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Pílulas

Três filmes em cartaz. Somados, não dão um Toque de Mestre, o surpreendente suspense de Eugenio Mira.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho sucumbe ao exagero do politicamente correto. É cálculo o tempo todo. Todos são tratados com muito carinho e compreensão. Até mesmo quem faz bullying (aliás, bullying de meia pataca). Nada contra um retrato fantasioso do mundo, mas o cálculo excessivo faz com que o filme todo fique numa camisa de força.

Capitão América 2: uma aula de como se estragar a melhor franquia de super-heróis desde O Homem Aranha do Sam Raimi. Joe Johnston caiu fora da produção. Talvez tenha começado aí o engano. Anthony e Joe Russo são incapazes de filmar cenas de ação, e esta segunda parte tem muito mais ação que a primeira. O resultado é um dos blockbusters mais insuportáveis dos últimos tempos. E olha que a concorrência é brava. 

Noé, por outro lado, parecia que ia ser um novo recorde de ruindade, mas não é tão ruim quanto pintaram, nem quanto as primeiras cenas indicam. É fraco, mas visto depois de Capitão América 2, soou como um certo descanso para os olhos. A afetação de Aronofsky é normalmente bem entediante, mas aqui está controlada, talvez pelo peso da produção. O filme ainda se veste interessantemente contra o fanatismo religioso, e o momento em que Noé poupa as netas lembra foi pensado provavelmente como uma alusão a Ethan Edwards, de Rastros de Ódio, pegando Debbie no colo e dizendo "Let's go home, Debbie". Heresia, mas ao menos não machuca os olhos como esses blockbusters cheios de explosões que somos obrigados a ver.


Escrito por sérgio alpendre às 00h11
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A Árvore dos Tamancos por Orlando Fassoni

"Temos aí, portanto, um painel construído à margem de discursos e à base dos acontecimentos rotineiros dessas pessoas ingênuas que não experimentaram os odores de uma civilização já poluída na passagem de sociedade rural para a industrial. Um afastamento que faz, por exemplo, com que todos parem o trabalho por um momento ao ouvirem o fonógrafo do patrão tocando uma ópera, ou a se excitarem com as cores do parque de diversões instalado no povoado. Olmi, ao extrair desses seus personagens o que eles têm de mais puro, nos presenteia com um cortejo de situações e de diálogos (o dialeto bergamasco) traduzido por uma narrativa montada segundo a própria sequência dos acontecimentos. Desta forma, podemos acompanhar ora o velho Anselmo, cultivando a terra, para depois, no final, vê-lo emocionado vendendo seus tomates no povoado; o início da corte do jovem da aldeia à moça da colônia, até o ritual do casamento de ambos e a lua-de-mel no convento onde a tia da garota é superiora; a falna diária da viúva Runk, que lava roupas para ganhar as migalhas e ter a polenta na mesa, e toda a sua resignação ante a adversidade; e o processo a que Battisti se submete, ao romper as ordens, pagando caro o preço de seu amor ao filho que colocara na escola para que não fosse outro como ele, marginalizado por um sistema social em que as vontades do patrão superavam todas as possíveis condições de resistência coletiva.

Nesse processo, todos são solidários. Trabalham, cultivam, colhem, entregam dois terços ao patrão, ficam com o mínimo para o sustento, envolvem-se nas dores (o parto do filho de Battisti) e nas alegrias (as noites de frio em que todos ouvem as histórias inventadas por um ou outro). Não há solidão nessa colônia onde uma criança é outra boca faminta, onde a ingenuidade e a pureza interior de cada ser se comprazem em aceitar seus mitos, a acatar ordens com extrema resignação, a esperar milagres das benzedeiras e a fazer previsões através de rimas tradicionais ('lua com coroa é neve que se amontoa', canta o velho Anselmo). 'A Árvore dos Tamancos' é, assim, uma obra que, acima de tudo, dignifica o homem no seu estado mais pungente de pária social submetido a um universo que, embora o oprima, não lhe arranca jamais as suas virtudes, não transforma sua sabedoria nem tolhe o seu intransigente sentido de solidariedade, amor e busca da riqueza na simplicidade dos atos. obra-prima. Uma lição de vida."

* Quinto e sexto dos seis parágrafos da crítica de Orlando L. Fassoni para a Folha de S.Paulo, 15 de novembro de 1979.

* * Tirado do Acervo Folha



Escrito por sérgio alpendre às 23h17
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Alemão

"Tem o Muller, o Bismark e o tal do alemão. Jogadores que, pelo nome, erraram de seleção."

Foi inevitável. Durante a sessão de Alemão, de José Eduardo Belmonte, lembrei algumas vezes dessa paródia musical feita pela 89 FM de São Paulo em cima da música "O Pulso", dos Titãs, logo após a derrocada da seleção brasileira na Copa de 1990. Mas o filme está longe do desprezível.

Concordo com o Inácio: falta respiro para a câmera. Tudo filmado de perto, capta-se pulsações e respirações, mais do que um espaço definido. Em vez de nos colocar no miolo da tensão, nos afasta. Mas do que mais senti falta foi de tempo maior em cena para o Playboy composto por Cauã Reymond. Senti que dali poderia vir algo grande, que o dono da boca deveria ser o maior personagem do filme. Era, certamente, o mais enigmático. 

