pornochanchada. É assim com O Império do Desejo, que se aproveita dos dois longas de Oshima lançados pouco antes no cinema brasileiro: O Império dos Sentidos e O Império da Paixão.

Ontem vi O Paraíso Proibido, filme menor que eu desconhecia, e o magistral Amor Palavra Prostituta, em sua versão integral, com cópia nova. Na saída, pude conhecer a excepcional atriz Patricia Scalvi, apresentada pelo Inácio Araujo.

A mostra continua até dia 17 de fevereiro, com todos os filmes do diretor exceto dois: A Ilha dos Prazeres Proibidos e o episódio para As Safadas.

- Dia 30 de janeiro começa, no CCBB e no Cinusp, uma mostra com 33 filmes do grande diretor experimental americano (de origem lituana) Jonas Mekas. Talvez melhor que chamá-lo de experimental seja chamá-lo de memorialista, ou algo parecido. Seus filmes mais famosos são também os melhores: Walden (Diaries, Notes and Sketches), Lembranças de uma Viagem à Lituânia e Lost Lost Lost, realizados entre 1969 e 1975.

- Um pouco de autopropaganda agora: começará no próximo dia 29, na Casa do Saber, o curso O Poderoso Chefão e a Era do Blockbuster. Serão quatro aulas, ministradas por mim, sobre as possíveis leituras suscitadas por um blockbuster, desde as entrelinhas até as mais óbvias, que sugerem o poderio do império americano. Discutiremos, entre outras coisas, com o auxílio de filmes e textos, o conceito de Blockbuster: o que é? Quando nasceu? Como se modificou? Mais informações aqui:

http://casadosaber.com.br/sp/cursos/ferias/o-poderoso-chefao-e-a-era-dos-blockbusters.html

Em abril, a quinta edição do Panorama do Cinema Japonês, que desta vez será realizado aos sábados. Fiz algumas modificações no curso, baseado na experiência dos últimos dois anos. Em breve divulgo aqui.



Escrito por sérgio alpendre às 15h58
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Melhores filmes de 2012

A principal diferença entre esta lista e a que fiz para a Interlúdio (a ser publicada nos próximos dias) é que lá fui voto vencido e só irão valer as estreias paulistanas. Aqui, como sempre, são as estreias brasileiras, e desta forma, As Praias de Agnès e Caminho para o Nada foram desclassificados por terem estreado em outras praças ainda em 2011.

Pessoalmente, acho que o número está inflado. Não existem mais de vinte filmes num ano que sejam dignos de entrar numa lista de melhores, ainda mais se nos limitarmos apenas às estreias comerciais. Uma lista assim inflada é picaretagem, que eu cometo aqui conscientemente. Por isso separo os dez primeiros dos dez seguintes. É uma forma de brincar com a possibilidade de citar alguns outros filmes bons do ano.

Alguns me surpreenderam positivamente, como vimos em alguns dos posts de janeiro. Um dos que não postei e me surpreendeu é Os Descendentes, de longe o melhor filme de Alexander Payne. Gostei também de Tomboy, dos que eu lembre (alguns foram vistos há mais tempo e sumiram da lembrança). Sem mais, vamos aos dez escolhidos, mais os dez de um hipotético lado B.

1. Essential Killing (2010), de Jerzy Skolimowsky

2. Mistérios de Lisboa (2011), de Raoul Ruiz

3. Habemus Papam (2011), de Nanni Moretti

4. As Quatro Voltas (2010), de Michelangelo Frammartino

5. Cosmópolis (2012), de David Cronenberg

6. O Homem Que Não Dormia (2012), de Edgard Navaro

7. Looper (2012), de Rian Johnson

8. O Moinho e a Cruz (2010), de Lech Majewski

9. Memórias de Xangai (2010), de Jia Zhang-ke

10. A Vida Útil (2010), de Federico Veiroj

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11. Luz nas Trevas (2011), de Helena Ignez e Ícaro Martins

12. Holy Motors (2012), de Leos Carax

13. Um Verão Escaldante (2012), de Philippe Garrel

14. J. Edgar (2011), de Clint Eastwood

15. Os Vingadores (2012), de Joss Whedon

16. Faça-me Feliz (2008), de Emmanuel Mouret

17. 007 – Operação Skyfall (2012), de Sam Mendes

18. Ha-ha-ha (2010), de Hong Sang-soo

19. A Separação (2011), de Asghar Farhadi

20. Isto Não é um Filme (2010), de Jafar Panahi

MENÇÕES DE REESTREIAS:  Quanto Mais Quente Melhor, Cabra Marcado Para Morrer.



Escrito por sérgio alpendre às 23h09
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16ª Mostra de Tiradentes

Caros, este post é para avisar que a vinda a Tiradentes impediu que eu lançasse a lista dos meus preferidos de 2012. Faço durante a próxima semana.

Por enquanto, há a cobertura na Interlúdio (feita a quatro mãos), e pelo menos um post deve pintar com um breve resumo desta 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, aqui no chip hazard.