Infelizmente, houve a preferência pelos enclausurados, e principalmente pelos personagens do Caio Blat e do Milhem Cortaz, que são meio caricaturais. O primeiro se justifica apenas quando entra o drama do pai delegado (que não achei ruim no filme), interpretado por Antonio Fagundes. Na clausura da pizzaria, quem se destaca é Otávio Muller, mesmo que às vezes parecesse perdido. 

É uma pena quando um longa desse tipo, que toca em tema pertinente sem cair na demagogia de praxe, não chega a decolar.


Escrito por sérgio alpendre às 20h42
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Assuntos diversos

- Órfão da NFL, tenho de me virar com o futebol. Se o brasileiro está insuportável, fico no internacional, mesmo com toda a ajuda que o Barcelona leva dos árbitros. Por sinal, não aguento mais o Barcelona. Torço até para o Real Madri contra eles. Tomara que o Atlético de Madri leve o espanhol e os tire da Champions League.

- Demétrio Magnolli lembrou (a mim, que não sabia, ele informou) de duas edições da Veja, à época capitaneada por Mino Carta, elogiando (ou justificando, o que é pouco menos pior) os torturadores, em pleno governo Médici (o mais assassino de todos os governos brasileiros), 1970. A Veja teve também um longo histórico de críticas e denúncias contra o PSDB, durante os anos de mandato duplo do FHC, e já li que nos anos 1960 era uma das que mais esbravejavam contra os militares. Não é uma revista que tende sempre à direita, apesar de o ter feito ultimamente, e de modo voraz. Mas o mais espantoso: quando mais tendeu à direita, talvez por necessidade de sobrevivência, estava sob a direção de Mino Carta. Ainda não chequei as edições mencionadas por Demétrio no Acervo Digital da Veja. Em 1970 era possível alguém com miolos aprovar a ditadura militar. É possível, por outro lado, que ele tenha distorcido algumas palavras (velha estratégia política), como também é possível que tenha apenas lembrado algo que os mais velhos tentam esquecer. A ver...

- Aliás, que a ditadura não seja tratada, aqui, como é na Argentina (onde eles fazem de tudo para não esquecer a desgraça de seus anos de chumbo), não me surpreende. Brasil, paraíso da canalhice e da estupidez  - e se eu acreditasse na pesquisa do IPEA, que aponta o desesperador índice de 65% de brasileiros que concordam que as mulheres que usam roupas decotadas ou insinuantes mereçam ser atacadas, eu diria que é o caso de mandar tudo pelos ares e começar tudo de novo, porque com esse povo não vamos a lugar algum. Mas não acredito que esses números sejam possíveis. Sinceramente, não é possível estarmos já além do apocalipse. Ou a lavagem cerebral está sendo realmente eficaz.

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P.S. a imagem que ilustra o post é a capa do segundo disco da banda prog-psicodélica Second Hand, uma ótima pedida para quem gosta do som dos anos 60/70.


Escrito por sérgio alpendre às 19h41
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Assuntos tristes de cinema

- Ricardo Miranda, autor de Paixão e Virtude (foto), se foi. É mais um inconformado que nos deixa, enquanto o mundo (e o Brasil) fica cada vez mais desumano. Deixou um belo último filme como testamento, e algumas das palavras mais lúcidas ouvidas em Tiradentes 2014. Queria muito estar na homenagem de hoje no Cinesesc. Quero dizer: queria ter força para ir sem desmoronar de vez.

- Enquanto isso... Parece que nosso cinema está a mil maravilhas, cheio de filmes sensacionais, como andam dizendo no Facebook (incluindo críticos). Tudo bem que alguns filmes bons têm surgido. Mas não são tantos, e não são tão bons assim, salvo alguns poucos (o da foto acima, por exemplo). E nem estou sendo negativo. Pelo contrário: o fato de alguns filmes bons surgirem já é motivo para otimismo. Tiradentes é um festival bacana de acompanhar justamente para vislumbrar possíveis caminhos, para descobrir cineastas que, um dia, podem chegar lá. Mas essa festa toda não dá. 

- E a velha palhaçada de filmes presos na alfândega voltou a acontecer. Tiveram de exibir seis filmes do Kaneto Shindo em DVD por causa disso. Até quando esse crime vai acontecer? Está muito evidente que nossa alfândega está muito errada nesse caso, e nada acontece. Não se move um átomo para que isso termine. Que enterrem logo a difusão de arte deste país. Melhor do que deixá-la sempre sujeita à burocracia e insensibilidade de engravatados.


Escrito por sérgio alpendre às 00h37
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Autopropaganda

Não gosto muito de anunciar o que faço por aqui, mas, como dizia Buñuel, tenho cá minhas contradições, e vivo muito bem com elas. E tem tanta coisa absurda acontecendo que avisar leitores do blog de coisas em que estou envolvido e que podem interessá-los não me parece um grande mal. 

1) Tive a honra de participar do lançamento de uma coleção Mizoguchi com cinco filmes sensacionais: As Irmãs de Gion (1936), Senhorita Oyu (1951), Oharu - Vida de uma Cortesã (1952 - foto), Contos da Lua Vaga (1953) e Os Amantes Crucificados (1954). Gravei um depoimento no estúdio da distribuidora Versátil, conheci o curador Fernando Brito, cinéfilo de muito bom gosto, e associei meu nome a um dos meus dois diretores do olimpo (o outro é John Ford).

2) Hoje, quarta-feira, dia 19, começou no CCBB  a mostra Nouvelle Vague Tcheca - O Outro Lado da Europa, com filmes do importante movimento concentrado, de forma nuclear, entre os anos de 1963 e 1969. É uma oportunidade imensa de conhecer obras de cineastas importantes como Vera Chytilová, Jan Nemec, Frantisek Vlácil, Jaromil Jires, entre outros. No dia 27 participarei de um debate, ao lado de Gabriela Wondracek Linck, a curadora, e do crítico Leonardo Bonfim. 

Ainda estou revendo filmes, e indo atrás dos que não vi (os filmes elogiadíssimos de Evald Schorm, por exemplo, além de outros que não estão na mostra por limitação de datas e orçamento, presumo - é o caso de The White Dove, 1960, de um dos meus diretores checos preferidos, Frantisek Vlácil). Mas gostaria de indicar, para que não perdessem de jeito nenhum, os estupendos Marketa Lazarova (Vlácil, 1967), Fruto do Paraíso (Chytilová, 1969), A Festa e os Convidados (Nemec, 1966) e A Piada (que vi como A Brincadeira tempos atrás na Cinemateca; Jires, 1968). Além, claro, de dois que já existem em DVD no Brasil, lançados pela Lume, mas que vale muito ver em 35mm: As Pequenas Margaridas (Chytilová, 1966) e Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (Jires, 1969).

3) Por último, gostaria de anunciar que a oficina de crítica que ministrei no ano passado, na companhia de Inácio Araujo (quatro aulas cada), volta neste ano. Como normalmente acontece, a segunda edição de um mesmo curso tende a ser melhor do que a primeira. Faremos o possível para confirmar essa tendência. Mais informações aqui:



Escrito por sérgio alpendre às 22h01
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Outras palavras

Não vou falar do discaço do Caetano Veloso (de 1981), mas do lance do racismo (não o daquele filme chantagista do Oscar, mas o da vida real, muito mais forte). 

Um idiota xingou Arouca, o jogador do Santos, de macaco em Mogi Mirim. Punição para o clube, fechamento do estádio por um tempo. 

Concordo com Hélio Schwartsman, o colunista da Folha. Não adianta nada. Só não se pune o autor da ofensa se não se quiser punir. É simples. 

Faz tempo que se é conivente com as maiores atrocidades (como a dos selvagens espectadores de Campinas que surraram o casal que pedia silêncio, e que deveriam passar um bom tempo sob trabalhos forçados). Pode tudo nestes trópicos, virou terra "sem lei, sem alma" (para lembrar de mais um filme, desta vez positivamente).

Por outro lado, a punição é muito insignificante perto da grande mácula que é o sentimento racista. O sentimento de quem se acha superior por ser branco. O sentimento de quem é inferiorizado por algum estúpido com essa noção de valor. Isso só se elimina em muito tempo, muitas gerações, que trarão também novos preconceitos, novos e hediondos valores. 

É tudo tão triste...


Escrito por sérgio alpendre às 04h52
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Março

Fevereiro foi um mês difícil. Apenas um post. Ou meio, segundo certos critérios. 

Março tende a ser um pouquinho melhor, apesar de ter começado em banho-maria. Mas tentarei manter este blog atualizado. Não ganho nada por ele, mas gosto de mantê-lo vivo, sei lá por qual motivo.

Talvez porque, vejam só, ele completou 10 anos no último dia 25. Talvez porque eu ache ruim o visual impessoal dos posts no facebook e prefira a cor-de-burro-quando-foge deste espaço. 

Aqui entra quem quer. No facebook, de certa forma, também. Mas ali a concorrência se dá com futilidades tão assombrosas que eu prefiro manter minhas próprias futilidades aqui, para quem quiser procurar. 

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Passou o Oscar. Uma mórbida curiosidade me fez ver todos os longas antes da premiação. Bem, a Folha pediu algumas frases e apostas, então quis fazer a lição de casa da melhor maneira possível. Mas nem precisava, pois tirando Nebraska, todos os outros filmes vistos na véspera da premiação foram mais ou menos o que eu esperava. Incluindo Gravidade, o que me pareceu mais sólido, mesmo tendo suas bobeiras.

Nebraska é um filme simpático. Não diria isso numa crítica, mas aqui é permitido. Chega a ser quase bom. Não me surpreende tanto porque Os Descendentes havia mostrado uma nítida evolução na direção de Alexander Payne. Pelo menos em relação ao horrível About Schmidt.

Os piores são Capitão Philips, do assaz incompetente Paul Greengrass, e 12 Anos de Escravidão, do Steve McQueen errado, um exercício em demagogia do tipo que é adorado pela Academia de Hollywood. 