Voltarei a São Paulo em tempo de acompanhar a imperdível mostra quase integral dos filmes de Carlos Reichenbach, na Sala Cinemateca (quase tudo em película nova).



Escrito por sérgio alpendre às 19h42
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Tarantino e Lula

Django Livre estreia na próxima sexta-feira, 18 de janeiro. Deve acontecer mais uma vez o que tem acontecido nos últimos anos: Tarantino será atacado ou defendido passionalmente e quase sem meios termos. Os que o adoram farão vistas largas às inúmeras bobagens do novo filme. E os que o detestam ignorarão o que o filme tem de bom.

Acontece algo parecido com Lula (que me perdoem pela comparação), nosso ex-presidente que é geralmente amado ou odiado, de maneira cega e sem reflexão. Podemos até estender essa bipolaridade ao governo do PT, cheio de problemas e qualidades, raramente balanceadas pelos eleitores apaixonados e militantes bobocas de facebook. Mas é a respeito de seu maior líder popular que os ânimos se manifestam, contra ou a favor.

Sei que nestes tempos em que a regra é ficar em cima do muro, defesas e ataques apaixonados são bem-vindos. Mas há certo exagero nessas polaridades, justamente nesses dois casos, porque os filmes e os governos de tais pessoas, suas características e nuances, são complexos o suficiente para merecerem matizes mais sinuosas.

Tarantino e Lula são carismáticos, talentosos, mas frequentemente tolos em declarações e cheios de idiossincrasias sabotadoras de seus projetos. Um flerta perigosamente com a frouxidão narrativa e com cacoetes de um novo autorismo; outro é deslumbrado com o poder, chegado a alianças nefastas e favorece demais os bancos. A ambos falta noção e equilíbrio. Não são demônios nem santos. Bem longe disso.



Escrito por sérgio alpendre às 01h00
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Encerrando 2012 - Parte 4

1) Dredd não faz feio a O Juiz, que Stallone protagonizou em 1995 vivendo o mesmo personagem de quadrinhos. O filme de Pete Travis prega a visibilidade nas cenas de ação, ou seja, entendemos o que está acontecendo (em vez da confusão visual de quase todos os filmes de ação atuais). Nisso os dois são parecidos. Ambos têm um jeito John Carpenter de ser (guardadas as proporções), um cuidado com a composição. As histórias, no entanto, são bem diferentes. Esse novo não tem Stallone, que esmerilha no antigo (seu "class dismissed" após uma palestra para novatos é inesquecível). Tem, no lugar, um rosto por trás de uma máscara, e uma boca torta à mostra. Mas ficamos livres de Rob Schneider, que está insuportável, como sempre, como o ajudante chato e involuntário do filme de 1995. No lugar dele, a graciosa Olivia Thirlby.

2) Polissia poderia ser melhor, caso a diretora Maiwenn tivesse alguma noção de como montar o filme na câmera. O resultado parece emendado com fita crepe vencida. Às vezes descola e fica parecendo uma coletânea de cenas montadas por sorteio. As situações são fortes, as atrizes estão muito bem (os homens nem tanto, salvo Frédéric Pierrot), e o tom é quase sempre satisfatório, embora se exceda na histeria. Faltou mesmo a noção de tempo do corte, de resolver as coisas na câmera em vez de deixar tudo para depois.



Escrito por sérgio alpendre às 17h31
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Encerrando 2012 - Parte 3

Zoe Kazan é Ruby Sparks

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1) Confesso que não esperava por esta: Ruby Sparks, filme dos mesmos diretores de A Pequena Miss Sunshine, roteirizado pela neta de Elia Kazan (que também atua como a personagem título) e estrelado por um cara meio chato, Paul Dano, é bacana. Chega até a ser um filme de horror enviezado, e mais assustador que a maior parte dos filmes de horror atuais, quando o escritor vivido por Dano prova que pode controlar as ações de sua criação, a adorável moça comum chamada Ruby. É um momento bem forte, e o filme tem esse mérito: de nos deixar a possibilidade de uma discussão sobre a interferência na vida de outra pessoa, sobre a mania que temos (por vezes em segredo) de querer controlar (ou vigiar, mudar) a vida de quem gostamos.

2) Em compensação, Billy Ray (o sólido diretor de O Preço de Uma Verdade e Quebra de Confiança) e Gary Ross, diretor de Pleasantville, decepcionam como roteirista e diretor, respectivamente, do blockbuster Jogos Vorazes, o Zardoz do século 21. O roteiro de Ray (com Susanne Collins e o próprio Ross) não vai além do beabá de ficções-científicas que retratam disputas pela sobrevivência, com o tirano, o bonachão do bem, o apresentador afetado e o frio maquinador da disputa. A direção de Ross adota a câmera que precisa chacoalhar o tempo todo, atrapalhada ainda mais por cortes dentro dos movimentos bruscos; é a agitação a qualquer preço, o contrário do estilo moderno e elegante de John Boorman.



Escrito por sérgio alpendre às 23h06
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