Mas Oscar é passado. Tem mostra legal de acervo rolando na Cinemateca, e logo mais começa uma sobre a Nouvelle Vague Tcheca (sim, assim como vários outros países do mundo, eles também tiveram uma) que promete. Além disso, tem mini-retrospectiva com seis filmes de Kaneto Shindo passando logo logo. 

E ainda em março, a Mostra de Tiradentes chega a sampa. Se passar o último Tonacci, vai justificar a itinerância. Tem A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, que vale ver, e Branco Sai Preto Fica, o novo e elogiado filme de Adirley Queirós. Perdi lá, verei cá.

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P.S. Nos comentários do último post me alertaram para a opção scorseseana de adotar uma sucessão de planos esquisita para espelhar a condição alterada do protagonista. Mas, pelo que lembro, a sequência que mais me saltou aos olhos pela continuidade toda zoada é justamente uma das poucas em que ele está sóbrio: o primeiro encontro com o personagem de Jonah Hill, na lanchonete.


Escrito por sérgio alpendre às 02h43
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Volta

O Lobo de Wall Street (foto) é o terceiro filme de Scorsese de que não gosto. Em alguns reconheço diversos problemas, mas no conjunto final prevalece o talento do diretor. Aqui ele parece ter saído de férias e entregado a direção a algum fã. É impressionante como os contracampos quase sempre revelam alguma falha gritante de continuidade (falhas desse tipo são vistas aos montes em alguns filmes clássicos hollywoodianos, e mesmo em outros do Scorsese, mas nunca com o grau de erro e a constância vistos aqui). Fora isso, o tom alucinado impresso pelo diretor, que antes encontrava um bom antídoto em Robert De Niro, um desses atores capazes de impor seu próprio tempo dentro de uma certa disritmia, com Di Caprio se torna ainda mais alucinado, como um trem bala desgovernado. A sensação é de extremo cansaço em meia hora de filme. No caso de um filme de 3 horas, a coisa fica realmente complicada.

- Na última sexta-feira, dia 14, o cri-crítico do Estadão reclamou que o Cinesesc ainda não adotou os malditos lugares marcados. O personagem misterioso deve ser escrito por um desses que gostam de tumultuar as sessões entrando com o filme já começado e procurando o lugar escolhido pela internet. Fosse eu o presidente deste país, a prática dos lugares marcados seria terminantemente proibida.

- Finalmente vi um dos filmes de título mais bacana que conheço: Come Back to the 5 and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean, realizado por Robert Altman em 1982. No Brasil, teve o título chinfrim de James Dean - O Mito Sobrevive. É da fase em que o diretor filmava peças de teatro com orçamento minúsculo. Um tanto cansativo, como vários outros de Altman (incluindo os outros dessa fase), mas Sandy Dennis arrasa.


Escrito por sérgio alpendre às 04h05
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Jean Douchet sobre Mizoguchi

Sobre Os Amantes Crucificados (foto):

Vejam, neste filme: é a mulher que toma a iniciativa, nunca o homem. O homem faz parte daqueles que sublimam totalmente a mulher, a inacessível, a intocável. E a mulher o obriga a aceitá-la como mulher, e não como a imagem etérea pela qual está eternamente apaixonado e sequer pode pensar que um dia terá tal mulher nos braços. Nesse sentido, Os Amantes Crucificados é a encarnação do que haveria de mais bonito no ideal masculino, nesse universo masculino que idealiza a mulher para, de fato, melhor dominá-la, submetê-la. Ao mesmo tempo, como nos mostra Mizoguchi, essa personagem destrói o próprio sistema masculino, que de fato é inútil.

Sobre Rua da Vergonha:

A revolta de Mizoguchi abrange todos os níveis, mas em primeiro lugar é fundamentalmente contra o Japão, onde não se respira. Isso já não acontece com Ozu. Ozu respira muito bem no Japão. Por isso Ozu e Mizoguchi se detestavam cordialmente. No último filme de Mizoguchi, Rua da Vergonha, vemos claramente que ele faz um Ozu, e quer fazer melhor. Quer dar uma lição a Ozu. Ozu, porém, teria sido incapaz de fazer um Mizoguchi, pois é muito fechado; Renoir pode fazer um Bresson, mas Bresson não pode, de modo algum, fazer um Renoir. São cineastas profundamente abertos, que trabalham a abertura. E este filme, se olharmos com atenção, embora se passe num universo completamente fechado, amarrado (e não é à toa que as pessoas estão realmente amarradas), possibilita ao menos uma abertura possível. Devemos nos orientar para a abertura. É esse o universo profundo. Desse ponto de vista, diremos que Mizoguchi é um otimista enérgico, que parte da desgraça. 

Quando as opressões sociais são tão fortes que não se pode escapar, depara-se com a morte. Contudo, todos sabem muito bem que sempre a vida acaba ganhando, e não a morte; é esse o ponto de vista de Mizoguchi: a vida ganha de qualquer jeito.. Retomamos a grande noção com o happy end. O happy end é uma mentira, já o final infeliz considerado como um meio de luta é uma abertura, um otimismo.

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trechos de palestra na USP, transcrita para o livro Mestre Mizoguchi, organizado por Lucia Nagib (tradução de Eloisa de Araujo Ribeiro).



Escrito por sérgio alpendre às 00h49
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Top 10 George Cukor

Hoje em dia George Cukor é considerado um cineasta que desrespeitava as mulheres, mostrando-as como vítimas e submissas à brutalidade masculina (é mais ou menos o que falam de Gaslight, segundo Robin Wood em sua clássica "Nota sobre o politicamente correto"). 

Perde-se de vista o ritmo perfeito da maior parte de seus filmes, fossem ou não construidos em torno de diálogos. Tremenda bobagem, obviamente. Como nunca fiz um Top 10 desse diretor sensacional e um pouco esquecido, aí vai:

1) Boêmio Encantador (Holiday, 1938)
2) Da Mesma Carne (The Marrying Kind, 1952)
3) Jantar às Oito (Dinner at Eight, 1933)
4) Núpcias de Escândalo (Philadelphia Story, 1940)
5) À Meia Luz (Gaslight, 1944)
6) My Fair Lady (1964)
7) A Costela de Adão (Adam's Rib, 1949)
8) Les Girls (1957)
9) Nascida Ontem (Born Yesterday, 1950)
10) As Mulheres (The Women, 1939)

Obs:
a) poderia chegar aos 15 (talvez aos 20) e manter o nível ainda alto. Little Women, Dama das Camélias, Fatalidade e Nasce uma Estrela poderiam ter entrado dependendo do dia. 
b) nunca gostei de Adorável Pecadora. Não lembro por quê.


Escrito por sérgio alpendre às 02h28
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Copacabana Mon Amour

Em 2001, dentro da Mostra de cinema marginal exibida no recém nascido CCBB paulistano, vi pela primeira vez, em 35mm, Copacabana Mon Amour. Na saída lembro de ter comentado com Jairo Ferreira, figura certa nas sessões da mostra: "é bom, né? mas é o Sganzerla que menos me entusiasma". Ele respondeu: "sim, aquelas cenas de magia não me são legais". Jairo, que poucos dias antes havia elogiado as cenas de magia de um outro filme, o Perdidos e Malditos de Geraldo Veloso, entendia a magia de Copacabana como equivocada.

Revendo o filme ontem, restaurado, no Cinesesc e em 35mm, lembrei bastante do Jairo quando me deparei com cenas de umbanda muito mais leves do que eu mesmo tinha achado na época da mítica sessão no CCBB. Pode ser que o próprio diretor tenha sacado que as cenas eram fortes e atenuado um pouco a carga (o filme foi constantemente remontado por Sganzerla). Ou é mais uma peça pregada pela memória.

No mais, todo mundo que vai filmar com câmera na mão precisa estudar detidamente este filme (e muitos de Pasolini também, ainda que Sganzerla se comporte como um anti-intelectual), nos travellings mizoguchianos que Renato Laclete filmou sentado num capô de fusca (segundo ele mesmo). Porque a câmera de Sganzerla sempre procura mostrar, revelar, explorar, enquanto a maior parte dos filmes feitos hoje com câmera na mão buscam apenas o efeito "câmera na mão".


Escrito por sérgio alpendre às 17h30
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Encerrando 2013 - Parte 3 (Hong Sang-soo, Ceylan)

- Por que não vi A Visitante Francesa no Cinesesc, quando lá estreou em algum momento do ano, é a pergunta que me ronda a cabeça em modo lamurioso. É o filme mais engraçado de Hong Sang-soo ao lado de A Mulher na Praia, e certamente o melhor, ao lado de Turning Gate e Conto de Cinema. Mas que diabos. É uma mania minha rankear tudo. De fato o diretor saiu do modo piloto automático de seus filmes safra 2009-2011 e nos brinda com algo realmente forte. Muito do humor vem da dificuldade de se virar em outra língua que não a natal, e nisso o personagem mais interessante é o Salva Vidas. Ele aparece nas três variações da história, sempre dando um show cômico particular. E há muito tempo Isabelle Huppert não exalava tanto frescor. A parceria fez muito bem ao diretor e à atriz. 

- Nunca fui fã de Nuri Bilge Ceylan, apesar de Distante (Uzak) ter me enganado à época com seu pastiche de Tarkovski. O prosseguimento de sua carreira, com os horrendos Climates e Three Monkeys, ajudaram a colocar as coisas em seu devido lugar. Mas é preciso dizer que Era Uma Vez na Anatólia é um bom filme, ao menos desde o momento em que deixamos de nos preocupar com sua duração (150 minutos que, na primeira hora são cansativos). É que o começo é um tanto reiterativo, um convite ao sono. Quando conhecemos melhor os personagens conseguimos pegar mais o humor sutil, as camadas de pitoresco que surgem na trama que envolve a procura de um defunto na área rural da Turquia asiática.


Escrito por sérgio alpendre às 00h36
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Encerrando 2013 - Parte 2 (De Palma, Corneau, Bertolucci)

- Normalmente esta série é dedicada aos filmes que estrearam comercialmente no Brasil e que eu perdi por algum motivo. Vejo-os no fim de dezembro e começo de janeiro para terminar minha lista anual de melhores de cada ano. Resolvi abrir uma exceção a Passion, de Brian De Palma, que estava na lista de estreias em abril e misteriosamente sumiu em alguma gaveta perdida de distribuidora pequena (não lembro qual). É uma pena, pois trata-se de um belo filme do diretor.

É a refilmagem de Crime de Amor, filme francês produzido pelo mesmo Said Ben Said que produziu os últimos De Palmas e dirigido por Alain Corneau em 2010 (e que, de maneira injusta, fui conhecer só depois de ter visto Passion). Injustiça porque o remake de De Palma é maneirista e se utiliza de um onirismo praticamente inexistente no original. Por isso devia ser visto depois, para não eclipsar o outro. 

Não vi muitos filmes de Corneau, mas gosto daqueles que vi, com destaque para o policial Police Python 357, de 1976. Sua direção em Crime de Amor é mais clássica, combinando bem com os cenários chiques da empresa onde trabalham as principais personagens com os enquadramentos equilibrados e as atuações contidas. Tudo é mais discreto no filme original. 

Em Passion, De Palma também combina estilo e cenário, só que esse cenário é composto por prédios envidraçados, como os que vemos, por exemplo, nos filmes de Christian Petzold, e ambientes mais modernistas. Tudo a ver com Petzold, aliás, já que a trama de Passion se passa na Alemanha. Nesse caso o estilo é obrigatoriamente maneirista, com a câmera se movimentando em volta dos personagens e os enquadramentos tortos à maneira de Paul Wendkos ou Sidney J. Furie nos anos 1960. O relato alterna sonho e realidade, ou sonho e pesadelo, de forma a tornar cada incongruência narrativa justificada em retrospecto. De fato, é uma espécie de portfólio do estilo do diretor. Tem um efeito de split screen monstruoso de bom, os planos longos que De Palma sempre perseguiu e até uma pessoa revelando-se ameaçadoramente por trás do corpo de outra.

É um filme para mostrar ao mundo um autor que ainda está pulsando, ainda pode nos maravilhar. Basta apenas que o deixem filmar.

- Sobre Eu e Você, o último de Bernardo Bertolucci, só posso dizer que é superior a Os Sonhadores (e seria difícil não ser). Impressionante como Bertolucci parece desinteressado. Uma cena de dança entre os dois irmãos, que poderia ser um grande momento isolado do filme, é praticamente destruída por um corte desajeitado, que interrompe o clima, a música e a possibilidade dramática promovida pelos olhares trocados durante a dança.


Escrito por sérgio alpendre às 01h58
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Encerrando 2013 - Parte 1

Antes de partir para os filmes que perdi no ano, dá tempo de ver ainda algumas estreias de dezembro, na esperança que algumas delas consigam entrar no TOP 10 que sairá em janeiro na Interlúdio.

A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, é ofensivo à memória de Fellini, porque força comparações com A Doce Vida (1960) e Roma (1972). Filme todo consumido pela decadência que pretende mostrar, começa como propaganda de Martini e termina como um poço de pretensão filmado como uma grande e alegórica lição de moral. 

- A Vida Secreta de Walter Mitty, de Ben Stiller, faz com que o simpático filme homônimo de 1947, com Danny Kaye e direção de Norman Z. McLeod, pareça ainda melhor. Filme de mensagem: "seja aventureiro, criativo, sonhador". Assim, Walter viaja o mundo atrás de um fotógrafo sem saber que o negativo procurado estava o tempo todo em seu bolso. Não importa. Ele finalmente deixou de sonhar para perseguir uma vida de verdadeiras aventuras. Mas a falta de lógica nas sucessões dos eventos indica que ele continua sonhando. Portanto, a mensagem está numa garrafa que não pode ser aberta.


Escrito por sérgio alpendre às 00h03
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Dossiê Fassbinder na Interlúdio (e mais futebol)

Saiu o quinto dossiê da Interlúdio. Desta vez o homenageado é Rainer Werner Fassbinder.

Você pode acessar diretamente aqui:


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Ainda futebol:

Ainda sobre o escândalo do Brasileiro 2013 (prometi nunca mais escrever sobre futebol, da mesma maneira que nunca comento política, mas a injustiça está repercutindo de forma positiva em alguns lugares, e negativa em outros). Quero deixar mais pitacos. O texto é longo; quem não aguenta mais o assunto pode se retirar. Não ficarei chateado. Prometo voltar nos próximos posts exclusivamente a assuntos cinematográficos, por um bom tempo.

Primeiramente: o futebol carioca há muito se beneficia das decisões do STJD. Desde antes do caso Sandro Hiroshi, quando o SPFC meteu seis no Botafogo e perdeu seis pontos pela escalação de um jogador irregular. No mesmo ano o Flamengo fez o mesmo, e os safados do STJD disseram que o clube era inocente porque não sabia (que cara de pau). Enfim, claro que times de outros estados também já se beneficiaram (os grandes, digo), mas existe bairrismo no futebol, e deixar só auditores cariocas num julgamento desses configura máfia, sim. 

Por outro lado, noto uma divisão entre os jornalistas sérios. Uma divisão que pode ser explicada pelo bairrismo. Ouço que o carioquíssimo SporTV está contra a decisão. Palmas para os comentaristas do canal. Mas vou falar do canal que eu acompanho, a ESPN. Os dois jornalistas paulistas, Juca Kfouri (que às vezes eu tolero) e Paulo Vinicius Coelho (que eu admiro) tiveram posturas lamentáveis no caso. Kfouri dizendo que a diretoria do Fluminense nunca cometeria uma bobagem dessas (escalar um jogador irregular) foi uma vergonha de bajulação. Já o sério PVC agiu como um advogado do STJD ao entrar com o papo de que a Portuguesa errou, e ressaltando sempre que o Fluminense não tem nada a ver com isso.

Tem, sim. Como qualquer time grande teria, pois todos estariam preocupados com o dinheiro que iriam perder indo para a série B. Futebol, nessas horas, fica em quinto ou sexto plano. Por que o medo de culpar o Fluminense? Para não desagradar os espectadores cariocas? Ora, essa não deve nem pode ser a preocupação de um canal que se leva a sério. Mas foi o que pareceu.

Na mesma ESPN, três cariocas - Mauro Cesar Pereira, José Trajano e Márcio Guedes - estavam indignados, única postura aceitável de alguém que goste de futebol. Penso que, por serem cariocas, não temem tanto a acusação de bairrismo, e mostram sua indignação sem receio de ferir a imensa massa de espectadores mimados (Mauro Cesar deve ser odiado por todos os torcedores por essa independência louvável). Márcio Guedes foi o que falou mais bonito: ao procurar fazer a lei, o STJD não fez justiça. Foi algo assim que ouvi dele no Linha de Passe. Bravo. 

No Facebook, torcedores de sempre, em Sampa ou no Rio, dizendo as barbaridades costumeiras. Mas no meio deles algumas mentes lúcidas, todas do Rio, incluindo um tal de Carlos, da Puc, que não conheço, mas que chegou a mim por ter sido compartilhado por um amigo virtual (loucuras da internet). Ele foi o mais sensato, e está totalmente contra a decisão vergonhosa. Pelo discurso dele, parece um advogado. Mostra-se ciente das leis e tudo mais. Mas é daqueles que pensam, que acreditam em justiça (retornando ao Márcio Guedes). Fechei com esse desconhecido, o mais lúcido que encontrei no Facebook. Enquanto isso, a imprensa paulista se divide entre robôs e fanáticos que não são levados a sério. Triste demais.


Escrito por sérgio alpendre às 19h59
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Comentários de Facebook

Blue Jasmine cai na memória e entra no grupo de filmes capengas de Woody Allen. Tentarei rever até o fim do ano para confirmar essa impressão.

- Educação Sentimental, de Bressane, estreou em uma única e pequena sala, um único horário. O Estranho Caso de Angélica, me dizem, teve péssimo desempenho nos cinemas daqui. A inteligência foi praticamente banida do circuito comercial paulistano.

- Em futebol, torço para que mais times do Nordeste frequentem a série A, e para a máfia do STJD (que encontra respaldo nos clubes grandes cariocas e até mesmo nos demais clubes grandes do país - afinal, é o dinheiro que manda) ser destruída. Se o Fluminense jogar mesmo a série A no ano que vem e não houver nenhum boicote grande ao campeonato e à CBF, o futebol brasileiro tem mais é que morrer (incluindo aí meu time, o Corinthians). E me entristece ver um cara como o Paulo Vinícius Coelho, mestre do bom senso, sendo tão frio quanto um advogado na questão dos mafiosos contra a Portuguesa. 

P.S. Comecei a me distanciar do futebol, pela terceira ou quarta vez, e desta vez mais concretamente, quando ocorreu o acordo das trasmissões futebolísticas com a Globo, um acordo que dava muito mais dinheiro para Corinthians e Flamengo e que os outros clubes aceitaram por pura podridão. A partir desse início de barcelonização do futebol brasileiro, e pela maneira que se deu (com os times dependentes demais da Globo) deixei de me importar com esse esporte submisso ao dinheiro e à sujeira. Tive uma recaída no ano passado por causa dos títulos inéditos do Corinthians, que, afinal, mesmo no meio de tanta podridão, foi conquistado em campo. Agora, por favor, quero novamente distância. E esta é a última vez que escrevo sobre futebol.

- O blog do Inácio Araujo no UOL está acabando. Discordo de uma série de coisas que ele escreveu por lá, principalmente nos últimos meses. Discordância mais do que normal, ainda que eu não discordasse tanto do Inácio anos atrás. Ao menos um post foi certeiro (e não é porque começa com meu nome, obviamente). Foi certeiro justamente porque faz um diagnóstico preciso do estado atual das coisas. O post, sobre como os leitores lidam com a crítica, é este aqui:



Escrito por sérgio alpendre às 19h59
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A Vida de Adèle

Queria falar um pouco sobre o filme da moda, Azul é a Cor Mais Quente. Uns amigos me têm como odiador do Kechiche, o que não é verdade. Ainda não vi Vênus Negra, mas La Faute à Voltaire é interessante, e A Esquiva não é nada desprezível. Não gosto mesmo de O Segredo do Grão. Foi com esse filme que percebi que o Kechiche filma mal, não sabe captar olhares (nada mais distante de Hawks, portanto). Isso fez com que os primeiros filmes caíssem, em retrospecto. 

A Vida de Adèle (que é o nome que deveria ter no Brasil - dane-se a HQ) tem sua força por causa das atrizes. Mesmo a Lea Seydoux, que brigou com o diretor e disse ter sido explorada, entrega-se apaixonadamente. Emma é o melhor papel da carreira dela. Mas o filme é da Adèle. Uma mulher estonteante, linda e sensual, que o Kechiche filma como um voyeur. Ou seja, o filme se vende como libertário e tal, mas é um tanto maniqueísta na representação do sexo, e usa os corpos das atrizes para atrair uma certa polêmica. Se ele soubesse captar olhares (algo que acontece naturalmente só quando as duas atrizes estão no mesmo quadro), a cena na boite de lésbicas seria muito melhor, assim como a da exposição de Emma, no final. 

E me irrita muito essa mania de filmar os atores chorando, com muco saindo do nariz. A reação de todo mundo é limpar essas coisas, não deixar para todo mundo ver. O diálogo entre Adèle e Emma, perto do final, tem muito disso. Aquele rosto angelical com o muco ali, para dar um toque de realismo que é, na verdade, bem falso. E o filme se alimenta muito desse tipo de falsidade. 

Tem texto na Interlúdio. É do Cesar Zamberlan. Concordo com algumas colocações, discordo de outras, mas é um texto que problematiza o filme:


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P.S. Blog quase abandonado. Não deveria ser assim, não quero que seja assim, mas os dias passam muito rápidos. Há algo de errado com a rotação da Terra. Não será mais assim, espero.


Escrito por sérgio alpendre às 10h43
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Nota de rodapé

Nota de rodapé do livro O Amor é Mais Frio do que a Morte, de Robert Katz, sobre a vida intensa de Fassbinder. Peter Chatel ia representar o diretor na coletiva sobre Despair, que havia sido exibido no Festival de Cannes. Segundo o relato de Chatel:

Antes de ir para a entrevista coletiva, fiz a Rainer algumas perguntas, prevendo que naturalmente seriam feitas na entrevista, como, por exemplo, por que apareciam tantos nazistas no começo do filme e depois não se via mais nenhum. Rainer disse: "Eu esqueci de filmar esses planos". "E eu deveria dizer isso aos jornalistas?". "Não", respondeu Rainer, "diga a eles que os nazistas aparecem no início porque em 1933 estavam muito presentes à consciência das pessoas, mas que depois todos se acostumaram a essa presença e deixaram de reparar nela."



Escrito por sérgio alpendre às 19h24
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Allen Denis Ozzetti Tati Assumpção

Blue Jasmine, Os Bastardos, Jovem e Bela. Três filmes meio sem vida, cada qual a sua maneira. O do Allen é o melhor. Pudera. Entre os três diretores (Allen, Denis, Ozon), desculpem-me os fãs da diretora francesa, ele é meu preferido. É o que melhor sabe filmar. O que normalmente quer dizer que seus filmes menos interessantes são, ainda assim, acima da média (exceções: Setembro, Alice, Igual a Tudo na Vida e mais um ou outro que estou esquecendo). Mas Allen, como Fellini, tem fãs chatos, o que causa birra em muita gente. Da Denis eu gosto de todos os filmes, exceto Os Bastardos, que me pareceu frouxo em sua exploração da degradação moral que nos rodeia. Quando o filme diz a que veio, termina. Prejudicou demais a projeção lavada do Reserva Cultural. Eles precisam dar um jeito nessas projeções. E Jovem e Bela é Ozon mais uma vez posando de artista, coisa que nunca foi, nunca será. A atriz é sem graça. Charlotte Rampling (cuja participação no filme é patética) dá um banho de sensualidade nela. As motivações dessa jovem que não é bela, a não ser para um padrão Shopping Center brega (ou as motivações que o filme inventa para ela) são ridículas. Mãe tendo relação extra-conjugal? Descoberta de que transar com amor é tedioso e doloroso? Mimos em excesso na família? Dá um tempo, Ozon.

- Chorei novamente num documentário musical que é ruim. Já tinha acontecido antes, com Novos Baianos. Aconteceu novamente, sempre que a geração da chamada vanguarda paulista entrava em ação em Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, documentário de Riba de Castro, um dos fundadores da mítica casa. O doc é ruim porque usa a típica montagem estúpida que pede depoimentos para depois agrupá-los num festival de repetições. Alguém fala que o palco era próximo do público, outros seis ou sete falam a mesma coisa. E é assim com quase todas as observações feitas. Haja paciência para tanta redundância. Chorei porque Grupo Rumo, Premeditando o Breque, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção são geniais. Esses caras herdaram o melhor dos Novos Baianos (a melhor banda brasileira da história), o que já justifica o uso de superlativos para suas músicas. Ná Ozzetti, jovem, linda, cantando "Delírio, Meu!", me levou aos prantos. Vi um show de Luiz Tatit certa vez. Foi num pequeno teatro de Pinheiros, por volta de 2006. Lembro que chorei litros também. Sou um maldito chorão.


Escrito por sérgio alpendre às 23h34
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